Eu era o debaixo da chuva

laube-claude-theberge

tu o segredo irrespirável do céu.

António de Deus-Rosto
*imagem: Claude Theberge

Vertiginosamente azul.

vertiginosamente azul..Pagano

  ~

Então, pintei de azul os meus sapatos

por não poder de azul pintar as ruas,

depois, vesti meus gestos insensatos

e colori as minhas mãos e as tuas

E perdidos de azul nos contemplamos

e vimos que entre nós nascia um sul

vertiginosamente azul. Azul.

  ~

Carlos Pena Filho
*imagem: Julio A. Pagano

Estudo sobre Distâncias

Estudo sobre Distâncias

I

Descanso seu nome
em meus lábios

assim, beijo-o.

II

Enlaço meu decote
aos botões da sua ausência

assim, abrigo-me.

III

Deste corpo, pouso
Deste abraço, ninho.

Karinne Santiago
*imagem: Mira Nedyalkova

361. dos verbos indefinidos

361. dos verbos indefinidos.JPG

Conheceu uma galáxia estranha no quintal.  Há séculos que reescrevi a mesma história. O ponto final era um poema vertical. A dor instalada na garganta.
A palma da mão estendida na reza:
– Leio sorte ao meio – dia!
A intimidade é o ponto fraco para os fortes.
Há que estender o verbo indefinido. A casa sem janela que marcava o canto do muro na rua de cima. O desejo de viver na dor. Os olhos exaltados no ocaso do agora.
O retrato fosco no silêncio. As árvores ganham garras de monstros. O azul destoa do céu escuro. A solidão é o vestígio dos últimos dias de desafios que a alma enfrenta.
Palavra do dia: resignar.

Mariana Gouveia
361. dos verbos indefinidos

320. das fragilidades secretas

Quando choveu revirou cada canto da casa. As gotas na chuva lembrou as goteiras da infância.
O cansaço abre a porta, faz o chá… verte líquidos. Na mesa da sala, os discos…
Os vinis antigos esparramados entre os poemas antigos, as cartas de tarô.

Tudo antecede a sorte e a vontade da escolha.
O caminho é  logo ali, quando escurece, no canto do muro.
O café frio na xícara e as cartas que nunca enviei.
O aroma de bolo vem da casa vizinha – o vento atravessa as cortinas lilases – e traz de novo as lembranças da infância. O riso das histórias contadas, as frases dos livros lidos e o pai a dizer que tudo é poema em uma noite em que as gotas molham as flores e os azuis que enganam os olhos de amor.

Mariana Gouveia
320. das fragilidades secretas

298. das infnitudes

 


No dia de ontem não houve amanhã. A vida é esse vai e vem desencontrado nas notícias.
Choveu numa tarde que pareceu noite.
Era o vácuo dentro da verdade das coisas.

Morri nas densidades dos azuis – de um céu que escurece e enfurece diante dos cometas – a chuva e seus avanços no quintal.

No equinócio de primavera, fora das folhinhas e eu sei o que sinto.

Lá fora, o som dos pássaros e o vento forte.
A sintonia é a canção para as gotas da flor.

 

Mariana Gouveia
298. das infnitudes

256. Entre uma estação e a primavera

 

É você essa poesia engasgada na garganta. Seu nome fazendo eco nas paredes partidas.  A estação escurece dentro do calendário e o relógio estagnado no sol de meio dia.

A mesa posta e as xícaras esparramadas. Tudo ficou perdido na palavra encanto. O mar é esse azul que ninguém enxerga quando anoitece.
A solidão é essa xícara vazia e a metamorfose diante da vida. Serve-se a cura através de asas.
A parede dá colo para o instrumento que toca. A música ecoa ecoa dentro de você.

Mariana Gouveia
256. Entre uma estação e a primavera