220. das impressões do dia seguinte

 

Você poderia me dizer se amanhã vai ser quente, se a cortina azul ainda dança na sua janela e que a brisa faz lembrar de mim.
Poderia me falar das coisas bobas que você fez. Da areia da praia onde encontrou os búzios coloridos e de como a exatidão da conchas cabem dentro do meu quintal.
Às vezes, as conversas bobas trazem o encanto e o sol debrua buscando a maresia que sopra aqui.
O vento te conta histórias que antigamente você lia. Os séculos perduram em relógios quebrados com as ondas do mar.
Os teus olhos buscam a incompletude onde o mar avança sobre meus passos.
Como desenhar as digitais de sua mão dentro de minhas histórias?
Como atravessar em pensamento um oceano inteiro onde é secura logo além da varanda e meu suspiro avança noite adentro.
De noite, o mar é dourado, enquanto pirilampos invadem meu quintal sem luz.
O teu corpo vazado em meus dedos de artesã.

Mariana Gouveia
220. das impressões do dia seguinte

127. dos dias diferentes dos outros dias

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Era sagrada a lua quando teus pés pulavam a poça d’água no chão e tocava o céu com as mãos na água onde refletia as nuvens e seus azuis entremeados de branco.
Procurava figuras nelas, tentava encontrar estrelas cadentes num céu de maio desmaiado de luz.
Era noite quando regressava de sua viagem transgressiva e me contava seu caso de amor interestelar com a areia do mar… trazia para dentro de casa a maresia e invadia o quarto com sua intenção de amar.
E deixava meu quintal com o ritual marítimo de ser e cheio do desejo de estar.

Mariana Gouveia
127. dos dias diferentes dos outros dias

93. dos dias aleatórios de Abril

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Acreditava nas histórias marinhas. Sabia o sabor de mar à pele mesmo sendo de rio.Já vira um peixe voar, fora da mão, de asa. Alguém contou sobre coisas mitológicas…
Rabiscava as ondas nos muros da cidade, de madrugada.
Guardava dentro das lendas que criava o encontro marítimo entre a maresia e o quintal. Entre a terra e o mar.
Muitos diziam ser invenção ou qualquer coisa assim… Loucura barco de rio atravessar o oceano. Batia-se além das marés e ali, morria na praia.
Ela, apenas acreditava que qualquer coisa poderia acontecer… Bastava fechar os olhos e viver.

Mariana Gouveia
93. dos dias aleatórios de Abril

Trauma

Trauma
Nem sei que água me trazes
Aposto
Que molha e me dói
Como dói ser
Adiante
As águas que se me
Repetem
Um dia me entraram e
Antes
Talvez que nunca me
Encharques
Estou a queimar-me
De frio.

Adriane Garcia
*imagem: Tumblr

O jardim não está para peixes

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O jornal não acredita na história dos signos. Pediu para trocar a personagem do meio. Como pseudônimo usou o nome verdadeiro. O editor corrigiu para um nome engraçado. e assim a lua transitou suave pela constelação do agora.
No porta-retratos familiares antigos. Pessoas que não recordam da infância.
Há muita distração na grama do jardim. A história é a mesma. Só muda o nome. Não há conexão com o astral. A demora atrasa o dia. Afinal, o jardim não está para peixe. Eles voam para fora da gaiola.
Ninguém consegue entender a isca.
O inverso acontece dentro de mim.
Hoje a solidão exagera na palavra.

Mariana Gouveia
*imagem: Louis Treserras

Regressa

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Se outra forma não há
De concretizar este amor,
Recolhe
Dentro do meu ventre
O teu desejo,
E regressa
Ao teu voo no meu rio
Quantas vezes teu pousar
O permitir.
.

Margarida Afonso Henriques
*imagem: Vladimir Fedotko