350. dos verbos indefinidos

Era essa a maneira de nos encontrarmos.

A fluidez do líquido – e  a água – nas histórias contadas.
A parte do humano quase real – os ossos, a pele – ardendo em febre e a solidez do dia.
A colheita sendo parte da história. A moça de branco na ligação que não atendi. O diagnóstico mudado no envelope.
Era o amanhecer um dia típico. como a selva nas palavras que li e o jardim transversal era uma coragem dentro do medo.
Na ponta da unha, a cor. O carmim a exalar essências quando o sangue é tudo rubro.
Ausência… seu nome é quando?
A tatuagem invisível entre a primavera e outra estação.
Meu medo estampado nos tecidos da cortina e a rua de cima feita de silêncios.
Mariana Gouveia
350. dos verbos indefinidos
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346. dos verbos indefinidos

Traçou a rota do dia. Mudou as rotinas todas. Pendurou a asa no varal. Havia previsão de chuvas.
A lua era apenas um risco dentro da nuvem.
Um menino de cabelo laranja mudou o dia. Às vezes, o destino improvisa as coisas e as horas tem cheiro de frutas.

As distrações trazia vontade em outros idiomas. Um sábio mudou para o endereço além das estrelas, enquanto guerreiros mudam rituais no dia.
A paz pode ser descrita em um poema, mesmo com uma guerra interna sendo travada na alma.
A sorte do dia sendo decifrada em um jogo de memórias. O riso encerra o abraço com a vida. A ignorância das marés criando hábitos em um dia marítimo.
A  fortuna chegando na flor da laranjeira. O verbo mudando o fim da página.
Os elementos da loucura sendo refúgio para as noites do nada e a verdade desbotada no boato do que o olho criou onde a paisagem é essa janela onde o vento bate.

Mariana Gouveia
346. dos verbos indefinidos

338. dos verbos indefinidos

Colhe – se o verbo do dia na sintonia da chuva. Tudo era a umidade do tempo nas folhas do quintal.
O oceano era a gota na colheita. A vida tem esses improvisos de sorte.

Habituada ao silêncio…

(Sobre a ternura, todo rio é feixe)
Todo verbo, indefinido na alma.

A memória é esse vento oco sacudindo as cortinas.
A primavera quase se despedindo dentro da estação.

Nas previsões das cartas, o louco foge da liquidez das horas.
Na véspera das águas o rumor é de trigos. A vontade catando minutos entre o sentido contrário. Os corredores com baldes amparando goteiras.

A roupa molhada esquecida no varal e o canto da chuva causando essa falta de lucidez no peito.
O caminho é a espessura da alma perto da boca.

Mariana Gouveia
338. dos verbos indefinidos

335. dos verbos indefinidos

Fez o chá das pétalas brancas.
Conferiu na folhinha o tempo do gás. Marcou na agenda a reunião da manhã.
Refez o rito da fé. Molhou as plantas suspensas, conversou com as horas dentro do próprio tempo – a vida tem essas delicadezas, às vezes – e o suspiros tem a sensação de que a magia é essa troca de carinho.
Amanhã, a densidade pode ter outro tom.
Mariana Gouveia
335. dos verbos indefinidos

326. das fragilidades secretas

 

A espera é esse bilhete de papel na parede,  o desenho opaco do coração que rabisquei e que o tempo desbotou.
A roupa no varal a dançar com o vento.
Deveria te escrever essa carta. Falar do tempo que muda constantemente. O pé de romã brotou. Os musgos tomaram conta da parede do canil.
A erva doce exala de alguma cozinha por perto. Penso em chá.
A tarde amarelou depois da chuva; Lembrei de outras cartas que rasguei sem enviar; o homem da reciclagem apareceu. Falou de saudades que não deixou ele trabalhar. Suspirou dentro da madrugada passada. Chovia.
A cor que acolhe a noite tem os tons que aquece o peito. Devia caber na alma essa solidão.
Fujo apressadamente dos raios que envolve a noite. Cuido dos insetos para que não molhem. Um ninho deles inteiro foi salvo enquanto chovia.
Por um instante, a vida é esse aconchego que enxergo ali…

Mariana Gouveia
326. das fragilidades secretas

325. das fragilidades secretas

 

Já te contei que invento a rua de cima?
Que o silêncio quando ecoa, faz um barulho ensurdecedor?
Na rua de cima tem as meninas que cuidam da beleza. Coloca nos dedos, a cor. Tem cada nome o verniz que a moça de cabelos vermelhos desenha na unha.
É quase uma tentativa de colar jardim nas mãos.
A árvore que fica além da esquina, floresce. Lá, de noite, eu consigo ver as estrelas todas.
É quase vertical, o portal. Os muros altos e as trepadeiras invadem as casas com suas cores insanas.
Essa rua, inventei em detalhes.
As casas e suas cores vibrantes cheia se sons. E a vida acontece dentro dessa invenção.
A estação acontece dentro das horas.
As fotografias do instante sobre o muro. O voo dos pássaros a cruzar a linha imaginária que invento entre uma rua e outra.
Tudo ímpar. Os números da rua a combinar com as casas. A sorte desenhada nos trevos e a alma inventada na rua do nada.

Mariana Gouveia
325. das fragilidades secretas

324. das fragilidades secretas


O dia rompe as rotinas do nada. Era hora de espionar segredos. Na rota dos olhos, o espelho. Denuncia o cansaço de não dormir.
Ela anota. Eu anoto. Rasgo palavras que havia escrito. Uma espécie de silêncio no ar. Tão gritante e ao mesmo tempo, ensurdecedor.
Ando até a janela. O horizonte mostra a ilusão que vivi.
As frases ecoam na cabeça. Divagações do que poderia ter sido diferente e de como ainda brinca quando fecha etapas.
Escrevo o nome dela na janela do agora. Quase grito, quase chamo. Calo.
Ela anota. Eu apago. Rasuro. Sublinho. Acho bonito um nome sublinhado.
Desenho um coração junto. A neblina de fora oferece a opção da escrita.
Um homem pinta um portão de verde. Uma joaninha cai na lata de tinta. Eu a salvei antes que a tinta marcasse as asas.
Ela me olha. Espia os sentimentos que me atinge.
Falo de coisas surreais. Tatuei o nome dela no meu peito. Tenho um amigo imaginário que conversa comigo. Me diz que se chama Tempo e que a melhor escolha da vida, é viver. É um dragão que vive na minha mão. Sublinho a palavra tatuei. Ela ri.
Lembro do riso dela. Lembro de tanta coisa que fizemos juntas.
– Segura ele. Nunca vi um dragão.
– Ele é inofensivo. Só vive no meu imaginário.
Ela anota.
Fala da boneca de milho que era amiga dela quando era menina.
Penso na rapidez das horas. Ela olha o relógio na parede.
Confirma o diagnóstico: Falta de lucidez.
Coloca um comprimido vermelho na minha mão. Meu dragão come.

 

Mariana Gouveia – Divã
324. das fragilidades secretas