É domingo

e o silêncio estende-se pela casa. há muito que não te escrevo. dizer-te que existes ainda nos corredores, nos espelhos.
começo a esquecer-me da tua voz. oiço-te dentro de mim mas não consigo reproduzir a tua voz.

é tão difícil guardar a memória de uma voz

Al Berto
©️ Magdalena Benny

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…dos nomes que guardei pra ti…

 

Ao longo dos anos,
nem percebi que fui criando um léxico especial
com as palavras que usei para te nomear,
senhora minha.
.
Foram retiradas de um certo riacho
mágico
onde o verbo meu e o verbo teu
brincavam como peixinhos-crianças,

nossas palavras,

reverberando em pedregulhos
a semântica única
dos murmúrios dos amantes
.
Ah, aprendemos bem a lição de Kundera!…
.
Nomeei-te um dia
mar,
pois como um rio
correm minhas águas
para ti,
num fluxo natural
.
nomeei-te
nuvem
e a mim mesmo
pássaro alado,
em voo livre
atrás de teus infinitos todos
.
nomeei-te
lar,
porque teus olhos sobre mim
se tornaram a minha casa
.
nomeei-te
minha hóspede atemporal,
porque
podes vir a mim
sempre, sempre que quiseres,
.
e por fim,
nomeei-te
amor!
.
e foi tão simples,
tão absolutamente simples
chamar-te assim,
“amor”,
.
que prescindi
de qualquer outra explicação
ou entendimento.
.
Eduardo Ramos
*imagem: Kylie Sparrek

Cheiro de asa molhada

Kurt arrigo

 

Voo da claridade ao
Subsolo
Voo da luz abissal ao
Breu da noite
Dentro
O serviço meteorológico informa:
Precipitações

Com treino
Com muito treino
Podemos ouvir
Acima das nuvens
Ou no fundo do rio
As chuvas miúdas.

 

Adriane Garcia
*imagem: Kurt Arrigo

Conhecia tão pouco do olhar dela…

Conhecia tão pouco do olhar dela...*imagem: Tumblr

Mas a voz…
A voz conseguia decifrar em tempo, instância e conjugações verbais todas.

Sabia de cor o dialeto dela. A linguagem do mar. De amar.
As gírias que causava arrepio na alma quando ela falava.
Mas ela não sabia
nem atrevia a dizer.
Era como se precaver da loucura que antecipava nos dias.

Mas a voz, conhecia os rumos,
os assuntos repetidos em um ciclo impulsivo de querer ver.
A pausa que fazia entre um assunto e outro.
Até mesmo o silêncio e o que ele queria dizer.

Conhecia os mapas que as palavras dela levava.
A canção repetida pela maresia e o desejo atento no falar.

Conhecia tão pouco o olhar dela…
coisa de quinze dias navegou no mar cinza denso…

Depois era só palavra e voz…
da voz conhecia tudo.
Os acentos, o acordo ortográfico que não morava ali.

E era ali, na voz dela que mergulhava na vontade absurda de viver.

Mariana Gouveia

329. das fragilidades secretas

Anoto em uma carta as frases que diria…
As sombras na parede espanta a solidão enquanto o sol aquece os corredores vazios.
O jardim envernizado com flores de plastico esconde a parede oca para o futuro do nada.
Descobri casas abandonadas na minha rua. Cada uma grita um nome quando a noite cai.
Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo. Os intervalos entre o vento e o muro é o calor.
Alguém canta na redondeza. Contam histórias de horóscopos e tarôs. vejo as constelações todas num céu sem nuvem… o rumor da pele desenhando tatuagens. Misturo os assuntos e rasgo a carta.
As frases ficam soltas em uma estrada diferente da outra. o mar afasta a possibilidade de escolha. Em algum lugar, a estrela fica fora do céu.O vermelho ao meu redor é apenas a vontade de estar onde não estou.

Mariana Gouveia
329. das fragilidades secretas

Vestido a olho nu

vestido a olho nu*imagem: Google

toda a vida
visto este corpo
como se deserto
para justificar
todas as sedes
mas que miragem
peixinhos
borbulham águas
por todos os poros
boca
e beira dos olhos

Joelma Bittencourt