163. da geografia das coisas

Acontecia o dia do amor. A gente sempre acontece na rotina das coisas. Havia recado estampado em tudo. O céu estampado em cores suaves.
Uma canção repetida ao limite e o riso ecoando coragem antes da viagem.
Cabia qualquer amor em declaração ardente. O nome da flor declamado em versos.
A palavra do dia esparramada no gesto. O eu te amo dito em alta voz e o rodopio lembrando asas em voos.

Mariana Gouveia
163. da geografia das coisas

Natureza

Natureza

Tem vezes que me revelo areia…
um conjunto de partículas onde a pouca coesão me torna suscetível à erosão
por ação do vento, quando me arrebatas
por ação da água, quando me abandonas…

Márcia Bk
*imagem: Sergei P. Iron

115. dos dias aleatórios de Abril

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Conhecia o ritual das flores…

O ritmo em que elas cresciam no quintal
Era ali, entre o canto do muro e a leveza do vento.
O mapa feito de pulsar e orações…
Ave, flor!
Bendita seja a semente que possui um jardim inteiro…
Brota coração em tudo que flor.
O corpo presente em nuances distintas e havia o homem que acreditava nos milagres.
Ave, dor!
Do outono, líquido o orvalho, a paisagem quase furta cor…
Ave cor!
E há palavras que vira esperança
mas isso era antes de eu amar…
Ave, amor!

Mariana Gouveia
115. dos dias aleatórios de Abril

102. dos dias aleatórios de Abril

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A ausência descrita na palma da mão. Foi ali, que aprendi a voar – a descobri novos horizontes – e concluí que o céu era o limite. O muro era o detalhe para aprender barreiras e superá-las.

Divago sobre o tempo e suas previsões loucas… o guarda-sorte na rotina dos dias…

Uma parede descreve poemas tortos… grafite louco de quem é lúcido por amar.

O livro aberto tem o perfume além dos mapas. O oceano é imenso em suas lonjuras no meu quintal. A maresia não conhece a asa da joaninha que baila aqui.

O milagre é aquilo que não é natural e era quase dizer que eu estava aqui enquanto você chorava.

A cal molhada escondia seu nome onde escrevi poemas… tudo era torto enquanto as tvs liam retratos perdidos na vida.

Alguém dizia que a sorte era adivinhada no primeiro sinal e eu não entendia o idioma de quem não conhecia a palavra amar.

Feliz no jogo… feliz onde você quiser ser.

Mariana Gouveia
101. dos dias aleatórios de Abril

95. dos dias aleatórios de Abril

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Virou personagem dentro da história. O olho a transparecer a vida – transparente – ali.

O homem a arrastar o saco onde continha lições de cada dia.  Tão visível o medo ligado a coragem no vulto da esquina. Repete o mantra de ontem mais por obrigação do que por vontade.
As palavras revividas, translúcidas as asas que esqueci em casa.
O excesso sentido lá atrás… Renasce na página seguinte do poema que leu.
O jardim suspenso, dentro da asa… translúcida.
A transparência era a palavra líquida do dia. Transformava em água – ou lágrimas – a ausência… Rabiscava o nome em letras feitas no ar, que se apagavam na inconveniência das horas.
Contou com a sorte do dia no horóscopo das flores. Algumas sementes não germinam ao acaso.
Contou sua história como exemplo de amor. Virou vilã dentro da própria dor.

Mariana Gouveia
95. dos dias aleatórios de Abril

93. dos dias aleatórios de Abril

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Acreditava nas histórias marinhas. Sabia o sabor de mar à pele mesmo sendo de rio.Já vira um peixe voar, fora da mão, de asa. Alguém contou sobre coisas mitológicas…
Rabiscava as ondas nos muros da cidade, de madrugada.
Guardava dentro das lendas que criava o encontro marítimo entre a maresia e o quintal. Entre a terra e o mar.
Muitos diziam ser invenção ou qualquer coisa assim… Loucura barco de rio atravessar o oceano. Batia-se além das marés e ali, morria na praia.
Ela, apenas acreditava que qualquer coisa poderia acontecer… Bastava fechar os olhos e viver.

Mariana Gouveia
93. dos dias aleatórios de Abril

A minha voz diz em braille…

a-minha-voz-diz-em-braile

sensações que posso ter
ainda que não te toque…
eu digo e quero saber
como será ler palavras
da própria voz fabricadas
com música distorcida
em tons, sobretons, vibratos
retratam eles a vida
na loucura de pintar
sem tela, pincel
[e ar]?

Eliana Mora