205. da autonomia dos voos

O calor no rosto me leva para outra cidade  – aprisionaram o vento dentro da intensidade da palavra –  foi uma cerimônia bonita. O rio e os envelopes rasgados. O canto da ave num dia triste. A febre e a ilusão do delírio.
Havia qualquer coisa de estranho no objeto bordado. O pássaro desenhado como se lembrava na memória obscura da pele. O toque da pena a dimensionar o voo.
Dizia que sem pressa devia partir. Ou esperar. Ou ir e voltar – esquecia da última frase da carta.
Mas sentia na ponta dos dedos, apenas essa solidão esférica. De cidade vazia e de rio longo e serpenteado perto das margens de onde avistava os papéis que não enviara a rodar, como se fosse de encontro ao mar. Como se morresse de fome e sede – e não havia nada para matar a fome. A vida seca, úmida de alma.
Invento as escalas do mês. O mundo acontece dentro do milagre.
O ausente fica fica lindo assim distante. O voo não dado é o que me leva a querer esse cheiro terrestre infinito… onde o vento apenas se finge de sopro.

Mariana Gouveia
205. da autonomia dos voos

 

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204. da autonomia dos voos

 

Não teve missa, o domingo. A igreja fechou para reforma. A oração foi designada para as casas.
O vento veio fazer parte do momento.
A asa trouxe o número da sorte. Vai que muda a estação e a previsão do tempo erra.
Entende a certeza da vida. Ela é ilusão de sopro. Vai até onde ninguém pode alcançar.
Há ocasiões em que que é boa para voar.
O espelho mostra a verdade inversa. Busca a poesia na cura. O sossego no silêncio é quando o voo grita e as acrobacias no céu pedem pousos.
É utopia a certeza do espaço. O abismo é a pálpebra quando abre e o horizonte é a linha imaginária na superfície.
O dia destinado ao veneno não é adequado para rezas e uma esquadrilha faz movimentos no céu.As asas, do avesso, rastejam.
Alguém me pede para ser árvore quando em minha escolha sou folha.

Mariana Gouveia
204. da autonomia dos voos

203. da autonomia dos voos

 

às vezes, a vida é esse momento com céu de brigadeiro.
Em outros, a tempestade faz com que você seja um bom piloto.

 

Filho,

Lembra-se quando eu brincava com você de voar?
Meus braços te erguiam e te levava ao céu – como você dizia – e eu lembrava da frase de algum poema que dizia:
O céu, é o limite…

E quando me perguntava sobre o limite eu repetia o que meu pai me dizia quando eu ainda era menina:
Limite é quando chega a mudança da estação. Uma não pode roubar os dias da outra.
É esse limite que a gente mastiga todo dia. Um dia querendo roubar as hora do outro dia. O verbo rasgando dentro de outra palavra. A dureza da vida roubando de nós a alegria em algum momento. A liberdade, sendo colhida dentro de alguma regra. Algum “não pode”.
Eu sempre disse que podia.

Para mim, a liberdade tem a ver com o céu – ou com o mar que nunca vi – e aquele azul imenso e que presenciei no meu primeiro voo de avião.

Você era o menino do meu quintal. Aquele que sempre adorou a velocidade, os voos e a rebeldia do signo. Você sempre foi o sol do meu quintal. Aquele quintal onde desenhamos uma pista de fórmula Um para você voar.
E você voou. Seguiu a profissão do céu e dos voos e tem toda autonomia deles.

Hoje, não é um dia comum. É o 203 dia dos 365 dias do ano e é especial porque você nasceu nele.  E eu te ofereço essa Lua minguante entrando em seu céu particular e que desenha sombras no teu quintal, que já não é mais só meu e que é quase uma floresta em teu exagero de reclamar.

O céu é estrelado aqui e te ofereço esse céu como forma de abraço e quero dizer que depois de você eu fiquei completa e finquei raiz como as plantas que teimam em alastrar por aqui.

O sonho revolve o mundo e dentro de cada sonho seu cabe minha oração de certeza. E como tudo que voa precisa de pouso, eu quero ser o lugar onde você pousa. Para a segurança na hora certa e para segurar a mão quando for difícil.

Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda essência de amar. Porque te amo de um modo único e real. Daquele que nenhuma poesia pode explicar.

Que todos os momentos seus sejam de aprendizados, conquistas e um céu de brigadeiro para voar.

 

Feliz Tudo!

Te amo,

Mariana Gouveia
203. da autonomia dos voos

 

 

202. da autonomia dos voos

Contou o verbo do dia. Perdeu – se. E ainda era o avesso da dor. E era ninho e abraço.
Dá para prender voo dentro de gaiola? O infinito é logo ali…
E de romãs tingiram as cortinas. Do sonho que revolve o mundo, tem as flores respingadas de asas. A vida é escondida em aves. E o ninho cabe a solidão a dois.

A voz a ecoar canções que de novo só repetirá quando o gravador sentir saudades de um tempo de amor.

Quando fechei a carta e o envelope travou nas palavras que diziam que era amor.

Eu escrevia sem deixar de prestar atenção à nuvens.Há casas que são feitas para os chocolates feitos em noites frias – quentes – e a delicadeza era um lugarr bordado no bastidor.

Para mim, a vida é essa oração. De dois, quando tudo se resume em presença e vontade,

Éramos viajantes em um céu que abriga peregrinos em seu espaço aéreo.

O meu amor humano tem instinto de céu e de asas

Mariana Gouveia

202. da autonomia dos voos

201. da autonomia dos voos

O pai contou histórias do tempo que a curva do rio teve de ser modificada para proteger as nascentes.
A sabedoria das coisas estava em recuar quando fosse preciso e a brisa matinal era a lição mais lógica para isso.
A ave espreitando a vida e o mundo sendo sufoco diante do grito.
O filho sendo a imensidão da angústia. A ave sendo ameaça para o novo. A revolução na voz de quem já não pode cantar.
Essa era a hora que eu queria ser menos, igual ao poema da minha favorita.
Tem como devolver perfume dentro das palavras? Ou voar junto com o pássaro que fica a cata de comida?
Quando o riacho se abre e a flor do pântano morre, o lago vira morada dos sonhos ocultos. Era como o arrozal não semear o cheiro da colheita pela floresta inteira.
Há dias tão vazios de vida que eu pergunto: onde você nasce quando morre?
Ou que céu você povoa quando ele fica nublado?
Que sol amanheceu em seu dia?
Mariana Gouveia
201. da autonomia dos voos

200. da autonomia dos voos

 

Havia um menino que criou asa, virou ave,
e com ele a ternura espalhada.
O reggae no canto e havia um turbilhão a povoar seu sonho.
Clamava pela vida – e nas poesias a encontrava – nas letras das canções, ele vivia.
O menino buscava por riso e essa aventura despeitada de viver.
Cabia nas promessas de paz enquanto travava uma guerra pela liberdade sem medidas. Não se mediu. Sorriu. Voou – o menino – em um dia onde o mês avançava nas horas a vontade plena de esperança.
Se via em qualquer asa, em qualquer pouso… se via vivo em qualquer espaço.
Era assim o menino, que ainda sendo meu, foi do céu.
Foi de ave, foi de pouso e se viu além.

Mariana Gouveia
200. da autonomia dos voos

199. da autonomia dos voos

Vê a morte na esquina de casa. Tenta lembrar um poema para esquecer a cena.

Colhe a névoa do dia rumo ao sol. Não se foge do vento instalado em todos os lados.

Caminha apressada vendo a ave gigante procurar abrigo. Recebe notícias de outra parte do mundo… alguém andava docemente debaixo de um sol que não veio. O guarda – chuvas a contar histórias.
O futuro é incerto para os que tem que ir enfrentar os corredores onde nem venta.
No céu, apenas um resquício de azul.
Aos que esperam ser ave invento meu jeito de voar. Há céus imaginários inabitáveis e os pés rastejando fé quando se chega ao solo.
Por isso, prefiro a incerteza dos telhados de onde posso apenas imaginar as ampolas como cantos de passarinho.
As insignificâncias talvez tragam a parte mais bela da manhã… era a vida mudando de lado na esquina.
Mariana Gouveia
199. da autonomia dos voos