220. das impressões do dia seguinte

 

Você poderia me dizer se amanhã vai ser quente, se a cortina azul ainda dança na sua janela e que a brisa faz lembrar de mim.
Poderia me falar das coisas bobas que você fez. Da areia da praia onde encontrou os búzios coloridos e de como a exatidão da conchas cabem dentro do meu quintal.
Às vezes, as conversas bobas trazem o encanto e o sol debrua buscando a maresia que sopra aqui.
O vento te conta histórias que antigamente você lia. Os séculos perduram em relógios quebrados com as ondas do mar.
Os teus olhos buscam a incompletude onde o mar avança sobre meus passos.
Como desenhar as digitais de sua mão dentro de minhas histórias?
Como atravessar em pensamento um oceano inteiro onde é secura logo além da varanda e meu suspiro avança noite adentro.
De noite, o mar é dourado, enquanto pirilampos invadem meu quintal sem luz.
O teu corpo vazado em meus dedos de artesã.

Mariana Gouveia
220. das impressões do dia seguinte

206. da autonomia dos voos

A vida é essa corrente de ar. Ao mesmo tempo que prende, dá a liberdade. Os quandos descritos nas receitas e nos diagnósticos claros de poesia.
A pele solta na oscilação do tempo. A asa é essa obscuridade da mão que oferece colo.
Você, por acaso sabe quando o tempo determina as eras? Quando a pergunta do porque eu é apenas a resposta do porque sim?
Um dia, o amor vem em movimentos de abraços.
A vida é esse carrocel sem controle e sem luzes piscando – tirando as asas dos insetos tantos – e no meu jardim, a mão quase toque…
O lugar é esse mesmo caos dentro da gente. Podia ser um nome, qualquer coisa. Podia ser apenas esperança e que eu pudesse tocá-la e oferecer como vontade.
Mariana Gouveia
206. da autonomia dos voos

196. da autonomia dos voos

 

enquanto eu falava do vento, ela criava poesias vendo o mar. os pés tocavam a areia fina – e minha pele ardia – desenhava o voo de quem voa lá no ritmo da asa. meu cabelo crescia diante do sopro – as ervas daninhas a aumentar no jardim. e o trevo da sorte nem continha a sorte real. era tudo obra do acaso enquanto a previsão anuncia mudança. me perguntam se prendo as joaninhas na gaiola. não aceitam o fato de que a sorte mora desse lao do muro. hoje já não é mais a mesma coisa e nem o verbo voar cabe na vontade da asa. havia um pé de nada que produzia sonhos e no quintal anunciam que o inverno vai chegar de verdade. não é todo sonho que se pode sonhar – pode-se usá-lo do lado do avesso – e ainda assim, torná-lo real. enquanto o pulmão respira sem ar. faz figa, moça. a sorte bate do lado de fora da estação.

Mariana Gouveia
196. da autonomia dos voos

184. da autonomia dos voos

Usou a sorte do dia perante a aflição da dor. Rasgou o envelope pardo onde não havia cartas. Descobriu que a manhã tinha rompantes de brincadeira no quintal.
A asa corta a folha e rabisca os nomes no muro. Ficou a escrever vazio dentro das palavras. O tempo mudou como foi dito na previsão.
Ninguém sabe que na madrugada o frio é maior e que o trevo desabrocha para a vida minúscula vagar.
As linhas do bordado pousado na cadeira vazia. O cheiro do chá de erva doce a confiscar presença além das paredes. A lua lá fora é um silêncio que grita e a solidão esse objeto intruso dentro das lembranças.
Quase a noite a esvaziar o medo quando o dia começa a clarear e a asa começa a abrir pedindo presença de sol

Mariana Gouveia
184. da autonomia dos voos

158. da geografia das coisas

158. da geografia das coisas.jpg

Estendeu as mãos perdidas nas flores…
Desvendou o caminho da floresta na volta para casa.
Namorou verdadeiramente a lua.
Cabia onde aquele verbo que voava?
Continha onde a asa num grito?
Os medos bobos foram jogados pelos caminhos.
Alguém leu a noticia da sorte em um livro. Buscou o bilhete do realejo que tirou na infância.
O trevo marcava o coração dos bichos…
Pulou sete ondas imaginárias. Desejou a sorte de um amor tranquilo.
Viveu até onde a vida respirou saudade.

Mariana Gouveia
158. da geografia das coisas