322. das fragilidades secretas

Perdeu o cheiro da chuva, depois do vento.
O temporal atingiu toda a rua de cima e numa esquina qualquer o vazio das horas.
O homem da reciclagem nunca mais passou… ficou a caixa vazia com as garrafas descartáveis e refaço o mesmo percurso diário das vezes que o vi empurrando a carriola para ver se o encontro.
As meninas do clube perderam a hora na última semana. Vieram caber todas dentro de um abraço no portão. Perguntam também pelo homem da reciclagem.
A rua de cima é vazia sem ele. Fica esse oco na esquina onde os cães latem em alerta.
Lembro – me que ele conhece as constelações todas, sabe o nome dos rios e entende o movimento do vento. Contava a história da árvore que ele mesmo plantara ali, logo acima da casa da esquina, onde morava antes de se mudar. Hoje, é a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias, fora de hora.
É o lugar onde os pássaros buscam abrigo, depois que fiquei órfã de árvore no meu quintal.
Podia não saber meu nome direito – me chamava de menina e eu o chamava de mestre – mas conseguia colocar esperança dentro das minhas poesias.

Mariana Gouveia
322. das fragilidades secretas
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316. das fragilidades secretas

 

Das coisas que guardei no baú há as palavras ditas e que fogem cada vez que abro ele…

o dia teu, de amanhã
fosse o calendário de todos os dias, festa.

A noite, preparada em céu de estrelas onde o silêncio é som, propagado em grito.
Havia fantasmas espalhados pela sala. Devia ser suas lembrança em flores de ipês… Tudo registrado nas lembranças como se fossem retratos antigos. As imagens coladas à parede, onde o estuque era azul, antes da tinta verde,
Cinco minutos por dia eu ofereço amor em tuas rotas e guardo, ali, junto ao baú o beijo que arrepia a alma ainda hoje e que ainda não dei, enquanto a primavera reascende seus aromas na rua de cima…

Mariana Gouveia
316. das fragilidades secretas

299. das infinitudes

 

“Em mim haverá paixão até que a última flor de ipê caia e enfeite o chão…”

Fabrício Hundou 

Luci, enquanto procuro que artesanato começar eu me vejo pensando em você e na delicadeza de seus atos.
Falei do Zep para um moço da aldeia – mostrei as fotos tuas na delicadezas das coisas – e a vida, de fato, se mostrou encantada para quem cuida da natureza.
A bicicleta laranja é a docilidade da minha infância e de repente, lembro – me do riso da tua Anna. Você tem a flor do campo em tua casa.
Pintei três paredes enquanto desenhava sua histórias nos rabiscos da mente.

Abri o armário para escolher as linhas e as agulhas bordaram contos de fadas para quem vai nascer.
Luci, às vezes, a vida precisa disso – urgentemente – e lá fora, o silêncio é apenas o canto do grilo. Meu quintal está vazio de árvores e uma criança que sempre tem um dragão nas mãos plantou de novo a semente do amor.
Brotou rapidinho e o riso ecoou rua afora.
Colhi mil flores na rua de cima… uma hora te conto sobre a rua de cima e seus pés de ipês.
Tem dia que o chão fica amareladinho feito ouro. Dá vontade de deitar como se fosse cama.
O lindo é necessário em alguns dias e quando preciso reavivar a ternura, corro ao Zep…
Poderia te contar da laranjeira do vizinho, que na última chuva teve alguns galhos quebrados e a flor serviu de morada para as joaninhas.
A felicidade deve ser isso que a gente pode tocar… o vento na janela, a cortina a balançar mostrando uma fatia de lua que reflete na bacia de água no quintal e uma rua inteirinha de sol de flores a esparramar poesia no chão.

Beijo

Mariana Gouveia
299. das infinitudes

294. das infinitudes

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Antes do temporal, na rua de cima – era ainda a manhã e o sol de todo dia –  os ipês festejaram o vento e espalharam suas rosas e as paletas de cores a desenhar o céu.

As crianças brincavam na rua com seus gritos e falas apressadas. Um gato subiu no telhado e a ave de todo dia dormiu no varal que dançava com as roupas e seus prendedores…

Li Clarice em um instante do dia, uma frase qualquer, dessas que todo mundo repete por ser o dia do poeta – como se poeta precisasse de dia para ser –  e tomei chá gelado.

Da varanda eu via as nuvens e sua pressa em correr o céu e as flores que ainda eram da árvore desprendeu – se todas e fizeram um tapete no chão.

E de repente, como se os ninhos fossem sobreviver à tempestade das coisas, veio a fúria do dia dentro do vento…

Alguém contou o que se passou sobre as águas… havia o menino tentando afogar os brinquedos na poça que se formou no quintal.

As mulheres recolhendo a roupa do varal e os muros sendo derrubados onde a parede morreu.
Como se a terra fosse feita de papel e as fronteiras com o medo fossem feitas de nada nenhum esculpimos as palavras em orações e alguém desejou a sorte do dia.

E onde o vento bateu fiquei sem saber o nome das árvores…
Foi quando o abraço conheceu o sentido do afeto.

 

Mariana Gouveia
294. das infinitudes

 

— É uma rosa rubra a autora dessas linhas

— É uma rosa rubra a autora dessas linhas.JPG

”E seu corpo iria girar, até que a última nota de seu coração parasse e fervesse sobre seus pés.”
Sekai Mato

 

Nasci no meio de 6 irmãos. Éramos 7… eu – a do meio – lunática, estranha, tudo porque gostava de livros, de ler. A que escrevia e que sabia contar histórias ou inventar.

Havia a meiofadameiobruxameioflor quem me trouxe ao mundo e que fazia os partos de toda a região, inclusive dos meus irmãos e primos. Para mim, ela era mesmo uma fada que transformava em magia tudo que tocava.

Os cogumelos ganhavam, na fazenda, um toque especial sobre suas mãos.

A floresta tinha o sentido claro de mundo encantado para mim e o tecer do capim dourado era a própria magia.

Era Florinda ou Dona Fulô e foi ali, naquele mundo em sua volta que aprendi o costurar das letras. Primeiro, de carreirinha, para logo mais emendar as palavras e fazer delas, versos. D. Fulô – ou minha bá – não conhecia nenhuma letra. Nem sabia manusear a pena – como ela dizia – mas sabia o poder delas sobre o mundo e quando deitada na rede, debaixo do pé de manga eu lia alguma coisa para ela, os olhos dela viajavam para além dos campos dourados de sol.

Passei a registrar todos os momentos em papéis de pão que minha mãe costurava e transformava em um caderno para escrita. Os cadernos, desses de capa dura, eram aos meus olhos, luxo puro, que atentos espiavam quando na visita à cidade passávamos em frente à papelaria ou armazém. O primeiro só veio anos depois quando entrei para a escola.

A letra era a chave para minha timidez e me manter longe das encrencas dos meus irmãos. O mundo se abria quando eu conseguia montar uma frase, uma carta e os olhos fechados da bá e o riso inquieto de minha mãe eram poemas que ninguém mais tinha. Só eu!

Eu desenhava perto delas a lua e o céu estrelado. A rosa rubra do jardim, e a natureza aos meus olhos parecia um quadro, desses que só via em revistas. Mas era uma pintura que minha mãe conseguia transformar em bordado. Depois eu pintava meus pés de asas e com isso eu podia voar. Passei horas procurando estrelas para botar no quarto, borboletas para nascerem no quintal e um ipê amarelo do lado da cerca, com a casinha simples ao fundo sendo cenário de uma infância que me fez no que sou hoje.

Com isso, consegui espantar os nuncas e me tornei portadora da fé.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural Editora
Crônicas de Outubro

 

258. Entre uma estação e a primavera

 

Acho que foi em setembro quando os dias ganharam contornos de asas. A folhinha do calendário soltou-se – nem dava para saber que lua era – e o céu era povoado de flores.
Sabia apenas que ainda não era primavera, apesar das flores dos ipês mostrarem o contrário e tudo doía feito osso quebrado – na alma – e confundi a canção na voz estranha da cantora favorita.
Acho que foi nesses dias em que antecedem festas. Aniversário de alguém, sei lá!
Só sei que me perdi terrivelmente dentro do dias e fiquei apenas sendo vazio sem você e quando vi os corações nas paredes, quase apagados e os corredores com a solidão do seu nome onde a lua em meus dedos escreve o amor.

Mariana Gouveia
258. Entre uma estação e a primavera

229. das impressões do dia seguinte

Floresceu tudo de vez na rua do meio. A calçada coube cheiro de flor em todo canto e a primavera antecipou as estações dentro do olho.
O mundo ficou cor de rosa por onde pisava. Era como se a menina da infância criasse poder de colorir a sua volta. Coloria o riso da menina que gostava de sorvete. Coloria o muro do outro lado da esquina.
Os ipês ganhavam cor de quando a vida era andar descalça pelo capim dourado do campo e a fileira da árvore que o pai plantou, floria assim no mês de Agosto e a canção sertaneja ressaltava um mês onde era denominado o mês do ipê.
E no fim de tarde, quando o vento vindo dos lados do sul arrastava cheiro de flor por toda rua, ouvia um farfalhar de flores como se a saudade tivesse voz dentro dela.

Mariana Gouveia
229. das impressões do dia seguinte