272. Entre uma estação e a primavera

 

A previsão se corrompeu com o tempo. Havia uma nuvem de poeira dentro do vento. Solitária, a ave que a trazia nas asas a lenda de agouro tinha o abismo do amanhã dentro dos olhos. Era a estação das flores misturadas dentro de outra estação.
relembrou histórias da infância. Viajou nos dias e suspirou.
Era criança e ouvia a mãe contar sobre os telegramas que chegavam, logo depois que avistavam a ave no toco, no tronco de madeira da porteira, no telhado…

Tudo era culpa da ave – coitada – que apenas cumpria seu destino de voar.
Acontecia de que, por acaso, o aparecimento da ave se dar por ocasião dessas notícias ruins que o carteiro trazia num envelope estranho, diferente dos normais.
A notícia da morte do avô veio em um desses que trazia códigos e letras e depois disso, a mãe viveu em luto por anos a fio. A perda do tio querido e o acidente que levara a vida de pessoas que ela nem conhecia – e a mãe amava –  e que por isso se trancou no quarto e começou a maldizer a ave, que estivera pela manhã por ali.
Para ela, a culpa era do carteiro que surgia na estradinha que fazia curva ao lado do rio, com sua farda amarela e azul. Pensou em escrever uma carta pedindo para que ele não trouxesse mais esses envelopes, fora das cartas que aguardava com a ansiedade de quem esperava uma vida.
Hoje, lembrou -se do agouro da ave, logo quando, por fim, o ônibus e sua curva lhe fez ver a ave posta, solitária. O olho atento ao que nem era exato. O sangue a fluir dentro da veia.
Relembrou as estações misturadas dentro do dia. A urbanidade dos pássaros que logo pela manhã cantam no telhado das casas vizinhas e nos envelopes dos telegramas que nunca mais viu. E no olhar da menina que a fixou com o olhar de espanto e a chamou de bruxa.
Mariana Gouveia
272. Entre uma estação e a primavera
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225. das impressões do dia seguinte

Ao meu pai,

Pai, colho impressões do dia seguinte e mais uma vez escrevo essa carta para ganhar seu colo dentro das palavras.
O instante é tão ligeiro e volto lá na minha infância.

Não sei se  vida se restringe ao que se pode tocar – e nessa hora busco a palavra abraço.- o longe não afeta o que é tátil para respirar. Fecho os olhos e posso te tocar, embora a gente seja mais de ler, ouvir no rádio a canção que mais nos toca.

Hoje você é muito mais silêncio que se acomoda em um vão onde ninguém alcança. Talvez você viaje pelos campos a sentir o orvalho. Ou junto com sua fé, o verbo seja confiar.

Lembro-me dos meus medos alados e ganhei a delicadeza de asas quando você me jogava para cima e com sua coragem, fui vencendo o infinito e ganhei sede de viver…  a vida é simples assim e hoje, pai, no seu dia, eu relembro os anos todos de você sendo pai.
Hoje, é quase um menino de riso brando. É mais afeto. De natureza indomável. De mata. E o  que é da mata é ser livre. Nem mesmo uma cadeira de rodas consegue prender, porque a gente voa…
Te amo!

Feliz dia dos Pais!

Mariana Gouveia
225. das impressões do dia seguinte

182. da autonomia dos voos

Nasceu movida pela liberdade. Desde pequena acreditava piamente em tudo que tivesse asas.
O pai sempre afirmava que toda ação tinha reação e que a liberdade cabia sempre um preço na balança – não conhecia proibição – o respeito era a lição número um da cartilha.
Adorava subir a colina e ver o campo aos seus pés, o capim dourado, que a mãe usava para artesanato, ficava da cor de ouro ao por do sol.
Aprendeu com a fada sobre o sol e a lua. Amava a noite e respirava palavras Não as ditas, mas as escritas. Poderia escrever horas seguidas. Na areia, no papel, no ar…
Conversava sozinha, às vezes – ou sempre – e com as paredes.
Foi taxada de louca, de doida varrida, de pedra e de ar.

Havia acostumado molhar os pés com o orvalho das plantas… capim rasteiro que grudava na pele… relva que curava qualquer dor.
Quando podia, bebia na própria flor… Tinha essa mania de seiva.
Alguns diziam que era para se impregnar de perfume… Apenas ela sabia que era para se manter viva.
Tinha mania de céu. Repetia sempre que era o espírito da liberdade que habitava nela. Entendia o preço dela e pagava.
Mal sabia que era a única forma que tinha para voar.

Mariana Gouveia
182. da autonomia dos voos

180. da geografia das coisas

 

Quando ia imaginou o caminho da volta. A ave da sabedoria desenhou a rota em seu voo.

Virou o corpo para ver o mundo de pernas para o ar. Viu pirueta no riso das crianças. O cão que gosta da rua escala o muro em sua fuga. Tudo é rota enquanto explicou o sentido da asa. Contei histórias de princesas para quem já é uma – três já são – e as outras cabiam dentro do abraço.

A chaleira apita quando a água aquece e o cheiro do chá invade os quintais.

Às vezes, aqui, a terra se contorce debaixo dos pés; dizem que há um epicentro uns tantos de mil metros abaixo… e eu fico a pensar que a terra também sinta tremura e se a ave voará assim que sentir o tremor. Invento outra história enquanto a xícara pousa em um pires – elas, as meninas não se impressionam – fazem parte do conto de fadas ou não sabiam?
Digo que a Branca de Neve nasceu Maria  e que o brigadeiro tem a cor doce da Manu…

E a princesinha tem uma pulginha no riso da Bianca.
Crio o vento para falar outra vez de asas. Penso de novo no que faz tremer o chão e se a terra também agita, vale a pena ensaiar o destino de voos e preparar o corpo e a mente para prevenir os ritmos sísmicos das histórias.
As meninas voam dançando.

 

Mariana Gouveia
180. da geografia das coisas

 

178. da geografia das coisas

O campo dá certeza das coisas. O vento aqui traz a leveza da brisa e é cada coração em cada grito;
O céu tem asa em tudo quanto é canto e de noite, traz estrela em cada espacinho dele. Dá para ver as nebulosas e o caminho de Santiago… O Cruzeiro do Sul, bem ao sul vagueia no laguinho onde o cão se banha.
Os vaga – lumes oscilam perto do lago e ele – o cão –  corre atrás de algo que voa…
Aqui, tudo voa – ou quase – e quando a asa vira coração, vira folha – de dia – e de dia, o azul é deslumbrante! Parece vestido de festa e as folhas ficam rendadas para ficar a altura da beleza.
É tudo simples… a beleza da noite se esconde, porque fica tudo mais bonito, assim a olho nu.  O campo ao longe, o barulho da floresta e o riacho sempre espera para depois…
E depois, se transforma em sonho. E de sonho, em toda leveza de ser, eu sou.

Mariana Gouveia
178. da geografia das coisas

176. da geografia das coisas


Havia um tempo que ele me esperava
e nem ligava se a meteorologia errava a previsão do tempo e nem mesmo se a porteira estava fechada.
Havia um tempo em que o olho dele buscava minha presença no cheiro impregnado nas coisas. Não importava se fazia sol ou frio.
O olho dele era um menino errante na estradinha onde a curva desenhava o riacho.
Mudasse a estação ou as horas do dia, ele era presença de espera.
Mas quando surgiam os dias determinados pelo destino e minha voz ecoava o nome dele através da cerca a alegria fazia morada por ali.
Bastava dar um assovio e toda a traquinagem aparecia em forma de pelos e cor.
Havia um tempo em que nós cruzávamos as cercas em busca dos cogumelos e a floresta era nosso lugar preferido.  Sabíamos que haveria de chegar o dia de partida e que a precisão do amor era apenas a medida da espera.

Mariana Gouveia
176. da geografia das coisas

 

174. da geografia das coisas

A renda foi costurada dentro da noite. Os dias de invernos intensos aprofundados na pele e na alma.
Busco o equilíbrio denso dentro da dor. As histórias contadas de um jeito que a saudade bate e fica.
O cheiro do capim molhado de orvalho a invadir os quartos com seus aromas e a lua caminha em um céu coalhado de estrelas.
Imprevisível a cronologia das coisas – misturamos os fatos, as fotos e a época – tudo era dentro do tempo de estar.
As palavras a carregar afagos entre nós… o verbo mudando a direção sempre que uma lembrança nova surgia.
Alguém arrisca um canto e o amor conhece a simplicidade das coisas.

Mariana Gouveia
174. da geografia das coisas