6 on 6: a pessoa que sou


 

Talvez, eu seja canção.

Dessas que o vento desliza e busca sinfonias
E chega um dia em que não resta quase nada para cantar ou contar.
talvez eu seja um poema ou uma velha história
quase secular ou criada no instante de agora
o mar, é essa estrela dele mesmo feito porcelana na estante;
o verbo do oceano marítimo em mim
e eu, essa pessoa que sou.
Ou posso ser o mês de outras estações
florescendo ipês no quintal

e na rua de cima sou a menina a espiar pelos muros dentro dos dias

 

 

aqui, há um pulmão que teima em respirar
células em cura e um coração habitado de fé.
de alma, sou só metade, sou parte deles…
essa válvula de escape entre o desejo e a vontade
e essa realidade doida me leva ainda por corredores
onde a estação é apenas uma só
sou segredo e brevidade
a palavra e o eco
o chão e o abismo e o vácuo…
se você perceber, sou fagulha ou sopro
talvez apenas vento que a mãe repetia na reza do espírito santo
Amém!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Plural Editora
PARTICIPAM DESTE PROJETO: 
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega, Maria VitóriaMari de CastroCilene Mansini
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6 on 6 – J.u.n.h.o

 

Ah, junho! Desde pequena aprendi a viver seus sabores,

Suas cores e seus dias…
Logo no primeiro dia do mês, a vida do pai sendo reverenciada e o amor ali, renascendo nos dias que se seguem. Tudo é jeito de mãe a fazer gostosuras com o milho.

O frio, no aquecer improvisado  nos casacos desbotados e as festas de seus santos revivendo tradições… é como se repetisse em mim, nas memórias as bandeirinhas e os balões a dançarem com a lua… As festas onde os primos se encontravam para as lembranças todas.

As lanternas chinesas trazendo cheiros nos quintais, lembrando o santo casamenteiro, as simpatias e a fogueira acalentando nossos corações.

 

É logo ali, seus dias passam rapidor e o sol a aquecer as manhãs frias enquanto no cerrado, os ipês recriam mais um ciclo da natureza.

E na devoção do pai, a reza,
e a ave em comunhão com o tempo.
Junho é esse desaviso na folhinha quando o calendário marca a lógica de amar.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse Projeto:

Lunna GuedesMaria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6 | O QUE TE INSPIRA?

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade

Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

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“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida
(Graça Carpes)

Toque (borboleta).

 

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

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“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”
Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

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“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele,na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

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“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

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“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 

Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.
Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.
É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

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Mariana Gouveia
PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6  | O QUE TE INSPIRA?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Participam desse projeto: Lunna Guedes, Tatiana Kielberman, Obdúlio Nunes Ortega
e Maria Vitória.

Selvagem

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Como um sopro eriçando os pelos
como o assanhar leve dos cabelos
e a saia que teima em subir
e o perfume que cheguei a sentir
Selvagem é o vento que te traz a mim

Selvagem é tudo que me liga a você
o vento que Van Gogh pintou
dos movimentos que ele expressou
dos ipês que ele não desenhou…
e a folha que o vento derrubou
selvagem é o me leva a teu amor…

Mariana Gouveia

322. das fragilidades secretas

Perdeu o cheiro da chuva, depois do vento.
O temporal atingiu toda a rua de cima e numa esquina qualquer o vazio das horas.
O homem da reciclagem nunca mais passou… ficou a caixa vazia com as garrafas descartáveis e refaço o mesmo percurso diário das vezes que o vi empurrando a carriola para ver se o encontro.
As meninas do clube perderam a hora na última semana. Vieram caber todas dentro de um abraço no portão. Perguntam também pelo homem da reciclagem.
A rua de cima é vazia sem ele. Fica esse oco na esquina onde os cães latem em alerta.
Lembro – me que ele conhece as constelações todas, sabe o nome dos rios e entende o movimento do vento. Contava a história da árvore que ele mesmo plantara ali, logo acima da casa da esquina, onde morava antes de se mudar. Hoje, é a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias, fora de hora.
É o lugar onde os pássaros buscam abrigo, depois que fiquei órfã de árvore no meu quintal.
Podia não saber meu nome direito – me chamava de menina e eu o chamava de mestre – mas conseguia colocar esperança dentro das minhas poesias.

Mariana Gouveia
322. das fragilidades secretas

316. das fragilidades secretas

 

Das coisas que guardei no baú há as palavras ditas e que fogem cada vez que abro ele…

o dia teu, de amanhã
fosse o calendário de todos os dias, festa.

A noite, preparada em céu de estrelas onde o silêncio é som, propagado em grito.
Havia fantasmas espalhados pela sala. Devia ser suas lembrança em flores de ipês… Tudo registrado nas lembranças como se fossem retratos antigos. As imagens coladas à parede, onde o estuque era azul, antes da tinta verde,
Cinco minutos por dia eu ofereço amor em tuas rotas e guardo, ali, junto ao baú o beijo que arrepia a alma ainda hoje e que ainda não dei, enquanto a primavera reascende seus aromas na rua de cima…

Mariana Gouveia
316. das fragilidades secretas

299. das infinitudes

 

“Em mim haverá paixão até que a última flor de ipê caia e enfeite o chão…”

Fabrício Hundou 

Luci, enquanto procuro que artesanato começar eu me vejo pensando em você e na delicadeza de seus atos.
Falei do Zep para um moço da aldeia – mostrei as fotos tuas na delicadezas das coisas – e a vida, de fato, se mostrou encantada para quem cuida da natureza.
A bicicleta laranja é a docilidade da minha infância e de repente, lembro – me do riso da tua Anna. Você tem a flor do campo em tua casa.
Pintei três paredes enquanto desenhava sua histórias nos rabiscos da mente.

Abri o armário para escolher as linhas e as agulhas bordaram contos de fadas para quem vai nascer.
Luci, às vezes, a vida precisa disso – urgentemente – e lá fora, o silêncio é apenas o canto do grilo. Meu quintal está vazio de árvores e uma criança que sempre tem um dragão nas mãos plantou de novo a semente do amor.
Brotou rapidinho e o riso ecoou rua afora.
Colhi mil flores na rua de cima… uma hora te conto sobre a rua de cima e seus pés de ipês.
Tem dia que o chão fica amareladinho feito ouro. Dá vontade de deitar como se fosse cama.
O lindo é necessário em alguns dias e quando preciso reavivar a ternura, corro ao Zep…
Poderia te contar da laranjeira do vizinho, que na última chuva teve alguns galhos quebrados e a flor serviu de morada para as joaninhas.
A felicidade deve ser isso que a gente pode tocar… o vento na janela, a cortina a balançar mostrando uma fatia de lua que reflete na bacia de água no quintal e uma rua inteirinha de sol de flores a esparramar poesia no chão.

Beijo

Mariana Gouveia
299. das infinitudes