292. das infinitudes

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A mão dela me trazia barulho do mar
O braço ondula silêncios da tarde
Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela…

Não sabia extrapolar as coisas
– dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
A outra – a de verdade – quebrava regras.

Falava alto nas bibliotecas… Declarava amor nas livrarias.
Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE –  e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia.

Há sonatas que a areia descreve
E escreve
E o riso dela tem qualquer coisa de ave

Que voa

Leva na mão o carinho portátil, desse pronto pro uso.
Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso.
Usa quando tomo um chá de sumiço

Mal sabe ela que toda noite
Eu olho pro céu e a encontro
Em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.

 

Mariana Gouveia
292. Das infinitudes

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287. das infinitudes

 

A estação do frio invade a estação que é de flor

e o tempo é esse menino desavisado. Um poeta disse sobre isso de cair o inverno dentro da primavera. Até parece que o relógio voltou nos meses.
Colho no pé a fruta de vez – ainda nem era o tempo da colheita e o vento levou as folhas para além dos muros. Tudo gela em redor do quintal. os grafites rabiscados nos dedos não tem a arte das cores. São figuras imaginárias contadas em lendas que sabem sobre a numerologia. Conto a data dos seu dia e invento uma dimensão que intercala datas em comum.
O café na xícara a esfriar enquanto fico perdida e sem voz. Na rua de cima alguém canta uma canção sem ritmo. A vizinha narra a verdade das coisas que leu no jornal enquanto o vestido dança no varal sem o sol.
A sorte visita a menina três casas acima. A serenidade do dia vem na voz do moço que vende doces. Tem dias que vida parece um relicário na parede.

Mariana Gouveia
287. das infinitudes

284. das infinitudes

Há um oco no peito que grita o vazio rasgado de flor.
A mulher que lê o destino dos outros – e quase sempre erra o dela –  fala sobre mudança de hábito. Os búzios indicam o caminho da paciência. A maré muda dentro da estação. As ervas indicam a rota da cura. O jardim virado do avesso. Um monge atravessa a rua com olho para o nada. Alguém predestina a palavra da fé.

Depois disso, digo que aceito tudo: Que venha o destino com sua fome de lobo e pele de cordeiro! Aceito na boa os 40º na sombra e as flores murchas do meio dia.
A sorte chamando o inseto na cor. O trevo batendo à porta desejando favor. Os corredores pintados de cinza… armários sendo esvaziados e histórias dentro dos livros jogados em um quartinho qualquer.

A mudança é favorável ao novo – diz as cartas de tarô – e a linha da vida formando a letra do ontem. Tomara, vida que fosse hoje. Quem dera, sorte que fosse amanhã!

Mariana Gouveia
284. das infinitudes

267. Entre uma estação e a primavera

 

Perto da janela desejou voltar no tempo, costurar pedaços pequenos de lembranças na memória.
Sentia que esquecia, às vezes, as sensações que viveu.

Tocou o céu com os olhos. Lembrou das chuvas. Mexeu nas anotações da mesa. Sentiu saudades. A flor, quase sol em giro, trazia à memória os poros. Miúdas flores como se fosse pele. Digitais.

No canto do lugar –  o cheiro – como um arqueólogo vasculhou antiguidades dentro dela. Revisitou estações noites inteiras.

Pele, toque, mão. Os sentidos aguçados no instante de amar.
Ela – artista –  quando a amo e desenho partituras em seu corpo.

Um modo de amar é assim. Na loucura que herdou.
Em silêncio e cansaço. Em guerra e paz.

Da pele – a palavra – de um dia que se abria e que não havia código a decifrar…
Era apenas ela e mais nada.

 

Mariana Gouveia
267. Entre uma estação e a primavera

259. Entre uma estação e a primavera

Passeava pelo meu coração como se conhecesse as ranhuras, as cicatrizes.
Por onde passava, abria as janelas da alma e deixava o sol entrar.
Era estranho sentir as pegadas dela – aqui e ali – mas a sensação de ocupação em mim
era a coisa mais magnífica da vida.

Mariana Gouveia
259. Entre uma estação e a primavera

250. Entre uma estação e a primavera

Havia um riso estranho no homem da esquina.

…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.


Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.

Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.

Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.


Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.

…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais. 


…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.

…uma praia de espuma onde só há rio 

– foi o que cantou nos versos de poemas – 

…e uma polaroide para fotos noturnas.

 Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.

Depois os tomou de volta.

Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá. 

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas 

E quando não havia mais nada para prometer,

…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

 Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e  não era eu atrás da polaroide – que não veio. 

O negativo em preto e branco derramou Flor.

 Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

 

Mariana Gouveia
250. Entre uma estação e a primavera

246. Entre uma estação e a primavera

 

Sou de viver.

Sou de viver.
Vago firme pela pétalas
– de ti-
essências em mim, pólen.
Amor.

Sou de pensar
caminho pelo teu dia
como quem busca abrigo
– de ti, sabor pleno –
Acho que o amor é isso.

 

Mariana Gouveia
246. Entre uma estação e a primavera