Bichinhos para a solidão

Bichinhos para a solidão

Dê-me dois
Daqueles bichinhos
De silêncio
Dois fofinhos
Um macho e uma fêmea
Vou soltá-los no
Apartamento
Para silenciosas cópulas
E comerão silenciosamente
Qualquer barulho
Sobrarão apenas sons que
Venham de música ou livro
Talvez fique uma
Risadinha de criança
Que vibre de muito longe

Logo terei variações de
Silêncios
Eles irão se multiplicar
Feito coelhos.

Adriane Garcia

Sofro de aconchegos

Sofro de aconchegos.


Sofro de ninhos. 

 
Vontades seguras, 
 
descansos macios nos lugares em mim. 
 
 
Sofro de aconchegos.  
 
 
Van Luchiari

232. das impressões do dia seguinte

Choveu e aspirei a saudade no ar. Esqueço a nomenclatura dos dias.
Eu sou solar e a chuva invade esse dia lento.
Já não sei dizer o sol e a meteorologia prevê a estação de fato, onde moro.

Entre o silêncio e o vento, trovoa. O eco do céu ruge feito um animal bravio.
Salvo as delicadezas do quintal uma a uma e a metamorfose acontece diante do dia.
E eu a esperei como se espera o dia que amanhece depois de uma noite longa de insônia.
Eu a esperei como o jardim espera a flor nascer e como o inseto espera a mão que o acolhe.
Talvez amanhã, o cotidiano aconteça nas rotinas da espera.

Mariana Gouveia
232. das impressões do dia seguinte

206. da autonomia dos voos

A vida é essa corrente de ar. Ao mesmo tempo que prende, dá a liberdade. Os quandos descritos nas receitas e nos diagnósticos claros de poesia.
A pele solta na oscilação do tempo. A asa é essa obscuridade da mão que oferece colo.
Você, por acaso sabe quando o tempo determina as eras? Quando a pergunta do porque eu é apenas a resposta do porque sim?
Um dia, o amor vem em movimentos de abraços.
A vida é esse carrocel sem controle e sem luzes piscando – tirando as asas dos insetos tantos – e no meu jardim, a mão quase toque…
O lugar é esse mesmo caos dentro da gente. Podia ser um nome, qualquer coisa. Podia ser apenas esperança e que eu pudesse tocá-la e oferecer como vontade.
Mariana Gouveia
206. da autonomia dos voos

196. da autonomia dos voos

 

enquanto eu falava do vento, ela criava poesias vendo o mar. os pés tocavam a areia fina – e minha pele ardia – desenhava o voo de quem voa lá no ritmo da asa. meu cabelo crescia diante do sopro – as ervas daninhas a aumentar no jardim. e o trevo da sorte nem continha a sorte real. era tudo obra do acaso enquanto a previsão anuncia mudança. me perguntam se prendo as joaninhas na gaiola. não aceitam o fato de que a sorte mora desse lao do muro. hoje já não é mais a mesma coisa e nem o verbo voar cabe na vontade da asa. havia um pé de nada que produzia sonhos e no quintal anunciam que o inverno vai chegar de verdade. não é todo sonho que se pode sonhar – pode-se usá-lo do lado do avesso – e ainda assim, torná-lo real. enquanto o pulmão respira sem ar. faz figa, moça. a sorte bate do lado de fora da estação.

Mariana Gouveia
196. da autonomia dos voos