141. dos dias diferentes dos outros dias

141. dos dias diferentes dos outros dias

Entre as nuvens e as estrelas
Clareia a pele com o efeito da dor.
Os cabelos ralos diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço.

Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela,
o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência.

Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem.
Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor.

As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo.
O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão.

E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.

Mariana Gouveia
141. Dos dias diferentes dos outros dias

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136. dos dias diferentes dos outros dias

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de perfil a história é mais triste

os corredores ficam mais compridos e as janelas laterais nem conhecem a canção que fala dela…

na sala de estar, os mortos em porta retratos ao lado das porcelanas empoeiradas e os vasos de flores de plásticos a murcharem em promessas sem perfume.

de perfil, a moça de branco alonga a saia e os sapatos fazem barulho dentro das horas.

são sete portas até o alívio final. A veia a sangrar pela cura – que matava, se deixasse –  que pingava em conta-gotas no refrão do tic – tac do relógio na parede cinza ocre ou ocre apagado sem cor…

de perfil, os dias acontecem diferentes dos outros dias e a fase da lua inicia o ritual de esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
136. dos dias diferentes dos outros dias

Eu te amo, homem

Você,você

Eu te amo, homem, hoje como toda a vida quis e não sabia, eu que já amava de extremoso amor, divago, quando o que quero é só dizer te amo.

Teço as curvas, as mistas e as quebradas, industriosa como abelha, alegrinha como florinha amarela, desejando as finuras, violoncelo, violino, menestrel e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito para escutar o que bate.

Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas das tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios da tua barba.

Esmero.

Pego tua mão, me afasto, viajo pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto…

Aprendo. Te aprendo, homem.

O que a memória ama fica eterno.

Te amo com a memória, imperecível.

Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça, você me guarnece, tira de mim o ar desnudo, me faz bonita de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega, me dá um filho, comida, enche minhas mãos.

Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé.

Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho. Assim, te amo do modo mais natural, vero-romântico, homem meu, particular homem universal.

Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.

Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos, a luz na cabeceira, o abajur de prata; como criada ama, vou te amar, o delicioso amor: com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso, me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo.

Adélia Prado