304. das infinitudes

Era oblíqua a lua, e seu estado vagaroso e seu olhar, transversal em um céu nublado, sem nuvens e atravessa a janela lateral da rua de cima.

O búzio que me traz o sol na escuridão da noite. O vulto que vagueia nas sombras desenhadas pelas mãos.
A previsão dentro das rotinas do vento e o intempestivo jeito de amar dos bichos.
A gente fala das palavras de solidão e a canção busca na memória o revival dos contos lidos na infância.
As coisas miúdas estampadas na parede… o segredo, um oco feito no estuque para guardar bilhetes. A ladainha da velha da esquina a repetir o mantra.
Quase era tudo um nada no telhado e a ave gigante lembrava uma história que alguém contou e eu não vivi.
A saudade ladeira abaixo empunhando os gritos.Os caminhos que levam para outros cômodos.
A porta dava para além dos quintais e muros que logo ali, dava de encontro ao riacho.
A vida é esse ciclo de memórias e vivências. O amor, é esse estágio branco escondido nas asas atrás da porta e que bebe a água do rio, que sempre deságua no mar.

Mariana Gouveia
304. das infinitudes
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303. das infinitudes

 

Como se eu fosse uma ave presa em tuas mãos

e abre os pulsos para me livrar da gaiola

que é tua pele, teu cheiro e eu em tua carne sonhasse

como se achasse a ilha –  meu ninho –  seu corpo

como se o voo do pássaro pousasse

sobre os sonhos de tua cabeça

e suas asas delirantes

fossem o mapa do caminho que tenho de trilhar

como se eu  fosse o jardim – na tua mão – eu, semente florindo desejos

 

como se hoje apenas eu fosse a dançarina que povoa vontades  e voasse plena de sentidos

no céu

da tua boca.

 

Mariana Gouveia
303. das infinitudes

302. das infinitudes

 

O dia parece aquelas fotos antigas penduradas na parede. A família toda reunida em volta da mesa, e o retrato ali, lembrando os ausentes. Contando histórias de antes. O vento a dançar com as cortinas e os risos fáceis das crianças na rua.

Ainda era ontem e a felicidade estampada nos jornais. As palavras cruzadas rabiscadas nas folhas e o disco de vinil cantando a canção. Era assim antigamente…

– Não era aquela canção que a mãe gostava?

O sapato de verniz voltou à moda de novo e outra vez o rosa millenium é a cor da estação.
Releu para todos o horóscopo do jornal.

A moça do tempo refez as previsões da semana. O cheiro de pão da padaria faz lembrar quantos blocos a calçada tem até lá. A árvore favorita da rua de cima floresceu de novo. Alguém disse que havia magia naquela árvore desde tempos atrás. O café feito da maneira antiga e de novo as lembranças de outro tempo no álbum de retratos. O riso, ali, na face da criança que nem parecia ela…

A garrafa de leite que era da mãe, a panela de barro, a música e a saudade a ecoar palavras de sorte. Colocou o vestido que usava só para os dias de festa. A vida, às vezes, parece detalhe de livro.

 

Mariana Gouveia
302. das infinitudes

— Que mundos te guardem e te apartem de mim…

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A casa, à noite, era iluminada pelas lamparinas e o céu, de tão estrelado para iluminar os campos e os vaga-lumes inspiravam poesia. Não dava para ler – ou até dava, se conseguisse driblar o olho atento da mãe. O lampião veio anos mais tarde.
Contava as horas para amanhecer e devorar os livros ou escrever.

Criei um desvio para atravessar a ponte e ir além da colina. A escola foi feita no alto do morro. Ali, as crianças das fazendas vizinhas eram beneficiadas pelo invento que meu pai criara – construíra a casinha no alto da colina para que nada atrapalhasse os estudos – e a professora viera da cidade. O olho atento para os filhos do dono da escola. O cheiro dos cadernos criados por minha mãe e o descampado que mostrava lá embaixo o capim dourado a colorir a paisagem.

Todo objeto queria virar gente na minha mão. O livro quase virou na palavra escrita. O caderno todo em branco, esperando que as linhas fossem preenchidas com o verbo na palavra. A lembrança da mãe costurando o papel do saco do pão e ganhando estrutura de caderno.

Um dia, um lápis se perdeu em minha mão. Ganhou encanto no verso e na rima. Era laranja, o lápis… e a cor se encontrou no verbo e na gramática. Um lápis não pode ficar em silêncio. Ele quer gritar e usa a minha vontade de escrever e fazer um livro.

Fiquei adulta e aquela escola, no pé da colina foi me levando vida afora dentro de tantos mundos. Caibo em todos, assim como cabia na cadeira perto da janela e me perdia horas a fio a imaginar o capim dourado se transformando em arte e poesia.

Algumas cenas confundiram minha vida, mas ainda assim, me levaram para um passado onde reviro as coisas do baú.

Virei confusão nos personagens que encontro todos os dias – fora e dentro de mim – e confundi semente com flor. Amei mais nuvens que céu, mais voo do que pouso e mais letras do que palavras.

Era ali – ou ainda é – que a cozinha vira lugar de aconchego. Os objetos mudam de lugar. Ganham morada nova na cômoda do canto. A fotografia da avó com a colher de pau na mão, amarelada na parede que dá para o corredor. A janela no ponto certo onde a vista dá para a horta preparada para o alimento. Há mais janelas que cortinas. Mais riso que choro.
O rádio na cantoneira estilo curioso que a mãe mesmo pintara com as tintas feitas de folhas de árvores. Os bibelôs esquecidos no canto. Um sino de porcelana perto do elefante trazido da China – não se sabe por quem – e um quadro de flores bordado pela mãe. Ela tinha essas coisas de bruxa e índia. De sagrada e intocável. Sabia a cura através dos remédios feitos com ervas e benzia as crianças com dedos que imitavam os cataventos. Curava os males de quem sofria. De longe parecia uma mãe normal… de perto era uma mulher que ensinava a vida através das palavras. E eu sou essa página escrita no dia a dia.

Mariana Gouveia
Projeto Crônicas de Outubro
Editora Scenarium Plural

301. das infinitudes

Às vezes, acordava – ou amanhecia – com a impossibilidade do agora.
O verbo se perdia no tempo amar.  A previsão do tempo mudou -se na imprecisão.
Pensando no caminho encontrei a rua do meio. O vento, ali, batia na janela desenhada na parede amarela.

Uma criança nasce no improviso da dor.
A vontade de flor alimenta o jardim. Já brotam as folhinhas do algodão.
A febre atravessa a garganta rouca no grito. A ave de todo dia invade a sala e voa.
Mora no fio das roupas no varal e chove.
A mansidão das horas é esse inconstante ritmo do relógio da sala enquanto lá, fora a tempestade habita no quintal que anoitece – ou amanhece…
não sei.
Mariana Gouveia
301. das infinitudes

300. das infinitudes

O sol dorme no horizonte dos olhos dela
e há prenúncio de tempestade vinda do leste.
O verão brinca no riso que ela adora desfolhar

e as estações balançam nos cabelos que ela lavou.

Há qualquer coisa de trilha musical que me envolve quando pensa nela.

As canções que ela cantou – ou que eu pensei em ouvi-la cantar –
nunca sei quando meus pensamentos são maiores que meus desejos
nem quando é noite no centro oeste da minha imaginação
porque sempre há um sol nascendo no horizonte dos olhos dela
onde as meninas dos olhos dela brinca de viver só para mim.

Mariana Gouveia
300. das infinitudes

299. das infinitudes

 

“Em mim haverá paixão até que a última flor de ipê caia e enfeite o chão…”

Fabrício Hundou 

Luci, enquanto procuro que artesanato começar eu me vejo pensando em você e na delicadeza de seus atos.
Falei do Zep para um moço da aldeia – mostrei as fotos tuas na delicadezas das coisas – e a vida, de fato, se mostrou encantada para quem cuida da natureza.
A bicicleta laranja é a docilidade da minha infância e de repente, lembro – me do riso da tua Anna. Você tem a flor do campo em tua casa.
Pintei três paredes enquanto desenhava sua histórias nos rabiscos da mente.

Abri o armário para escolher as linhas e as agulhas bordaram contos de fadas para quem vai nascer.
Luci, às vezes, a vida precisa disso – urgentemente – e lá fora, o silêncio é apenas o canto do grilo. Meu quintal está vazio de árvores e uma criança que sempre tem um dragão nas mãos plantou de novo a semente do amor.
Brotou rapidinho e o riso ecoou rua afora.
Colhi mil flores na rua de cima… uma hora te conto sobre a rua de cima e seus pés de ipês.
Tem dia que o chão fica amareladinho feito ouro. Dá vontade de deitar como se fosse cama.
O lindo é necessário em alguns dias e quando preciso reavivar a ternura, corro ao Zep…
Poderia te contar da laranjeira do vizinho, que na última chuva teve alguns galhos quebrados e a flor serviu de morada para as joaninhas.
A felicidade deve ser isso que a gente pode tocar… o vento na janela, a cortina a balançar mostrando uma fatia de lua que reflete na bacia de água no quintal e uma rua inteirinha de sol de flores a esparramar poesia no chão.

Beijo

Mariana Gouveia
299. das infinitudes