3 – estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

* imagem: Félix Mas

escrevia-te poemas
na ponta dos lábios
todos os começos do dia

a carmim
cor de terra
laranja de vida

dizer-te todos os começos do dia
eu te amo
Ana Christelo

 

Querida A.

 

Agucei o delírio da febre e reconstruí mais uma vez nossa história. Poderia dizer que olhando através das ondas eu só mudaria algumas marés… O resto, te amaria igual – ou diferente – nesses séculos que te vivo.

Do meu quintal eu atravesso esse oceano de possibilidades. Enquanto você é mais aldeia, eu sou marítima nesse meu amor. Visito suas lendas dentro da escuridão. Estou sozinha. De noite… Sou puro cavalgar no teu oceano onde a vida exala beleza.

A primavera chegou… dizem que hoje, seria o fim do mundo – pensei que seria lindo se o mundo acabasse em plena primavera – e se isso acontecer eu ouvi tua voz mais uma vez ecoando dentro do vento.

Mas o mundo que me ronda é esse mar que invade onde é rio e eu líquida, deliro de amor.

Quando te escrevo tento me ater às ruínas dos castelos onde esteve. Te visito pelas estradinhas das vilas nos voos das borboletas – que cada vez mais nos une –  ou nos girassóis dos campos onde respira meu nome dentro da flor – ou nos habitantes do mar que te rodeia.

Converso com suas lendas e cada vez mais o que é do mar nos aproximam no mesmo tempo e espaço.

É como se dentro de mim estivessem juntos os dois mundos dentro dos nossos.
Os abismos e sua fala doce… a moldura da maresia que todos os dias reflete em minha pele teu toque e você.

 

Beijo meu

 

M.
Projeto  Missivas de Primavera
Editora Scenarium Plural

 

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265. Entre uma estação e a primavera

Não consegui desfazer nada daquelas lembranças, onde a madrugada era o pano de fundo para as loucuras de amor.

Do outro lado, as lembranças desfiadas uma a uma como contas jogadas ao mar.
Virei marítima dela. O mar esvaziando pela boca. Os poros abertos em ondas e a verdade ecoando no eu te amo. O céu, azulando em asa de voo, dentro da solidão.

A lua, atrevida com desafio as marés – é primavera aqui no meu quintal – e o outono desfolha a tua árvore de ave.

Fui migratória dentro de suas palavras e invadi seu estado de pensar.

Do mar, na boca eu bebo a lucidez de uma estação junto do peito.
É tempo de lavar as memórias no meu rio enquanto o homem da esquina invade o mar do meu quintal. O jardim canta a sinfonia das conchas e búzios que leem minha sorte aqui e isso me leva para junto dela.

Tenho a sensação de que o mar é esse estado de primavera onde eu sou mais de lá do que daqui.

A vida é esse estado de graça diante do desejo das coisas que não aconteceram.

Quem sabe, na estação seguinte…naquele instante fico coberta de flor e começo a fundir-me com a alma dela.

 

 

Mariana Gouveia
265. Entre uma estação e a primavera

252. Entre uma estação e a primavera

 

A minha rua tem uma cidade vazia… cheia de casas sem habitantes e com quadros ocos.
De vez em quando, peregrinos com ideais de sonhos cruzam por ela. Atravessam seus muros e plantam nos quintais – chegam a abrir as portas e janelas – mas logo vão embora deixando as casas mais vazias ainda e as aves desabitadas penduradas em galhos secos de árvores sem cor.
As estações acontecem dentro das horas do dia. A primavera se perde no calor imenso que queima tudo.
A minha rua tem uma cidade em ruínas e  essa solidão imensa sem você.
Nos quintais a esperança foi moída e os mitos que cuidavam dos jardins se desmitificaram todos.
A solidão da minha rua tem tatuagem da presença de alguém. Tatuagem desbotada, igual aos grafites feitos nos muros tortos da minha cidade.
Tem a maresia rasgada em mil pedaços dentro da noite e tem a vitrola antiga a entoar fados só para registrar que o mar é logo ali, além da esquina.
Mariana Gouveia
252. Entre uma estação e a primavera

234. das impressões do dia seguinte

 

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.

O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro.
O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

 

Mariana Gouveia
234. das impressões do dia seguinte

220. das impressões do dia seguinte

 

Você poderia me dizer se amanhã vai ser quente, se a cortina azul ainda dança na sua janela e que a brisa faz lembrar de mim.
Poderia me falar das coisas bobas que você fez. Da areia da praia onde encontrou os búzios coloridos e de como a exatidão da conchas cabem dentro do meu quintal.
Às vezes, as conversas bobas trazem o encanto e o sol debrua buscando a maresia que sopra aqui.
O vento te conta histórias que antigamente você lia. Os séculos perduram em relógios quebrados com as ondas do mar.
Os teus olhos buscam a incompletude onde o mar avança sobre meus passos.
Como desenhar as digitais de sua mão dentro de minhas histórias?
Como atravessar em pensamento um oceano inteiro onde é secura logo além da varanda e meu suspiro avança noite adentro.
De noite, o mar é dourado, enquanto pirilampos invadem meu quintal sem luz.
O teu corpo vazado em meus dedos de artesã.

Mariana Gouveia
220. das impressões do dia seguinte

127. dos dias diferentes dos outros dias

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Era sagrada a lua quando teus pés pulavam a poça d’água no chão e tocava o céu com as mãos na água onde refletia as nuvens e seus azuis entremeados de branco.
Procurava figuras nelas, tentava encontrar estrelas cadentes num céu de maio desmaiado de luz.
Era noite quando regressava de sua viagem transgressiva e me contava seu caso de amor interestelar com a areia do mar… trazia para dentro de casa a maresia e invadia o quarto com sua intenção de amar.
E deixava meu quintal com o ritual marítimo de ser e cheio do desejo de estar.

Mariana Gouveia
127. dos dias diferentes dos outros dias

93. dos dias aleatórios de Abril

93. dos dias aleatórios de Abril.JPG

Acreditava nas histórias marinhas. Sabia o sabor de mar à pele mesmo sendo de rio.Já vira um peixe voar, fora da mão, de asa. Alguém contou sobre coisas mitológicas…
Rabiscava as ondas nos muros da cidade, de madrugada.
Guardava dentro das lendas que criava o encontro marítimo entre a maresia e o quintal. Entre a terra e o mar.
Muitos diziam ser invenção ou qualquer coisa assim… Loucura barco de rio atravessar o oceano. Batia-se além das marés e ali, morria na praia.
Ela, apenas acreditava que qualquer coisa poderia acontecer… Bastava fechar os olhos e viver.

Mariana Gouveia
93. dos dias aleatórios de Abril