298. das infnitudes

 


No dia de ontem não houve amanhã. A vida é esse vai e vem desencontrado nas notícias.
Choveu numa tarde que pareceu noite.
Era o vácuo dentro da verdade das coisas.

Morri nas densidades dos azuis – de um céu que escurece e enfurece diante dos cometas – a chuva e seus avanços no quintal.

No equinócio de primavera, fora das folhinhas e eu sei o que sinto.

Lá fora, o som dos pássaros e o vento forte.
A sintonia é a canção para as gotas da flor.

 

Mariana Gouveia
298. das infnitudes

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297. das infinitudes

 

Abro a porta para um mundo imaginário.
A vida, é esse portal que se abre para a floresta.

O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas.
A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos.

Era silêncio na sintonia da noite.

Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul.
As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudando os verbos na estação – chovera ali, onde o outono bate ao pôr do sol – a palavra definida dentro da sede – o frio invadia a brisa mansa da primavera –  e o sentimento ardendo na febre do corpo – era verão em algum canto do mundo – e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas – e o inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço – e o dialeto do rito é o silêncio.

 

Mariana Gouveia
297. das infinitudes

296. das infinitudes

[Há uma mulher que caminha sobre a areia da praia e voa com as aves marinhas entre risos]

Que desenha em minha pele histórias nunca vividas e que sonha atravessar o oceano a nado.

É feita de vento e alada. Ocupa os espaços todos. Quebra as regras.

É essa roupa feita de matizes e quase um fado dentro da melodia da canção.

No avesso, é essa explosão de sentimentos. O riso entalhado na arte que a seduz.

Dentro de mim, acontece. Detalhada no poema que fabrico  – as mãos a tocar as asas aladas do amor – feito metamorfose do efeito leveza que as borboletas fazem.

 

[Há uma mulher que sonha horizontes, que sonha cidades]

Quisesse saber dela bastava abrir os braços e tocar o vento.

A pele, puro arrepio e em meu silêncio é pura fala.

Quisesse conhecer a emoção, bastava pronunciar o nome e as matas e jardins aconteceriam no instante de agora.

Quisesse saber de pouso e estenderia minhas mãos nas mãos das tuas asas e assim, nasceria de novo e de novo dentro do mais belo amor.

 

Mariana Gouveia
296. das infinitudes

295. das infinitudes

 

Nascia uma árvore no quintal.
Abracei o vento como quem dança valsa na vida. Os pés alados atravessam o oceano a nado.
O corpo, essa sede de toque quase suplica para o desejo. Apenas o resquício de uma vontade que já foi.
Pedindo voz para dentro do beijo.
Alguém me disse que o amor nascia hoje, pelo riso dado e as declarações feitas.
Lembrei-me da diferença da estação. A meteorologia e sua fúria em errar as previsões. As palavras do dia – lá, naquele passado estranho – revividas em contagem regressiva para desejar o amor.
e tua voz há de ecoar eu te amo como quem sonha e minha delicadeza comerá ternura dentro dessas palavras;
Nascia a sorte nas cartas lidas, nos símbolos onde o coração foi rabiscado nas paredes tortas, nos trevos de três folhas mesmo com uma joaninha a dançar na folha.
Quando os poros irreconciliáveis com a pele que implora toque no braço que se abraça e a distância dita – quase nenhuma – entre o som do riso e a voz.

Dentro da curva da noite, a chuva – na gota – coincidência do nada entre o nascer do amor aconteceu o mar.
 
Mariana Gouveia
295. das infinitudes

294. das infinitudes

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Antes do temporal, na rua de cima – era ainda a manhã e o sol de todo dia –  os ipês festejaram o vento e espalharam suas rosas e as paletas de cores a desenhar o céu.

As crianças brincavam na rua com seus gritos e falas apressadas. Um gato subiu no telhado e a ave de todo dia dormiu no varal que dançava com as roupas e seus prendedores…

Li Clarice em um instante do dia, uma frase qualquer, dessas que todo mundo repete por ser o dia do poeta – como se poeta precisasse de dia para ser –  e tomei chá gelado.

Da varanda eu via as nuvens e sua pressa em correr o céu e as flores que ainda eram da árvore desprendeu – se todas e fizeram um tapete no chão.

E de repente, como se os ninhos fossem sobreviver à tempestade das coisas, veio a fúria do dia dentro do vento…

Alguém contou o que se passou sobre as águas… havia o menino tentando afogar os brinquedos na poça que se formou no quintal.

As mulheres recolhendo a roupa do varal e os muros sendo derrubados onde a parede morreu.
Como se a terra fosse feita de papel e as fronteiras com o medo fossem feitas de nada nenhum esculpimos as palavras em orações e alguém desejou a sorte do dia.

E onde o vento bateu fiquei sem saber o nome das árvores…
Foi quando o abraço conheceu o sentido do afeto.

 

Mariana Gouveia
294. das infinitudes

 

293. das infinitudes

A vida nasce nos dias delicados onde a chuva fina aplaca a sede do jardim.
Os girassóis florescem no mesmo dia que o menino feito de amor nasceu.
Era ontem ainda quando o riso se fez presença no coração da mãe e a delicadeza conheceu o berço de acolhida.
Ainda era ontem ali, a felicidade preenchendo as ruas feitas de esperas.
A vida, bem ali, na graça dos dias. O sonho bem realizado na palma da mão, enquanto no jardim, os girassóis forjam que a vida deles clareiam as manhãs iluminadas de nascimentos e as flores trouxeram o som das flores que ela sempre me entrega todas as manhãs.

Bem aventurado o menino que foi escolha e espera.
A vida é esse florescer de sol quando o amor acontece.

bem aventurado o amor de Benjamin.

Mariana Gouveia
293. das infinitudes

292. das infinitudes

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A mão dela me trazia barulho do mar
O braço ondula silêncios da tarde
Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela…

Não sabia extrapolar as coisas
– dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
A outra – a de verdade – quebrava regras.

Falava alto nas bibliotecas… Declarava amor nas livrarias.
Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE –  e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia.

Há sonatas que a areia descreve
E escreve
E o riso dela tem qualquer coisa de ave

Que voa

Leva na mão o carinho portátil, desse pronto pro uso.
Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso.
Usa quando tomo um chá de sumiço

Mal sabe ela que toda noite
Eu olho pro céu e a encontro
Em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.

 

Mariana Gouveia
292. Das infinitudes