6 on 6 – J.u.n.h.o

 

Ah, junho! Desde pequena aprendi a viver seus sabores,

Suas cores e seus dias…
Logo no primeiro dia do mês, a vida do pai sendo reverenciada e o amor ali, renascendo nos dias que se seguem. Tudo é jeito de mãe a fazer gostosuras com o milho.

O frio, no aquecer improvisado  nos casacos desbotados e as festas de seus santos revivendo tradições… é como se repetisse em mim, nas memórias as bandeirinhas e os balões a dançarem com a lua… As festas onde os primos se encontravam para as lembranças todas.

As lanternas chinesas trazendo cheiros nos quintais, lembrando o santo casamenteiro, as simpatias e a fogueira acalentando nossos corações.

 

É logo ali, seus dias passam rapidor e o sol a aquecer as manhãs frias enquanto no cerrado, os ipês recriam mais um ciclo da natureza.

E na devoção do pai, a reza,
e a ave em comunhão com o tempo.
Junho é esse desaviso na folhinha quando o calendário marca a lógica de amar.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse Projeto:

Lunna GuedesMaria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

Anúncios

Pai

 

Pai, os anos são desaforados demais. Hoje, depois de falar com o senhor e te abraçar com o coração, fiquei a pensar em quanta coisa vivemos e quanto tempo perdemos. Venta aqui e te ver assim de longe consola, mas ao mesmo tempo é estranho. O senhor foi sempre essa presença forte na vida, nas palavras e nos gestos.

Sempre foi senhor do seu destino e decidido nas questões de viver.

Na sua fé, a palavra vem acompanhada de um olhar para o céu e no tempo dos chapéus ele era retirado da cabeça e sua reverência era instigadora.

Hoje o senhor completa mais um ano e eu cumpro o ritual de escrever mais uma vez e talvez meu maior desafio seja te falar coisas sem repetir o de sempre.

Em alguns momentos sou forte como o senhor, mas em outros, a fé é cambaleante, pai.

Como o senhor atravessou todo esse tempo sem perdê-la? Como não sucumbiu com as perdas? Como ainda mantém vivo esse olhar inquietante diante das dificuldades?

Não sei se sei todas as respostas, mas é dentro de sua força que busco rumos para orientar os que precisam de mim.
Na emoção da tua voz eu me vejo ainda tateando diante da vida, pai e é essa vida que te desejo força sempre… Feliz Aniversário!
Te amo sempre

Mariana Gouveia

225. das impressões do dia seguinte

Ao meu pai,

Pai, colho impressões do dia seguinte e mais uma vez escrevo essa carta para ganhar seu colo dentro das palavras.
O instante é tão ligeiro e volto lá na minha infância.

Não sei se  vida se restringe ao que se pode tocar – e nessa hora busco a palavra abraço.- o longe não afeta o que é tátil para respirar. Fecho os olhos e posso te tocar, embora a gente seja mais de ler, ouvir no rádio a canção que mais nos toca.

Hoje você é muito mais silêncio que se acomoda em um vão onde ninguém alcança. Talvez você viaje pelos campos a sentir o orvalho. Ou junto com sua fé, o verbo seja confiar.

Lembro-me dos meus medos alados e ganhei a delicadeza de asas quando você me jogava para cima e com sua coragem, fui vencendo o infinito e ganhei sede de viver…  a vida é simples assim e hoje, pai, no seu dia, eu relembro os anos todos de você sendo pai.
Hoje, é quase um menino de riso brando. É mais afeto. De natureza indomável. De mata. E o  que é da mata é ser livre. Nem mesmo uma cadeira de rodas consegue prender, porque a gente voa…
Te amo!

Feliz dia dos Pais!

Mariana Gouveia
225. das impressões do dia seguinte

a flor escura da realidade

dscf7074
Pai,
A noite arde como se fosse dia e a flor da realidade está exposta nos noticiários e nas redes sociais – sorte sua que nem sabe o que é isso e sorte minha que posso usar isso para falar com você dessa maneira adversa – de uma maneira estranha que até eu mesma estranho…se bem que estranhar, não é muito meu jeito.
Eu decoro a noite para te contar estrelas. Elas aqui tem uma dimensão tão pequena que parecem pontinhos brilhando no céu. O calor, pai, é muito mais do que o aquecer dos seus braços…digo isso, porque tudo que me lembro de quente – e aconchegante – era seus braços. O calor aqui, parece mesmo a fogueira de Junho nas festas de Santos.
Às vezes, eu queria rodar o peão do tempo e voltar atrás… nem sei se mudaria tudo. Acho que não…se mudasse, como saberia que nesse mês eu posso plantar coentro e os temperos todos, a couve e a abóbora e que os feijões dão as melhores vagens plantados na lua cheia?
O tempo é esse líquido que escorre das mãos e que parece cíclico.

Pai, vejo as fotos antigas desbotadas e penso o quanto seria bom se eu já entendesse de fotografia nessa época… Poderíamos ter em mãos registros incríveis de momentos que só o coração registrou…e quer saber? É a melhor imagem para se guardar.
As manchetes falam da política – arghh! – de futebol, de novela e isso me leva ao rádio que era sua paixão – e que depois, se tornou a minha – da novela da época em que minha mãe e o senhor largavam tudo para saber do destino do Alberto Limonta e o seu Direito de nascer.
Eu ficava encantada por aquele aparelho, em destaque, na parte especial da sala e olha que hoje eu reclamo de sintonizar…
A realidade bate a porta…colhe instantes e cobra da gente dívida que nem sabemos ter.
Mas de tudo isso que guardo, levo, carrego e amo é a fé que você desenhou em meus dias.
Essa, me faz forte a cada dia e também faz eu reverenciar o vento, o rio, a chuva e até mesmo o calor. Tudo provém do mesmo Universo e nele somos apenas um grãozinho de areia.

Um dia, você me disse sobre casa sem histórias…aquelas que acabam desabando com o tempo e hoje, pai me vejo tão cheia de suas histórias, que mesmo se desabar terei os alicerces plenos de vida ali, entre minha história e a sua. Entre a sua e a de meus irmãos…entre as notícias além de tudo que vivemos e a esperança.
É essa a palavra que me move e que mesmo tão longe me envolve em seu abraço.

Benção, pai.

beijo,
Mariana

Esse post é parte integrante do projeto ‘missivas de primavera’, que conta também com os autores:

Adriana Aneli: http://www.adrianaanelicosta.com/
Lunna Guedes: http://catarinavoltouaescrever.wordpress.com/
Chris Herrmann: http://www.christinaherrmann.com/
Tatiana Kielbermann: https://meusabismosfaceis.wordpress.com/
Manogon Manoel Gonçalves: http://coisasdemanogon.blogspot.com/
Emerson Braga: http://embusteiroviajante.jimdo.com/
Ingrid Morandian: http://www.facebook.com/ingrid.morandian/

Carta ao meu pai aos cuidados das lembranças

juara

Choveu essa noite, pai. E enquanto assistia a chuva a cair, o cheiro de terra molhada me carregou para a infância.

Virou quase abril esse dia que antecede junho.

É seu aniversário amanhã, pai, e a chuva benze o dia para que seja abençoado também. Sabe aquele cheiro que exalava quando as primeiras gotas caiam e a roça de toco ganhava o respirar para acolher sementes? Senti o mesmo cheiro aqui. Deve ser o céu a te brindar mais um ano. Perdi a conta dos dias que não chovia, talvez por isso, o barulho das gotas no telhado tenham me levado para dentro das lembranças. Quase me envolvi no paletó de flanela com florzinhas miúdas. A sensação é plena, pai, e, embora já tenha passado tanto tempo, eu ainda sinto tão forte os instantes vividos, que é como se fosse um filme a desenhar as lembranças diante dos meus olhos.

O fogão a lenha a crepitar ardência e o cheiro do café coado na hora acordada nossa fome e todos os sentidos.

Hoje os cabelos brancos emolduram seu rosto e distância não me permite o abraço de perto.

Ligo o rádio e ele toca suas músicas, enquanto as gotas suavizam e um céu alaranjado anuncia mais uma vez essa coisa insistente de quebrar as previsões.

A canção me traz o encanto da terra e, nessa hora meu coração te abraça. Posso dizer que o tempo não parou, pai, e o seu radinho de pilha intocável, a nos contar histórias e nos ligar ao mundo.

Lá fora, o dia pinta diante de mim a cena que revivo e quase chego a sentir o cheiro de relva molhada, enquanto os animais se preparam para o dia que vem chegando.

Engraçado que a gente não manda nas lembranças e a vida acontece dentro delas.
Sempre quando chove me lembro do cheiro da horta, onde colhíamos os legumes fresquinhos.

Essa sensação é tão estranha que é como se eu estivesse com um livro aberto e as imagens aparecessem em minha frente.

Meu encanto pelos cavalos, as borboletas e aves é como se fosse um presente seu, em seu amor pela natureza e sua força diante do trabalho.

Como nesse dia deixar de te escrever e dizer do meu amor, embora saiba disso sempre. Estamos marcados pela sua força e vontade de viver. A vida te deu momentos difíceis, mas a maneira de ainda cultivar a fé e levantar os olhos ao céu em agradecimento, é o mesmo sempre; e é com esse gesto que dedico minha oração a Deus.

Feliz Aniversário,

Daqui, de onde as lembranças me abraçam, te beijo

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
pág. 171
Editora Scenarium Plural

Carta ao meu pai aos cuidados de Agosto

IMG_20150630_130745366

Sabe, pai, amanhã é seu dia. Embora eu não ligue muito para esse negócio de dia, escrever-te virou rotina no segundo domingo de agosto. Faz com que esse laço se reforce ainda mais.
Enquanto te escrevo, eu ouço o rádio e isso me lembra que foi você quem me fez apaixonar pelo rádio.
Logo cedo, acordávamos ao som de Zé Bétio chamando todo mundo para levantar. E ali, diante daquele aparelho, cresci ouvindo músicas da melhor qualidade. Ouvindo histórias que emocionavam. Ouvindo e aprendendo a torcer pelo Brasil.
Naquele tempo, o rádio era o único contato com o mundo externo e veja você, que a gente sabia até o que acontecia no exterior.
Continuo ouvindo rádio e hoje, faço parte dele.
A gente fala de antigamente e tudo parece que foi ontem e o seu riso continua igual quando eu era menina.
Os seus cabelos branquearam com o tempo e você parece um personagem das histórias que eu lia nos livros.
Sabe, pai, tudo que eu sou tem sua mão – minha fé, minha conduta e meu jeito diante do mundo – tem parte daquilo que me ensinou.
Você sempre carrega no olho a esperança e é essa mesma esperança que criou semente em mim. E alguém pode até perguntar: esperança em que?
E eu digo que é a esperança na vida. De que tudo pode e deve ser para o bem e pelo bem.
Dias atrás, quando te vi, reparei que essa mesma esperança ainda mora li, no seu olho. Fiquei sentada algumas horas em silêncio, perto de você e ali, passou-se toda nossa vida, pai. Até sua mania de não querer tirar fotos continua igual.
E seu jeito de elevar o olho pro céu quando fala em Deus. A maneira de olhar para a gente como se ainda fôssemos crianças e como se estivesse sempre nos benzendo. Queria tocar em tanto assunto, mas o medo de você emocionar me podou. E foi em silêncio que a gente mais falou. Não precisava dizer nada.
Aprendi a benzer com você, pai e quando me perguntou sobre isso, vi que esperava que eu dissesse que continuava seu ofício. E continuo, pai…eu benzo as pessoas que cruzo na rua. As crianças que me tocam com o olhar, nos ônibus. Você riu diante da modernidade das bênçãos de hoje. Te explicar que hoje em dia, já não se cuida mais de arca caída como antigamente, nem de quebrante, é o mais difícil. Porque você no seu mundo limitado pela cadeira de rodas, acredita que tudo continua igual e que o rádio ainda tem os mesmos programas e que apesar de já ser mãe, ainda sou sua criança.
Sabe,pai, o dia dos pais pela simbologia do dia é para presentear e agora, descubro o quão abençoada sou. Você me deu uma riqueza de presente. Gosto do que vejo em mim. Gosto desse reflexo que me tornei de você. E gosto imensamente de ser sua filha.
Não vou poder te abraçar amanhã, fisicamente. Mas, te abraço todos os dias em pensamento e quando me preparo para a oração, minha referência é você e diante de minha fé eu renovo a tua.
Apesar de sua limitação, descobrimos que a gente pode voar e agora, pai, estou em pleno voo na exata direção do seu colo.
Benção, pai!

Beijo
Mariana Gouveia

Carta ao meu pai aos cuidados de Agosto

DSCF3158

Sabe, pai. Quando ouvi essa palavra pela primeira vez foi como se eu fosse marcada pela força que ela emana e descobrisse que ali, naquelas três letras estava todo amor definido.
A pronúncia, entre balbucios e riso e teu olho cheio de água plantou em mim uma árvore da qual me espelho até hoje.

Virei essa árvore e a minha raiz vem do alicerce forte que você me deu. E quando por vezes uma ventania espalhava minhas folhas vida afora, eu me agarrava na certa de que minhas raízes estavam seguras no amor, no exemplo e no amparo que você sempre me deu.

Muitas vezes, quando me rebelava em meu espírito de filha, você me mostrava caminhos, indicando-me onde era mais fácil trilhar. Por mais que eu me perdesse nas buscas, sua mão estendia-me a direção.

Me ensinou a ter consciência das perdas que por vezes tive.
Ensinou-me a valorizar cada ganho e principalmente a ter respeito por tudo. A vibrar com vitórias sem parecer prepotente. A vencer sem derrubar ninguém. Me ensinou a ser eu. Tão própria dentro do meu mundo e tão raiz tua.

Te desenho hoje na simplicidade dos dias. Você, pai, de sorriso largo, de persistência intensa. Com toda vontade de viver exemplifica o amor incondicional.

Feliz Dia dos Pais!

Mariana Gouveia