144. dos dias dias diferentes dos outros dias

144. dos dias diferentes dos outros dias

O tempo dentro dos relógios não tem noite nem dia.

Um caos se instala na luta. Os mitos quebram os espelhos. Vejo- me aos pedaços nos cacos. Deformam minha solidão inspirada na esperança.

A vida fica instável na palavra cantada.

Era necessário que o tempo estabelecesse a ordem…

O homem sangra na pele e a natureza cumpre sua rotina de beleza…

Em alguns dias, o mundo fica ao contrário e a leveza pende em um galho de flor.

Alguém fala de jazz ou de blues – nunca sei – e as cartas chegam espelhadas de vida.

No ônibus alguém faz os relatos do acaso e a moça tagarela diz sobre o que a patroa acha de tudo isso.

O cansaço domina a mente.  Lá fora a noite sabe pouco disso. As buzinas ecoam. O prédio vigia a rua no silêncio vazio da periferia. O silêncio é gritante diante do que se sabe. A inquietação toma conta do silêncio – que grita – e o espaço sufoca entre a teoria e as notícias.
É necessário ocupar a alma de leveza e apesar das horas invadirem o silêncio, ainda se pode conviver com a inquietação.

Mariana Gouveia
144. dos dias diferentes dos outros dias

143. dos dias diferentes dos outros dias

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É noite já.
O rádio lembra o tempo passado.
E o locutor detalha a programação do dia que passou – recordo a novela antiga que minha mãe gostava – e a previsão do tempo muda constantemente e eu espero a moça do tempo anunciar a mudança da estação. Júpiter hoje esteve próximo daqui. Consegui vê-lo logo além da linha do horizonte. Contei a miudeza das coisas e falei da árvore seca, vazia também de folhas e com jeito de ave a desenhar a noite em um inverno fingido. Preciso de uma noite menos fria em que não sinta a agonia de um dia a mais que morreu. O calendário que não tenho me apressa na rotina no silêncio das horas. É preciso dizer que as lembranças são marcas na pele e os minutos inventa o sono para eu atravessar a noite mais depressa.
A insônia povoa noites vazias… e a solidão acontece a céu aberto.

Havia aquela cidade famosa onde eu desenhava nas paredes os poemas e as flores tortas que a gente ia dividir na estação e os cheiros a invadir a noite. Era sempre noite quando eu viajava. As luzes a derramar as cores pelas ruas e as pessoas estranhas a cruzarem a avenida imaginária no meu quintal. Ouvia Bruna Carlile todas as noites, a janela aberta como agora, e o cruzar os pés um sobre o outro para que a noite voasse só para eu te encontrar em mais uma carta na manhã seguinte. Começavam então, precisamente aí, as noites menos escuras e as cartas escritas em noites vazias.

(Porque elas, as tais noites vazias é a forma das menos escuras e das cartas escritas em vão…e a tal música que ecoa é essa vontade de fugir para onde todas as coisas são possíveis]

Mariana Gouveia
143. dos dias diferentes dos outros dias

142. dos dias diferentes dos outros dias

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Quatro da manhã e eu varrendo folhas enquanto a loucura faz barulho na alma.
A garoa densa lembra o tempo da estação e o cacto inicia seu meio de desabrochar uma flor.
O grito de uma ave noturna abala o silêncio…
Um cão ladra como se dissesse um código para o outro da rua de cima que responde em ressonância ao aviso
O que o moço da reciclagem faz uma hora dessa na rua catando garrafas pets, enquanto o frio corta a pele e ele canta a canção sertaneja que me faz lembrar da última carta que minha mãe escreveu?
Sirvo um café quente para aquecer as mãos na xícara e ele narra uma saudade gritante no peito de coisas que não viveu.
Recicla versos dentro de uma canção imaginada e desperta a manhã fria que se aproxima envolvido no abraço… fala da mulher azul do seu passado e seus pés de bailarina e do cheiro de árvore que sente toda madrugada nas caminhadas rotineiras:

– isso de dor de amor, moça, é como ferida na pele… Até sara, mas fica a cicatriz.

Mariana Gouveia
142. dos dias diferentes dos outros dias

141. dos dias diferentes dos outros dias

141. dos dias diferentes dos outros dias

Entre as nuvens e as estrelas
Clareia a pele com o efeito da dor.
Os cabelos ralos diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço.

Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela,
o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência.

Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem.
Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor.

As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo.
O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão.

E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.

Mariana Gouveia
141. Dos dias diferentes dos outros dias

140. dos dias diferentes dos outros dias

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Não se pode dar alforria para quem já nasceu livre.
A menina que fazia flores desenhou rastros no meu quintal. Cantou canções que falava de borboletas.
Quis espantar o dragão que comia em minha mão.
À noite, os monstros são gigantes – as silhuetas das mãos criam fantasmas na sombra – e invadem a porta dos fundos.
Chove em algum lugar do planeta e os cogumelos nascem no jardim do vizinho.
A liberdade é declamada em versos e a menina se faz princesa nos contos de fada.
O caminho é logo ali, na esquina que se dobra entre o lugar de fé e a estação paraíso.
Em algumas noites, o efeito é alucinógeno quando se bebe água.

Mariana Gouveia
140. dos dias diferentes dos outros dias

 

139. dos dias diferentes dos outros dias

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De noite, voava como se tivesse asas e dependurava no teto – colados em ideogramas – os sonhos.

Voava como se fosse peixe, desenhado para voar…
e assim, ainda voava como se o mar fosse céu.

Voava como se fosse o instrutor da hidroginástica a fazer passos ouvindo “Glóriaa…”

Como se fosse ave, flor, voava. Muitas vezes, durante o silêncio da madrugada.

Em outras, era o céu que voava dentro dela.

Como se tivesse asas e pudesse plainar, pousava

feito a borboleta na mão…

 

Mariana Gouveia
139. Dos dias diferentes dos outros dias

 

138. dos dias diferentes dos outros dias

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O corredor longo me faz prestar mais atenção à vida, no que sobra dentro da memória dos restos de imagem que vejo da janela.

Alguém busca notícia da menina que gosta de verde… chega a desenhar a palavra no ar.
Ele tem apenas memórias, uma vez que nunca mais a viu e faz a peregrinação todas as noites revisitando os lugares de onde se lembra que ela passou.

Tem a mão dela desenhada em uma camiseta estampada com poemas e agora tão fora de alcance. Então, o amor…

Ignoro a história toda… contabilizo as gotas no vazio da espera e dentro disso folheio em um livro a ignorância da história, a nossa própria – e penso na menina que adora o verde nas palavras todas – escrita a punho, em cartas que não enviei

Alguém diz que sou duas, nas facilidades da força. Repete meu nome dentro de uma música que conta meu nome de diversas maneiras…

Enquanto o corredor escuro é apenas o portal do encantamento que acontece no meu quintal.

Mariana Gouveia
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