4 – sinto falta de mim, em mim

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Eu te enfeito com histórias que ninguém, senão eu, li em ti.

Nélida Piñon

 

Querida minha.

A expectativa de um sábado à tarde é preguiça de viver. É primavera – mas em meu quintal o outono vagueia invasivo nas folhas que caem – e amanhã já será outro mês e a gente fica medindo os dias que faltam para o ano acabar.

Fico nessa agonia de buscar curas, de buscar ervas, de viver poesias, de estar em tanto lugar e ao mesmo tempo em nenhum.

Os dias aqui têm sido mornos – quentes – e sufocantes. Parece que Agosto perdura até hoje e que a qualquer momento os cachorros loucos entrarão portão adentro e lembro da infância onde não afastava tanto de casa com medo dos cachorros loucos que podiam aparecer a qualquer momento – e que nunca vi – e é como se esse mesmo medo voltasse. O medo tão real e palpável que recuo diante da tarde.

As sombras no muro refletem os cachorros loucos que existem na memória.

Não venta, não chove e o céu fica nesse cinza chumbo enquanto eu busco a cor dentro de mim. Aliás, me busco nas lembranças de tudo que já vivi. Sinto falta de mim, em mim.

A lua, atreve-se em sua fase a caminhar oblíqua no céu enquanto penso em você e seu barulho de mar. Faço declarações de amor que não envio.

Crio histórias contigo que não conto para ninguém.  Faço grafites imaginários no muro onde uma mancha lembra qualquer coisa das suas lendas.

Lembro – me da parede do prédio abandonado perto do trabalho onde havia um grafite, escrito um nome meio ilegível e uma flor arrancada a pétala. Conheci o moço que fez o desenho. É o mesmo que tatuou em mim as borboletas que fazem parte de minha vida, assim como você…

 

Beijo
M
Projeto Scenarium Plural
Missivas de Primavera

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3 – estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

* imagem: Félix Mas

escrevia-te poemas
na ponta dos lábios
todos os começos do dia

a carmim
cor de terra
laranja de vida

dizer-te todos os começos do dia
eu te amo
Ana Christelo

 

Querida A.

 

Agucei o delírio da febre e reconstruí mais uma vez nossa história. Poderia dizer que olhando através das ondas eu só mudaria algumas marés… O resto, te amaria igual – ou diferente – nesses séculos que te vivo.

Do meu quintal eu atravesso esse oceano de possibilidades. Enquanto você é mais aldeia, eu sou marítima nesse meu amor. Visito suas lendas dentro da escuridão. Estou sozinha. De noite… Sou puro cavalgar no teu oceano onde a vida exala beleza.

A primavera chegou… dizem que hoje, seria o fim do mundo – pensei que seria lindo se o mundo acabasse em plena primavera – e se isso acontecer eu ouvi tua voz mais uma vez ecoando dentro do vento.

Mas o mundo que me ronda é esse mar que invade onde é rio e eu líquida, deliro de amor.

Quando te escrevo tento me ater às ruínas dos castelos onde esteve. Te visito pelas estradinhas das vilas nos voos das borboletas – que cada vez mais nos une –  ou nos girassóis dos campos onde respira meu nome dentro da flor – ou nos habitantes do mar que te rodeia.

Converso com suas lendas e cada vez mais o que é do mar nos aproximam no mesmo tempo e espaço.

É como se dentro de mim estivessem juntos os dois mundos dentro dos nossos.
Os abismos e sua fala doce… a moldura da maresia que todos os dias reflete em minha pele teu toque e você.

 

Beijo meu

 

M.
Projeto  Missivas de Primavera
Editora Scenarium Plural

 

2 – as horas estão escritas num futuro impossível

O tamanho do teu nome
 Quase já não se nota
Na estrada onde caminhas
Já não sei onde mora
A cor do sol
Pela estrada
onde caminhas
As curvas entornam-nos
      Sucessivamente. 
Daniel Faria
 
 Querida A

Preciso te dizer que tudo está bem, que a febre baixou e que a moça de branco agora vem de azul – quase toda noite – com exceção das sextas sem lua.
Nas sextas, ela vem colorida, diferente e mais simpática.
Percebi que ela cortou o cabelo e riu sem graça quando comentei – apenas para puxar assunto –  e fixou o olho na frase que pede silêncio no cartaz.
Eu acho que eu precisava ouvir tua voz. Sentir a rotina das urgências nas flores do jardim.
Devo te contar que esse mar por onde você navega nesse momento rebate em ondas no meu quintal.
O mesmo quintal onde suas lendas nasceram e onde planto o ipê que irá florar em alguma primavera daqui a alguns anos.
O calor está demais e as aves migratórias madrugam e lembro-me de que eu era de um hemisfério – florido, com noites no cabelo e dias de sol – e você em outro – com lado marítimo e crepúsculo no coração.
Deveria te dizer promessas vazias, do meu amor de toda noite, onde desenharei os dias dentro das horas escritas num futuro indescritível…
Mas, tudo que posso dizer dentro das palavras é que meu amor tão teu, tão entregue é apenas esses dias de setembro, esperando que a primavera seja mais do que uma estação de flores e sim, uma estação de amor e meu refúgio é dentro do seu nome.
Mariana
Projeto Scenarium Plural
Missivas de Primavera

1. Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

 

Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Alejandra Pizarnik

Querida A.

 

A palavra fogo rodeia meu lugar. Eu mesma ardo em febre e a cidade, conhecida pelo seu calor insuportável, agora fica insuportável. A meteorologia prevê ainda dias quentes e o lugar onde é meu refúgio está sendo devastado pelo fogo.

Talvez você nem leia essa carta. Talvez você a leia e nada fará sentido. Talvez sejam as palavras que estarão aqui que você desejava tanto ler – o talvez é tão cheio de expectativas – o sempre, não.
O sempre gera certeza e garantia e nós humanos queremos sempre o sempre.

” sempre vou estar aqui” “sempre vou te amar…”

Sempre, sempre… Às vezes, ele vira palavra vazia. Mas em mim – ou nós – posso substituir pela palavra século. Essa é durável. Forte. Resistente.

Talvez você quisesse ler a palavra sempre enquanto dentro de mim ardia, além da febre a palavra século. E ela significa que, apesar do tempo agora, eu vou te amar sempre.

E não veio o que você esperava no momento e daí você fechou todas as portas e janelas para mim e eu estava no meio de um corredor entre o desespero de mais um dos diagnósticos aterradores, que transformam pessoas em zumbis.

É difícil gerar expectativa de vida depois que os envelopes se abrem e os vãos ficam pequenos entre as calçadas.

Mas não existe espaço para você na minha vida, porque você se tornou ela desde os séculos dos séculos, amém.

Talvez se eu tivesse dito: espere, fique tranquila. Espere a tempestade passar… Talvez você ainda estaria ali, do outro lado da janela, sendo alívio e calma para os dias de fúrias enquanto o corpo luta contra o monstro real.

Talvez é tão cheio de expectativas. Talvez eu hoje pudesse te mostrar o que o nome de um mês pode muda dentro de um quintal.

Parece que a estação acontece no mês todo e não quando passamos da metade dele. Talvez eu pudesse te mostrar o ninho que as aves fizeram aqui. Mas tudo isso é tão relativo e distante. Parece até que aconteceu em outro século e por isso, escrevo cartas que talvez você nem leia.

Meu imaginário me engana sempre, entre os delírios de febre. É como se eu estivesse aí e tudo isso fosse apenas uma história que te conto, mas quando dou por mim existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada… Porque de fogo basta esse que destrói meu cerrado e aquele que queima minha alma.

Fica bem.

M.
Projeto Scenarium Plural – Missivas de Primavera

uma porta que me leva a outro lugar

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E eu digo: “abraça-me”. E os teus braços fazem-se.
E eu digo: “abrasa-me”. E tu fazes-te em braços.
Joana Serrado

Ana de Marte, da vida, do céu, do mundo…

Mais uma vez volto ao seu lugar e refaço instantes que vivemos. Os dias perderam a noção de tempo desde que você se foi.
“O infinito é logo ali, Maryann…” – repito a frase dita tantas vezes por você diante do céu, olhando as estrelas, diante do vento a rodopiar redemoinhos dentro do seu cabelo.
Às vezes, perco a noção do ano de sua partida e ao mesmo tempo parece que foi ontem e muitas vezes parece que ouço sua voz a gritar do outro lado da rua e seu riso ecoa nos seus quintais.
“ Meu quintal é o mundo, Maryann… passeio pelo mundo afora dentro das coisas…” e falando isso, desenhava no ar os corações que te marcou em vida.
Era coração em tudo quanto é lado. Na rua, nas folhas, nas coisas. Hoje, seu quintal ganhou mais mudas. O novo inquilino resolveu decorar de vida sua casa. Pintou de azul turquesa as paredes e a janela que dá para a rua está branquinha e tem gerânios em vasinhos coloridos e quando venta a cortina lilás balança. Ele diz que cuida da casa como se ainda fosse sua e ele tem certeza de que é e por isso, de vez em quando me deixa entrar. Deixa também a chave no mesmo lugar. Debaixo do tapete onde a vida dá as boas vindas ao dia.
A goiabeira deu frutos e os pássaros fizeram um ninho no pé de jabuticaba. Tão frágeis os fios enrolhados no galho mais fino e ao mesmo tempo tão visceral. Ver vidas nascendo ali, onde você esparramava amor em cada fruto. Tem você aqui em cada canto. Parece que a música que toca na casa da vizinha é a mesma que você cantarolava nas noites de estrelas.
Sabe aquele vão entre o galho da amoreira e o pé de goiaba, que abria espaço justamente para quando a lua nascia além dos muros? Pois é, continua nesse vácuo esse espaço.
E parece uma porta que me leva a outro lugar.
A vida apronta algumas coisas com a gente. É como se eu repetisse a sua história…mas lembra-se da parte que eu sempre disse sobre mudar os finais? Eu acredito muito.
Tenho que te contar que voltei ao cerrado. Vi o Universo do ponto onde os ventos uivam e de lá, enviei-te o abraço que envolve todos esses dias e é dentro dele que cabe minha saudade.
Marte mora logo ali, em um ponto focal do céu e é nesse ponto que mora minha esperança.

Beijo

Maryann

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Caindo de si mesmo em si mesmo

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“Quando olhei no espelho,
você era um abraço dentro de mim.
Ver a gente foi como flagrar monges budistas brincando…
um quase impossível fugir das repetições
de palavras calmas.
Palavras são beijos alegres, amor.
Um carinho fugiu um pouquinho e foi brincar no quintal
cheio de meninos esperando para algazarra. As donas de casa
olharam o barulho pela janela…
só conferindo se tinha filho seu.
Sim… e com asas”.

                                                                                                                                                 Aden Leonardo

Menina Paraíso,

Passei o dia inteiro a desenhar rotas de fuga… pela janela, pelos muros, escadas ou pelo quintal enviesado onde o espaço é pequeno. Descobri que não adiantaria… não conseguiria fugir de mim mesma. Acabo caindo dentro de mim mesma…
Busquei presença em olhos perdidos no céu… alguém traduzia idiomas que não entendi e juro que preferi mil vezes meu diálogo estranho com você – of course – aliás, prefiro sempre os diálogos com você. Ao mesmo tempo que te dou bronca, a bronca vem para mim. Você tem esse jeito de meninaquequerabraçoecomissodáabraçodevolta… tão bom!
O dia, às vezes, começa estranho… Havia frases soltas de autores estranhos que eu nunca havia lido…e a moça do tempo mais uma vez errou a previsão.
Amanheceu amarelas as manhãs de Outubro. Choveu poucas vezes durante a manhã, como se o tempo soubesse que minha sombrinha comprada nos chineses não protege ninguém da chuva. Pelo contrário, faz com que molhamos mais.
O sol inspira a cor sobre os telhados das casas … Sentei no canto escuro do muro.
Ali, escrevi mil vezes poemas pensados em noite de estrelas – quando o pássaro em seu voo noturno era estátua da sombra –  e a moça do tempo vai errar outra vez a previsão de amanhã. É outra estação dentro de mim.
Escrevi em casulos o dialeto das asas. Era voo para tudo quanto é canto.
Existiam várias estações dentro de uma. Deve ser o efeito borboleta a desenhar erupções ao toque. Era eu caindo no abismo de mim. Como pode as coisas mudar de um dia para o outro? Como pode o que ontem ter tanta importância e hoje já nem fazer sentido? Apesar dos pontos de interrogações, não são perguntas. É quase uma afirmação essa mudança dos dias, das coisas.
Hoje não vi o pássaro colorido. Nem aquele que bem me vê todo dia. Hoje, vi a árvore do vizinho, que já está secando cheia de aves. Todas em seu canto agudo a desenhar minha rotina.
Há esse contrair da pele dentro do azul. Azul também é o céu e sua gentileza de cores dentro da hora… A luz a azular os galhos entre as falas das aves. É um marulhar de vento azul no quintal onde os peixes voam feito pássaros de qualquer cor – é que vejo peixe em tudo quanto é canto –  a solidão tem esse retrato pintado de azul desbotado na parede com estuque descascado. Fiz isso ainda menina – me lembro – chovia e eu não podia correr lá fora com as borboletas. Minha mãe não permitia dançar na chuva – nem nada era possível para uma menina que teve dificuldades no parto e conversava com os bichos – aliás, não permitia quase nada que não estivesse sob o olhar atento do meu irmão. Como raramente ele abria a boca – a não ser para contestar minhas loucuras << de tocar os bichos >> eu falava com os grilos, os animais e dizia que eu era só. Que sofria de solidão. Ao que minha mãe respondia que a solidão era uma parede sem quadros, retratos, cortinas ou qualquer coisa que a enfeitasse e que eu era uma parede cheinha de fotos de irmãos e enumerava um a um, lado a lado antes da janela com cortina feita de retalhos coloridos que ela fazia. A janela era eu – ela dizia – trazia sol na parede toda. E lá ia eu em dia de chuva a descascar o estuque e depois pintar de companhia a minha parede vazia.
Você é essa cor misturada de vida junto com a minha e que eu queria moldar e te direcionar para o caminho livre da liberdade. Você é esse estuque que sustenta minha cor azul. Eu digo azul, mas pode ser qualquer cor. Pode ser o verde que você avista quando o trem apita aí da sua janela. Pode ser o vermelho da sua blusa quentinha de ginástica e pode ser a cor da sua meia listrada e suas cores em movimentos. Não. Péra. A meia tinha Barney e seu destino infantil de desenho animado. Pode ser qualquer cor desse cerrado denso que corta as montanhas do seu lugar.
Montanha acima, serra abaixo…estradinha de Minas em direção ao Paraíso: Tu.

Beijo meu

Mariana Gouveia

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navega-se sem mar, vela ou navio

andarilho

“Navegar é preciso; viver não é preciso”

Fernando Pessoa.

Querida Li,

Daqui, de tão longe e diante da janela que dá para o pé de manga carregado eu aspiro seus instantes, que tão gentilmente me cede.
Dou lugar ao carinho pelo simples fato de lembrar seu nome. Devo-te essa carta e esse abraço em forma de palavras. Devo-te diante de tantos momentos lindos que me desenhou dentro dos anos em que nos acolhemos uma na outra, mesmo tão distantes.
Li, navego pelo seu lugar olhando as imagens que me oferece e me encanto pelo riso de esperança do teu menino. Cada vez que o vejo o abençoo em nome da vida. A musicalidade do nome me chega à sintonia e aspiro suas montanhas em unidade com o Universo. Pedalo contigo rumo ao interior do seu lugar e sou levada pela sua mão serra acima e me divirto quando seu menino pássaro dá o amparo à vida.
Caibo inteira dentro desse seu céu e sou levada pela delicadeza do vento. Nesse momento sou tragada como se navegasse sem vela, mar ou navio. Crio asas e te chamo na intensidade da amizade.
Falamos tão pouco, mas mesmo em tão poucas vezes, nem precisamos dizer tanto. Uma sabe da outra e isso basta.
Não conheço o mar de perto, Li… Mas ele me encanta de tal maneira que todas as noites eu durmo além-mar. Navego sem cruzá-lo e ao mesmo tempo direciono meu leme onde o encanto me pega e nesse momento, Li eu navego sem mar, sem vela e navio… Eu navego de asas.

Beijos,

Mariana

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