198. da autonomia dos voos

 

O inverno desembarcou no meu quintal. O vento trouxe toda a família desde madrugada. O frio invadiu a sala e os ninhos todos. Houve desequilíbrio de asas em qualquer toque.

Para alguma asa é preciso ter voo.
A ave que veio do sul trouxe o processo migratório para a alma. A vida vai além do que os poemas relatam. Penso no riso do irmão distante. Teria ele calor para o branco da neve onde se encontra?
Onde a presença pede saudade eu escrevo as cartas e respiro sentimento de pouso.
Mariana Gouveia
198. da autonomia dos voos

197. da autonomia dos voos

O azulejo da cozinha, o criado mudo, a mesa posta para o café.
A porcelana esquecida no canto e a noite e seus vazios… e… e…
Esqueço-me de que a estação da flores é a primavera e nos dias de quase inverno e outono seco ( as estações se misturam meio dia e meia) e o vento invade os aposentos da casa quando o sol doura tudo que é canto. Meia noite e meio e ainda a luz detalha o canto das cortinas.
É preciso coragem para retirar os panos que tapam os porta-retratos. Pessoas conhecidas dentro de mim mesma e aquele postal do seu lugar. Um estranho postal no meio da parede a murmurar seu nome durante a noite inteira acompanhando o tic tic do relógio e o ponto turístico daquela cidade em que sonhamos conhecer e andar pelas esquinas de mãos dadas enquanto você pronuncia o idioma repetindo os versos da canção.
A mão espalhada acolhia o ser que voa e na escuridão a asa perde o poder de direção. As aves, intactas, desabitadas em seu modo de voar.
Conversa com os pássaros entalhados, para ensinar que voar não tem segredo, mas ainda assim, perdeu a autonomia dos voos enquanto o pouco céu for a estante como morada.

 

Mariana Gouveia
197. da autonomia dos voos

196. da autonomia dos voos

 

enquanto eu falava do vento, ela criava poesias vendo o mar. os pés tocavam a areia fina – e minha pele ardia – desenhava o voo de quem voa lá no ritmo da asa. meu cabelo crescia diante do sopro – as ervas daninhas a aumentar no jardim. e o trevo da sorte nem continha a sorte real. era tudo obra do acaso enquanto a previsão anuncia mudança. me perguntam se prendo as joaninhas na gaiola. não aceitam o fato de que a sorte mora desse lao do muro. hoje já não é mais a mesma coisa e nem o verbo voar cabe na vontade da asa. havia um pé de nada que produzia sonhos e no quintal anunciam que o inverno vai chegar de verdade. não é todo sonho que se pode sonhar – pode-se usá-lo do lado do avesso – e ainda assim, torná-lo real. enquanto o pulmão respira sem ar. faz figa, moça. a sorte bate do lado de fora da estação.

Mariana Gouveia
196. da autonomia dos voos

195. da autonomia dos voos

Pensou nas roupas do varal – o lençol branco, de linho, bordado com o monograma dela – quase um voo – era a invenção para ter asas…
As mãos a ganhar acaso de bicho. O imaginário a criar sombras entre o chão e o céu.
A pele a equilibrar a rotina do medo.
As falhas entre as folhas criam desenhos sob a luz da lua.
Ela – tão etérea – visitante invasora da vida. A renda a desenhar as asas.
Os olhos aumentados em uma lembrança que não vi. E o abismo tão imenso diante da miniatura no varal. E já não era mais o lençol da memória. Era esse abuso de cremar o ouro do sol.
O voo noturno e o pouso a caber dentro do sonho. A luz, quase vasculhando cada canto do quarto. Outro dia, era a certeza de tudo, hoje, apenas o vazio da solidão aérea das vontades.

Mariana Gouveia
195. da autonomia dos voos

194. da autonomia dos voos

Havia apenas  para delicadeza.

O dia adornado de azul e o que tinha asas podia voar.

A previsão para os dias seguintes é de frio intenso e a estação faz contornos na pele.

O homem que ordena realinhou o dia e a engenharia questionou os tamanhos dos dedos das mãos.

O objetivo do ninho é repousar.

 
Mariana Gouveia
194. da autonomia dos voos

193. da autonomia dos voos

 

Lembrou do filho que não viveu.
Ouviu Adele enquanto o pensamento voava. Rezou milagres na memória.Escreveu o nome dele no ar – era anjo, alguém disse –
Era asa.
Virou voo. Metamorfose em alguma mão.

Viu asas na roupa do menino. O céu era horizonte azul- uma canção falava disso – mas havia verde em qualquer folha.

Colocou cor no olho da moça de riso fácil. As mãos eram frias e frágeis. Cabia a liberdade nas mãos.
Viu as estrelas brilharem na água… O tempo refletiu nas lembranças e já era tanto tempo.

Sentiu o toque da vida  – que era vida em qualquer lugar – a capacidade de viver no exato momento da dor mesmo quando as asas cansam do voar…

e pousam.
Mariana Gouveia
193. da autonomia dos voos

192. da autonomia dos voos

Dormia nos rumores do dia. O vento como travesseiro.
Os corredores atravessam o verbo da noite e reviver momentos é quase estender a mão em uma janela invisível e sentir o toque.
Tem dias que o cansaço é quase um abismo oferecendo colo.
Para a ave que beija a flor,
o pouso,
o medo em voo difícil.
A previsão do tempo quase acerta a secura da alma.
Queda livre
e em quietude traça
a rota densa dentro do silêncio
e ainda assim, é tempo de sonhar.

Mariana Gouveia
192. da autonomia dos voos