28. dos rituais das águas

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Havia chuva no olhar distante.
Caía o dia em forma de gotas. As asas guardam pérolas de diamante.
As notícias salvam crianças que nasceram. Via um voo dentro das umidades todas.
Cabia canções no universo da água que sabia ser.
A cor exala nas folhas.
É a vida cobrando passagem diante da dor. A magia se faz de instantes.

Mariana Gouveia
28. dos Rituais das águas

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14. dos rituais do jardim

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Pediu licença para podar as folhas.
Era tanto jardim para cada verde.
Trocou os lugares das mais comuns. Variou a entrada do sol pelas frestas. Replantou histórias em cada galho. Ganhou companhia na pequena floresta.
Aspirou o cheiro de mato que havia ali e ligo depois o vento veio dançar à luz do dia.

Mariana Gouveia
14. dos Rituais do jardim

Ecoa

ecoa

Ecoa.
Era quase vento sem ter asa.
Era quase pele sem ter poro.
Às vezes, é preciso vento.
Um poeta completa anos e eu, mesa.
Ela, cama…
Libélula na boca em asa
e gozo.

O vento mora aqui
e a maresia invade as cortinas.
Ganha rumo na risada dela.

Quebra regras,
cita nomes.
Me desenha em círculos
e daí eu sou só poema na palavra dela.

Relembra o dia
em memórias todas.
Canto ela nas nuvens
Pego ela no ar.
Respiro a leveza no encanto dela.
Depois disso, prazer é meu nome

Mariana Gouveia
*imagem: Savannah Daras

Eu serei tua árvore

Eu serei a tua árvore

Ele – Sabes o que faziam as pessoas no passado, quando tinham segredos que não desejavam partilhar?
Subiam a uma montanha, procuravam uma árvore e talhavam um furo nela.
Depois, sussurravam o segredo para o furo e cobriam-no de barro.
De esse modo, ninguém descobriria o seu segredo…

Ela (androide): “Eu serei a tua árvore, diz-mo e ninguém jamais o saberá.

(do filme 2046, de Wong Kar Wai).

Pode deixar que eu serei o teu segredo…

Estado febril

estado febrilPrenúncios de febre no quintal.
No varal, estendem-se asas – delírios –
Sonha-se com o ocaso das horas.
Desvio a atenção das rotas. Olhares furtivos no calor do dia. Estado febril, no diagnóstico do termômetro.
E a asa ali, pronta para alçar voo no desvario louco das frases.
A boca seca, o olho de buscar a nuvem e o espaço tão pouco – louco – dentro de mim.

Mariana Gouveia

o BARULHO da asa da libélula na cortina…

o BARULHO da asa da libélula na cortina

um grito
era a morte dos devaneios tolos.
A madrugada que nasce opaca, cinzenta.
A vida e a ansiedade toda.
Abro todas as portas e janelas para que o inseto alado voe.
Eu, presa em um emaranhado de fios.
A atadura da queda, os hematomas do grito.
Esvazio os armários todos. Procuro um barulho em algum canto.
em algum lapso de memória esqueço que ele grita dentro de mim.
O vento agita a cortina.
É um sinal de alegria que não é minha.
queria que fosse verdade sobre o amor novo que você citou. Queria tanto essa emoção de novo e de novo. mas ainda é o mesmo amor de sempre que me faz abrir as gavetas e vasculhar em papéis antigo suas letras em envelopes grandes, gritantes, seu nome escrito.
um endereço cego para onde minha alma vai e não é lá onde você mora agora.
Grito liberdade para a libélula, que mesmo com a cortina balançando, insiste em brigar com a asa, em uma rede que não há. E o barulho que insiste nessa madrugada fria.
Há qualquer inicio de loucura em algum lugar.

 

Mariana Gouveia