232. das impressões do dia seguinte

Choveu e aspirei a saudade no ar. Esqueço a nomenclatura dos dias.
Eu sou solar e a chuva invade esse dia lento.
Já não sei dizer o sol e a meteorologia prevê a estação de fato, onde moro.

Entre o silêncio e o vento, trovoa. O eco do céu ruge feito um animal bravio.
Salvo as delicadezas do quintal uma a uma e a metamorfose acontece diante do dia.
E eu a esperei como se espera o dia que amanhece depois de uma noite longa de insônia.
Eu a esperei como o jardim espera a flor nascer e como o inseto espera a mão que o acolhe.
Talvez amanhã, o cotidiano aconteça nas rotinas da espera.

Mariana Gouveia
232. das impressões do dia seguinte
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206. da autonomia dos voos

A vida é essa corrente de ar. Ao mesmo tempo que prende, dá a liberdade. Os quandos descritos nas receitas e nos diagnósticos claros de poesia.
A pele solta na oscilação do tempo. A asa é essa obscuridade da mão que oferece colo.
Você, por acaso sabe quando o tempo determina as eras? Quando a pergunta do porque eu é apenas a resposta do porque sim?
Um dia, o amor vem em movimentos de abraços.
A vida é esse carrocel sem controle e sem luzes piscando – tirando as asas dos insetos tantos – e no meu jardim, a mão quase toque…
O lugar é esse mesmo caos dentro da gente. Podia ser um nome, qualquer coisa. Podia ser apenas esperança e que eu pudesse tocá-la e oferecer como vontade.
Mariana Gouveia
206. da autonomia dos voos

196. da autonomia dos voos

 

enquanto eu falava do vento, ela criava poesias vendo o mar. os pés tocavam a areia fina – e minha pele ardia – desenhava o voo de quem voa lá no ritmo da asa. meu cabelo crescia diante do sopro – as ervas daninhas a aumentar no jardim. e o trevo da sorte nem continha a sorte real. era tudo obra do acaso enquanto a previsão anuncia mudança. me perguntam se prendo as joaninhas na gaiola. não aceitam o fato de que a sorte mora desse lao do muro. hoje já não é mais a mesma coisa e nem o verbo voar cabe na vontade da asa. havia um pé de nada que produzia sonhos e no quintal anunciam que o inverno vai chegar de verdade. não é todo sonho que se pode sonhar – pode-se usá-lo do lado do avesso – e ainda assim, torná-lo real. enquanto o pulmão respira sem ar. faz figa, moça. a sorte bate do lado de fora da estação.

Mariana Gouveia
196. da autonomia dos voos

184. da autonomia dos voos

Usou a sorte do dia perante a aflição da dor. Rasgou o envelope pardo onde não havia cartas. Descobriu que a manhã tinha rompantes de brincadeira no quintal.
A asa corta a folha e rabisca os nomes no muro. Ficou a escrever vazio dentro das palavras. O tempo mudou como foi dito na previsão.
Ninguém sabe que na madrugada o frio é maior e que o trevo desabrocha para a vida minúscula vagar.
As linhas do bordado pousado na cadeira vazia. O cheiro do chá de erva doce a confiscar presença além das paredes. A lua lá fora é um silêncio que grita e a solidão esse objeto intruso dentro das lembranças.
Quase a noite a esvaziar o medo quando o dia começa a clarear e a asa começa a abrir pedindo presença de sol

Mariana Gouveia
184. da autonomia dos voos

163. da geografia das coisas

Acontecia o dia do amor. A gente sempre acontece na rotina das coisas. Havia recado estampado em tudo. O céu estampado em cores suaves.
Uma canção repetida ao limite e o riso ecoando coragem antes da viagem.
Cabia qualquer amor em declaração ardente. O nome da flor declamado em versos.
A palavra do dia esparramada no gesto. O eu te amo dito em alta voz e o rodopio lembrando asas em voos.

Mariana Gouveia
163. da geografia das coisas