181. da geografia das coisas

Não foi a mudança na meteorologia que trouxe o vento, nem a estação nova que se aproximou.

Tudo era uma coisa assim quase névoa, pouso.

Havia o propósito de colocar as orações em dia. A solidão é essa invasão dentro da verdade. O homem só, mostra a companhia das coisas. Conhece o vento pelo nome e sabe o dia certo que vai chover e nunca viu a previsão do tempo na TV.

A brisa é tal como a felicidade, é um produto derivado e não vem todo de uma vez.

Para ele é indispensável esse ar, solúvel e palpável.  Para ele, a ave é presságio de sorte. Alguém disse hoje que vai chover e foi de novo o dia da dor.

 

Mariana Gouveia
181. da geografia das coisas

180. da geografia das coisas

 

Quando ia imaginou o caminho da volta. A ave da sabedoria desenhou a rota em seu voo.

Virou o corpo para ver o mundo de pernas para o ar. Viu pirueta no riso das crianças. O cão que gosta da rua escala o muro em sua fuga. Tudo é rota enquanto explicou o sentido da asa. Contei histórias de princesas para quem já é uma – três já são – e as outras cabiam dentro do abraço.

A chaleira apita quando a água aquece e o cheiro do chá invade os quintais.

Às vezes, aqui, a terra se contorce debaixo dos pés; dizem que há um epicentro uns tantos de mil metros abaixo… e eu fico a pensar que a terra também sinta tremura e se a ave voará assim que sentir o tremor. Invento outra história enquanto a xícara pousa em um pires – elas, as meninas não se impressionam – fazem parte do conto de fadas ou não sabiam?
Digo que a Branca de Neve nasceu Maria  e que o brigadeiro tem a cor doce da Manu…

E a princesinha tem uma pulginha no riso da Bianca.
Crio o vento para falar outra vez de asas. Penso de novo no que faz tremer o chão e se a terra também agita, vale a pena ensaiar o destino de voos e preparar o corpo e a mente para prevenir os ritmos sísmicos das histórias.
As meninas voam dançando.

 

Mariana Gouveia
180. da geografia das coisas

 

179. da geografia das coisas

179. da geografia das coisas

Guardou o dia na memória e desenhou a volta. Ninguém se perde no tempo dentro das lembranças… as lanternas chinesas mostram os caminhos percorridos.

[Era ainda ali, ontem e as histórias cantadas nas vozes da irmã e o riso da sobrinha a entoar cânticos de louvor… era ainda ali, ontem e a lua fazia seu caminho pelo céu estrelado – tanto, tanto que parecia um lençol bordado de diamantes]

Repito as mesmas canções da infância no caminho da volta. Colho as frutas na árvore do lado e a rotina acaba por preencher o espaço das horas.

[Era ainda ali, a infância e desenhada dentro dela a fala da irmã mais velha a contar detalhes que passaram em vão… era ainda ali, a vida nos riscos da mãe e lembrou-se de tudo que viveu quando era menina]

O aroma do bolo a assar no forno – e o fogão a lenha a crepitar aquecendo a alma.

[Voltei à casa onde chorei mil vezes.  E onde escrevi todos os dias parte da minha história. E na janela, a cortina balança e o vento abriga cheiros que ainda me levam para lá]

Nas mãos trago os instantes vividos e guardo-os em uma caixinha da memória para outra vez viver dentro da saudade.

E sei que continua lá, cada cantinho. Dentro da caixa de papéis que ainda guardam pedaços de mim.

Revolvo a terra, arranco as folhas mortas e dou água aos instantes novos que brotam. A lanterna chinesa floresce como se iluminasse uma nova etapa renovada na energia que me banhei de amor.

[Há dias que não deveriam acabar]

Mariana Gouveia
179.  Da geografia das coisas

178. da geografia das coisas

O campo dá certeza das coisas. O vento aqui traz a leveza da brisa e é cada coração em cada grito;
O céu tem asa em tudo quanto é canto e de noite, traz estrela em cada espacinho dele. Dá para ver as nebulosas e o caminho de Santiago… O Cruzeiro do Sul, bem ao sul vagueia no laguinho onde o cão se banha.
Os vaga – lumes oscilam perto do lago e ele – o cão –  corre atrás de algo que voa…
Aqui, tudo voa – ou quase – e quando a asa vira coração, vira folha – de dia – e de dia, o azul é deslumbrante! Parece vestido de festa e as folhas ficam rendadas para ficar a altura da beleza.
É tudo simples… a beleza da noite se esconde, porque fica tudo mais bonito, assim a olho nu.  O campo ao longe, o barulho da floresta e o riacho sempre espera para depois…
E depois, se transforma em sonho. E de sonho, em toda leveza de ser, eu sou.

Mariana Gouveia
178. da geografia das coisas

177. da geografia das coisas

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Contava nos gesto o corpo partido. Os riscos da mãe, ali no papel… medidas em centímetros a saudade. Era coisa para ser dita a olho nu.
O pássaro sem asa, a linha ainda a costurar. A fruta no cesto – e o pomar – além da janela a exalar o cheiro real das coisas.
O conto de fadas em papel e palavras.
A irmã, ali, a imitar o mesmo gesto das tesouras e linhas. Artesã de alma e coração.
O mesmo ritmo a encontrar a paz na arte.
A letra da mãe ainda a marcar as cores fazia com que os instantes fossem relembrados entre risos e histórias.
Alguém lembrou do sabor do bolo feito com a massa de mandioca e com isso desenrolou casos vividos na época – como se isso puxasse um fio – e mais histórias surgiam na fala delas – e era possível viver a saudade no gesto.

Mariana Gouveia
177. da geografia das coisas

176. da geografia das coisas


Havia um tempo que ele me esperava
e nem ligava se a meteorologia errava a previsão do tempo e nem mesmo se a porteira estava fechada.
Havia um tempo em que o olho dele buscava minha presença no cheiro impregnado nas coisas. Não importava se fazia sol ou frio.
O olho dele era um menino errante na estradinha onde a curva desenhava o riacho.
Mudasse a estação ou as horas do dia, ele era presença de espera.
Mas quando surgiam os dias determinados pelo destino e minha voz ecoava o nome dele através da cerca a alegria fazia morada por ali.
Bastava dar um assovio e toda a traquinagem aparecia em forma de pelos e cor.
Havia um tempo em que nós cruzávamos as cercas em busca dos cogumelos e a floresta era nosso lugar preferido.  Sabíamos que haveria de chegar o dia de partida e que a precisão do amor era apenas a medida da espera.

Mariana Gouveia
176. da geografia das coisas

 

175. da geografia das coisas

Na casa do pai, a renda desenhada no pé de canela. O cheiro lembrando os chás das manhãs de invernos.

O quintal traçado dentro do pequeno pomar e suas frutas servindo de comida aos pássaros.

As histórias ecoando em cada canto. Os móveis empilhados em um quarto. As fotografias antigas dentro da mala e seus álbuns retratando épocas de nós.

A árvore do balanço fora cortada para a limpeza do lugar.

Cômodos vazios de nós, mas com todas as histórias e lembranças dentro delas.

Mariana Gouveia

175. da geografia das coisas