do_mar

na boca
palavras soltas
selvagens
pra te cavalgar o coração
suave
cavalo marinho
a caminho d’alma

Nil Kremer
*imagem: Alexandra Khitrova

Arrastão

arrastão

Seria leve e azul
Fossem apenas a seda e o mar
Mas coleciona conchas
Ao andar
E todo búzio que joga
Acerta
Uma nova estadia

Tempo de choco
Espera e nada
De pérola

Passando século
Naufragada
Junta na franja
Do pano
a milésima casa de ostras.

Adriane Garcia
*imagem: Tumblr

É domingo

e o silêncio estende-se pela casa. há muito que não te escrevo. dizer-te que existes ainda nos corredores, nos espelhos.
começo a esquecer-me da tua voz. oiço-te dentro de mim mas não consigo reproduzir a tua voz.

é tão difícil guardar a memória de uma voz

Al Berto
©️ Magdalena Benny

…dos nomes que guardei pra ti…

 

Ao longo dos anos,
nem percebi que fui criando um léxico especial
com as palavras que usei para te nomear,
senhora minha.
.
Foram retiradas de um certo riacho
mágico
onde o verbo meu e o verbo teu
brincavam como peixinhos-crianças,

nossas palavras,

reverberando em pedregulhos
a semântica única
dos murmúrios dos amantes
.
Ah, aprendemos bem a lição de Kundera!…
.
Nomeei-te um dia
mar,
pois como um rio
correm minhas águas
para ti,
num fluxo natural
.
nomeei-te
nuvem
e a mim mesmo
pássaro alado,
em voo livre
atrás de teus infinitos todos
.
nomeei-te
lar,
porque teus olhos sobre mim
se tornaram a minha casa
.
nomeei-te
minha hóspede atemporal,
porque
podes vir a mim
sempre, sempre que quiseres,
.
e por fim,
nomeei-te
amor!
.
e foi tão simples,
tão absolutamente simples
chamar-te assim,
“amor”,
.
que prescindi
de qualquer outra explicação
ou entendimento.
.
Eduardo Ramos
*imagem: Kylie Sparrek

Cheiro de asa molhada

Kurt arrigo

 

Voo da claridade ao
Subsolo
Voo da luz abissal ao
Breu da noite
Dentro
O serviço meteorológico informa:
Precipitações

Com treino
Com muito treino
Podemos ouvir
Acima das nuvens
Ou no fundo do rio
As chuvas miúdas.

 

Adriane Garcia
*imagem: Kurt Arrigo

Conhecia tão pouco do olhar dela…

Conhecia tão pouco do olhar dela...*imagem: Tumblr

Mas a voz…
A voz conseguia decifrar em tempo, instância e conjugações verbais todas.

Sabia de cor o dialeto dela. A linguagem do mar. De amar.
As gírias que causava arrepio na alma quando ela falava.
Mas ela não sabia
nem atrevia a dizer.
Era como se precaver da loucura que antecipava nos dias.

Mas a voz, conhecia os rumos,
os assuntos repetidos em um ciclo impulsivo de querer ver.
A pausa que fazia entre um assunto e outro.
Até mesmo o silêncio e o que ele queria dizer.

Conhecia os mapas que as palavras dela levava.
A canção repetida pela maresia e o desejo atento no falar.

Conhecia tão pouco o olhar dela…
coisa de quinze dias navegou no mar cinza denso…

Depois era só palavra e voz…
da voz conhecia tudo.
Os acentos, o acordo ortográfico que não morava ali.

E era ali, na voz dela que mergulhava na vontade absurda de viver.

Mariana Gouveia