PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6 | O QUE TE INSPIRA?

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade

Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

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“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida
(Graça Carpes)

Toque (borboleta).

 

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

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“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”
Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

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“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele,na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

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“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

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“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 

Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.
Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.
É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

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Mariana Gouveia
PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6  | O QUE TE INSPIRA?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Participam desse projeto: Lunna Guedes, Tatiana Kielberman, Obdúlio Nunes Ortega
e Maria Vitória.

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365. dos verbos indefinidos

Retirou a tipoia do braço nessa ânsia imprecisa da escrita.
O vento lembrou Berlim em uma época que não estava lá.
Havia margaridas alimentando insetos com seus polens. O último dia antecede ao primeiro.
As janelas dão vistas para a lateral da canção.
Um ciclo se encerra e outro recomeça no agora.
Rabiscou à lápis as cidades que nunca visitou. Adoraria andar descalça pelas ruas de Paris. Lisboa conheceria sua voz dentro dos fados pelas vielas e ficaria em silêncio reverencioso nos arrozais da China.
Lembrou – se de que viu em algum lugar as vilas coloridas e suas casinhas brancas com gerânios florindo nas janelas – parecia uma pintura que a irmã sabia fazer desde pequena – ficou em dúvida se era de verdade isso tudo ou apenas poesia para acalmar a alma e afastar a solidão de um dia grande.
O pai incutiu- lhe a ideia de reverenciar os dias grandes. Seguia sempre os rituais que aprendeu desde criança e embora soubesse que isso era superstição seguia rigorosamente cada um deles.
Por isso, em um desafio no início de 2017  resolveu reverenciar os dias grandes. Todos os dias do ano e durante os 365 dias que se seguiram reverenciou-os com os rituais, as palavras das cartas, vibrou na estação das águas e se renovou nos dias aleatórios de abril.
Viveu cada um dos grandes com momentos únicos dentro dos dias diferentes dos outros dias.
Conheceu a autonomia dos voos e sentiu as impressões do dia seguinte, que era nada mais do que o agora.
Entre uma estação e a primavera coube nas infinitudes das coisas .
Tudo tão mágico e grande. Tudo tão pequeno e tão tanto.
Dentro dos verbos indefinidos ousou viver mesmo quando o diagnóstico dizia o contrário.
A vida é logo ali.
Cada dia é um dia grande para viver.
O desafio foi cumprido. Somente um dia, em todos esses 365 dias se resumiu em umas poucas palavras. Mas, você que me acompanha, nem deve ter percebido porque mesmo nesse dia ruim, eu o vivi como dia grande. Seja você o definidor do verbo que vai gerenciar seus dias em 2018.
Os próximos dias serão de dias grandes!  Façam valer a pena!

Feliz tudo novo!

beijo
Mariana Gouveia
365. dos verbos indefinidos

350. dos verbos indefinidos

Era essa a maneira de nos encontrarmos.

A fluidez do líquido – e  a água – nas histórias contadas.
A parte do humano quase real – os ossos, a pele – ardendo em febre e a solidez do dia.
A colheita sendo parte da história. A moça de branco na ligação que não atendi. O diagnóstico mudado no envelope.
Era o amanhecer um dia típico. como a selva nas palavras que li e o jardim transversal era uma coragem dentro do medo.
Na ponta da unha, a cor. O carmim a exalar essências quando o sangue é tudo rubro.
Ausência… seu nome é quando?
A tatuagem invisível entre a primavera e outra estação.
Meu medo estampado nos tecidos da cortina e a rua de cima feita de silêncios.
Mariana Gouveia
350. dos verbos indefinidos

346. dos verbos indefinidos

Traçou a rota do dia. Mudou as rotinas todas. Pendurou a asa no varal. Havia previsão de chuvas.
A lua era apenas um risco dentro da nuvem.
Um menino de cabelo laranja mudou o dia. Às vezes, o destino improvisa as coisas e as horas tem cheiro de frutas.

As distrações trazia vontade em outros idiomas. Um sábio mudou para o endereço além das estrelas, enquanto guerreiros mudam rituais no dia.
A paz pode ser descrita em um poema, mesmo com uma guerra interna sendo travada na alma.
A sorte do dia sendo decifrada em um jogo de memórias. O riso encerra o abraço com a vida. A ignorância das marés criando hábitos em um dia marítimo.
A  fortuna chegando na flor da laranjeira. O verbo mudando o fim da página.
Os elementos da loucura sendo refúgio para as noites do nada e a verdade desbotada no boato do que o olho criou onde a paisagem é essa janela onde o vento bate.

Mariana Gouveia
346. dos verbos indefinidos

338. dos verbos indefinidos

Colhe – se o verbo do dia na sintonia da chuva. Tudo era a umidade do tempo nas folhas do quintal.
O oceano era a gota na colheita. A vida tem esses improvisos de sorte.

Habituada ao silêncio…

(Sobre a ternura, todo rio é feixe)
Todo verbo, indefinido na alma.

A memória é esse vento oco sacudindo as cortinas.
A primavera quase se despedindo dentro da estação.

Nas previsões das cartas, o louco foge da liquidez das horas.
Na véspera das águas o rumor é de trigos. A vontade catando minutos entre o sentido contrário. Os corredores com baldes amparando goteiras.

A roupa molhada esquecida no varal e o canto da chuva causando essa falta de lucidez no peito.
O caminho é a espessura da alma perto da boca.

Mariana Gouveia
338. dos verbos indefinidos

335. dos verbos indefinidos

Fez o chá das pétalas brancas.
Conferiu na folhinha o tempo do gás. Marcou na agenda a reunião da manhã.
Refez o rito da fé. Molhou as plantas suspensas, conversou com as horas dentro do próprio tempo – a vida tem essas delicadezas, às vezes – e o suspiros tem a sensação de que a magia é essa troca de carinho.
Amanhã, a densidade pode ter outro tom.
Mariana Gouveia
335. dos verbos indefinidos

326. das fragilidades secretas

 

A espera é esse bilhete de papel na parede,  o desenho opaco do coração que rabisquei e que o tempo desbotou.
A roupa no varal a dançar com o vento.
Deveria te escrever essa carta. Falar do tempo que muda constantemente. O pé de romã brotou. Os musgos tomaram conta da parede do canil.
A erva doce exala de alguma cozinha por perto. Penso em chá.
A tarde amarelou depois da chuva; Lembrei de outras cartas que rasguei sem enviar; o homem da reciclagem apareceu. Falou de saudades que não deixou ele trabalhar. Suspirou dentro da madrugada passada. Chovia.
A cor que acolhe a noite tem os tons que aquece o peito. Devia caber na alma essa solidão.
Fujo apressadamente dos raios que envolve a noite. Cuido dos insetos para que não molhem. Um ninho deles inteiro foi salvo enquanto chovia.
Por um instante, a vida é esse aconchego que enxergo ali…

Mariana Gouveia
326. das fragilidades secretas