Sei o som dos passos…

Sei o som dos passos*imagem: Tumblr

 

com que regressas a casa.

No quarto virado a norte,

a prevenir-nos de todos os invernos,

aguardo que prolongues em mim

a tua sombra intacta.

De frutos doces me enfeito.

Uma luz quase clandestina

inunda minhas margens

e deixa-me um rio no vinco da cintura.

O teu desejo terrivelmente puro!

 

Graça Pires in ” O silêncio: lugar habitado”

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a minha saudade tem o mar aprisionado…

a minha saudade tem o mar aprisionado

 

na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios, porque dilacera os olhos.

 

Lunna Guedes, in: Lua de Papel — livro dois
*imagem: Mira Nedyalkova

Cheiro de asa molhada

Kurt arrigo

 

Voo da claridade ao
Subsolo
Voo da luz abissal ao
Breu da noite
Dentro
O serviço meteorológico informa:
Precipitações

Com treino
Com muito treino
Podemos ouvir
Acima das nuvens
Ou no fundo do rio
As chuvas miúdas.

 

Adriane Garcia
*imagem: Kurt Arrigo

Reconhecimento

Reconhecimento.jpg3*imagem:Tumblr

Eu seria capaz de reconhecer todos os que te tocaram.
Talvez eles não saibam,
ou por estultície talvez tenham esquecido,
mas nos dedos deles ainda há vestígios de pétalas,
de brisa, de orvalho.

Raul Drewnick

86. da estação das águas

O trieiro até o rio era cercado pelo verde da mata… O orvalho da madrugada beijava o capim e o vento cantava sinfonia…

Os pés, molhados, era o convite para a dança com a natureza.

A chuva espalha nos dias mais devagar e a estação quase se despede. O sol demora dentro das horas e já dá para tomar banho no rio e ficar a espreitar o volume de água nas cachoeiras.

A natureza nos presenteia com as jóias a balançar no capim…

E a vida acontece em ritmo de aventuras no quintal.

Mariana Gouveia

86. da estação das águas