90. da estação das águas

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Os dias da estação das águas chegaram ao fim… Isso não quer dizer que depois disso não chovia…
Tinha dia que chovia o dia inteiro – como hoje – e a gente ficava procurando coisas para fazer depois da chuva.
Durante ela, a mãe fazia o bolinho tão famoso que às vezes, pedíamos a chuva só para comer a iguaria, que trazia o sabor de amor de mãe para nós.
Depois das chuvas, os insetos ganhavam vida dentro dos dias…
Transmutavam metamorfoses junto das gotas e daí, as horas se transformavam em dias de sol.
A brisa leve conduzia a rotina do tempo nas estações – que muitas vezes aconteciam várias vezes no mesmo dia – e logo ali, no dia seguinte, já era outro dia, outros tempos…
Outras lembranças.

Mariana Gouveia
90. da estação das águas

 

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88. da estação das águas

Era o tempo da preparação de algumas colheitas. Os vegetais que foram beneficiados pela chuva estavam em pleno verdor.
Os quiabos exibiam flores e frutos e a horta era a maravilha que a mãe exaltava nas conversas com as comadres e tias.
A quaresma tinha o ritual mais do que comum na região toda. Nas quartas e sextas não comiamos carne vermelha e os legumes e vegetais – juntamente com ovos de galinhas – ganhavam ares de ceia na mesa nesses dias.
As histórias que o pai contava sobre quem teimava sobre esse “jejum” de carne beirava ao terror.
Era a visão do céu e inferno desenhada por palavras em gestos e onomatopéia…
Todos esses instantes foram moldando nossas vidas e ali, diante da estação que ia passando a gente aprendia entre o real e imaginário.

Mariana Gouveia

88. da estação das águas

87. da estação das águas


Os dias marcam o fim da estação. As águas se espaçam e quando chove é mais tranquilo, sem o risco de enchentes.

Hora de cuidar da horta… Tirar as ervas daninhas, visitar os insetos e seus ninhos…

O pai cuida dos arredores do curral… É hora de nascer o bezerro da Estrela.

As sementes que foram plantadas começam a brotar…

O tempo passa mais lento e algumas frutas do pomar já pedem colheita.

Os papagaios começam a se aproximarem para roubar comida do pomar.

O tempo das águas durou o tempo certo para as plantações e mais uma vez fomos abençoados pela natureza…

É a vida tocando nossas almas com toque de mestre.

Mariana Gouveia

87. da estação das águas

86. da estação das águas

O trieiro até o rio era cercado pelo verde da mata… O orvalho da madrugada beijava o capim e o vento cantava sinfonia…

Os pés, molhados, era o convite para a dança com a natureza.

A chuva espalha nos dias mais devagar e a estação quase se despede. O sol demora dentro das horas e já dá para tomar banho no rio e ficar a espreitar o volume de água nas cachoeiras.

A natureza nos presenteia com as jóias a balançar no capim…

E a vida acontece em ritmo de aventuras no quintal.

Mariana Gouveia

86. da estação das águas

85. da estação das águas

85. da estação das águas

Estou nos dias antigos dentro de minhas histórias. Minha mãe a desenhar riscos para um novo bordado, escolher as linhas, tesoura, obra de arte a caminho; meu pai a espanar o chapéu panamá – uma das suas paixões – os irmãos a tentar um ganhar do outro a bola de gude enquanto uma das irmãs cuida pela milésima vez do cabelo em frente ao espelho, mesmo com orientações da mãe sobre os raios.

Na época, eu não percebia que isso viraria um quadro para minhas memórias e nem que a imagem ficaria dentro de mim com sons, cores e saudade. O cheiro da terra molhada a invadir os aposentos. O tempo da chuva passando e as flores de preparando para abrirem dentro de uma nova estação… as gotas a beijar as que já se abriram e o vento que entra pela porta era poesia na alma.

Hoje, dentro dos dias antigos a história se repete e as lembranças ganham vontade de ouvir a voz da mãe a chamar os meninos que se perdem na varanda atrás da bola de gude e as linhas nas mãos a bordar os sonhos.

Mariana Gouveia
85. da estação das águas

84. da estação das águas

Meu pai tocava sanfona e a melodia entrava na alma dele quando abraçava o instrumento. Parecia que era outro homem… Os olhos ganhavam um brilho incomum… Irradiava a luz de algo que ele adorava fazer.

As mãos calejadas da vida dura no campo arrancavam com maestria do acordeon a canção que ele queria. Asa Branca trazia o sertão tão latente no ritmo que ele gostava…

Virava em festa em casa e a dança dominava os aposentos.

A chuva caia e entre uma canção e outra, meu pai admirava a névoa densa na serra.

– Amanhã chove de novo na terra – ele dizia –  neblina na serra…

E mais uma vez, repetia a frase que eu ouvia desde sempre:

” Neblina na serra, chuva na terra… neblina no chão, chuva não…”

Assim, os dias dentro da estação das águas cumpri seu destino de ser amor enquanto a sanfona espalhava seu som pelas mãos dele.

Mariana Gouveia

84. da estação das águas

83. da estação das águas

As chuvas iam diminuindo a medida que a estação caminhava. Era uma preparação da natureza para o equilíbrio das coisas.

O sol demorava mais tempo no dia e às vezes, nem chovia.

O chão molhado enfeitava a singeleza do capim… O cogumelo era o adorno que a vida oferecia. Parecia o sorvete decorado que a gente via na propaganda da Revista e a gente comparava com o sabor do bolo de coco que a mãe fazia para o chá da tarde.

“Cuidado com as vontades tolas – a mãe dizia, ou mesmo a bá – elas podem envenenar o corpo ou a alma..”

Aprendi a reconhecer aos poucos os venenosos e me recordava sempre da frase repetida infinitas vezes – o que cura também pode matar – e isso me livrou de algumas enrascadas…

Aconteceu de uma vez cortar o pé em um pedaço de vidro jogado contra uma árvore por um dos irmãos. O corte imenso foi estancado, limpo e nele foi colocado o pó do cogumelo colhido logo além do quintal… No dia seguinte, já não havia resquícios de dores, nem de infecção.

Mas a lição ficara para a vida toda sobre o poder da cura e de como a natureza nos envolvia dentro de sua oferta.

Mariana Gouveia

83. da estação das águas