Projeto fotográfico: 6 on 6 – As cores da manhã

Quem tem assim o verão
 dentro de casa
 não devia queixar-se de estar só

 Eugénio de Andrade

 

Às vezes, me pego descobrindo as cores da manhã, e entre a madrugada se despedindo e ela – a manhã – que se desenha a vida colore diante de mim, o toque.
Um afago ainda com cheiro de orvalho nas asas e o cumprimento se revela no gesto.

E antes mesmo que o sol nasça,  entre o caminho do amor e do carinho, as cores se desenham dentro da esperança. O dia – quase em milagre – abre as cortinas do que é belo. O afago no quintal tão meu, antes de seguir rumo ao que o dia se antecipa para mim.

No meu lugar as cores tem a tonalidade dos olhos deles, sem nome de cor exata, mas tendo a docilidade do amor. A ternura descrita entre troca de olhares e  nos muros os corações a espalhar vontade de amar.

 

Converso com a sorte imitando cores, e fazendo com que os pincéis desenhem as rotinas das flores. A estação brincando de viver para além dos muros. A vida a conversar comigo onde o silêncio me cabe. É quase um grito, o suspiro no peito.

 

A rua de cima amarela a medida que vou ganhando as esquinas. Um dourado se encosta na leveza dos lilases dos dias de agosto. Ainda há a brancura das nuvens em um céu matizado feito quadro de pintor.

 

E a medida que o ônibus – e o dia – avançam, no bosque que antecede outro lugar, eu fecho os olhos e sou beijada através dos reflexos dourados pelos raios do sol e meus olhos se perdem na tabela de cores que a manhã me oferece até onde minha vista alcança.

 

Mariana Gouveia

Participam desse Projeto:
Claudia Leonardi  | Maria Vitoria | Lunna Guedes | Fernanda Akemi | Obdulio Nuñes Ortega |

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342. dos verbos indefinidos

Ainda é a lembrança daquele dia que a resgatei que insiste em dias como esse.. Poderia enumerar o dia a dia – a mudez exata de seis meses, depois que chegou e o latido inesperado depois do gato no telhado – na viagem, as árvores ganhavam a expectativa da chegada. Na chegada, o medo e a insegurança de um lugar desconhecido para ela, mas de oferta para ela  e ela era minha. Parecia que sempre estivera ali. E eu era dela.

Nos olhos, a virtude do amor.
A salvei de uma vida de sofrimento – mentira! – ela salvou – me de uma vida sem a doçura dela.
Cada vez que volto para casa, ela é a espera e a entrega. O abraço longo que causa derruba. O acalanto doce do ficar deitada aos meus pés.
Os anos são contados nos dedos de uma mão. Mas é como se fosse a vida inteira. Como se fosse um reencontro de outras vidas e amor mais humano acontece dentro do olhar de uma branquela canina que se chama Lolla.
O dia em que a encontrei foi o dia que o amor se apresentou para mim nos olhos dela.

Mariana Gouveia
342. dos verbos indefinidos