308. das fragilidades secretas

O cadeado abre a dor para o hereditário… o telhado abriga o pássaro gigante,
no céu branco, ausente de nuvens
e nem era noite de lua e no quadrante leste Saturno estava lá, em algum canto.

Nem todo dia, o astro rege as marés, e nem coordena os desavisados ventos vindos do sul.
Era para ser de chuva – o dia – mas, a previsão falhou no calendário.
O bilhete no papel de parede dá o ar de indignação. Cadê os dias prometidos na busca da fé?

Disfarçado de lugar comum – o pássaro – o vento alado ameaça voo e permanece… olho fixo no horizonte branco. A folha de papel pronta para a carta. O vento seco na estrada irregular…

as cadeiras na calçada da vizinha vazias de presença nos ecos do nada. Era só rotina essas miudezas todas, enquanto a ave fica a espera da hora certa da fuga, com medo do voo.

 

Mariana Gouveia
308. das fragilidades secretas

 

Anúncios

304. das infinitudes

Era oblíqua a lua, e seu estado vagaroso e seu olhar, transversal em um céu nublado, sem nuvens e atravessa a janela lateral da rua de cima.

O búzio que me traz o sol na escuridão da noite. O vulto que vagueia nas sombras desenhadas pelas mãos.
A previsão dentro das rotinas do vento e o intempestivo jeito de amar dos bichos.
A gente fala das palavras de solidão e a canção busca na memória o revival dos contos lidos na infância.
As coisas miúdas estampadas na parede… o segredo, um oco feito no estuque para guardar bilhetes. A ladainha da velha da esquina a repetir o mantra.
Quase era tudo um nada no telhado e a ave gigante lembrava uma história que alguém contou e eu não vivi.
A saudade ladeira abaixo empunhando os gritos.Os caminhos que levam para outros cômodos.
A porta dava para além dos quintais e muros que logo ali, dava de encontro ao riacho.
A vida é esse ciclo de memórias e vivências. O amor, é esse estágio branco escondido nas asas atrás da porta e que bebe a água do rio, que sempre deságua no mar.

Mariana Gouveia
304. das infinitudes

275. Das infinitudes

 

Morreu de improviso as árvores no quintal. O vento veio tão forte que retorceu os galhos, derrubou os ninhos e as sementes voaram se espalhando para além dos muros. Ainda de manhã, encontrei apenas as folhas já murchas no chão. Em cada canto do quintal um lamento de ave buscando amparo diante da tempestade.

Choveu e a água que caiu levou rua abaixo os ninhos desfeitos. O esboço de asas, o ritmo da brisa se misturaram ao eco que o vento fazia.  Algo irritara demais o poder que o vento vindo do sudoeste tem. Ficou violento e raivoso. Seu eco espalhou-se pelo bairro todo. Tornou-se penoso amanhecer e o pé de algodão que era sombra e abrigo, virou entulho no meio do quintal.
O meu bosque – árvore de nada nenhum – encerrado em ciclo imposto pela natureza.
Eu falo de fim enquanto a ave me lembra renascimento.
Mariana Gouveia
275. Das infinitudes

201. da autonomia dos voos

O pai contou histórias do tempo que a curva do rio teve de ser modificada para proteger as nascentes.
A sabedoria das coisas estava em recuar quando fosse preciso e a brisa matinal era a lição mais lógica para isso.
A ave espreitando a vida e o mundo sendo sufoco diante do grito.
O filho sendo a imensidão da angústia. A ave sendo ameaça para o novo. A revolução na voz de quem já não pode cantar.
Essa era a hora que eu queria ser menos, igual ao poema da minha favorita.
Tem como devolver perfume dentro das palavras? Ou voar junto com o pássaro que fica a cata de comida?
Quando o riacho se abre e a flor do pântano morre, o lago vira morada dos sonhos ocultos. Era como o arrozal não semear o cheiro da colheita pela floresta inteira.
Há dias tão vazios de vida que eu pergunto: onde você nasce quando morre?
Ou que céu você povoa quando ele fica nublado?
Que sol amanheceu em seu dia?
Mariana Gouveia
201. da autonomia dos voos

199. da autonomia dos voos

Vê a morte na esquina de casa. Tenta lembrar um poema para esquecer a cena.

Colhe a névoa do dia rumo ao sol. Não se foge do vento instalado em todos os lados.

Caminha apressada vendo a ave gigante procurar abrigo. Recebe notícias de outra parte do mundo… alguém andava docemente debaixo de um sol que não veio. O guarda – chuvas a contar histórias.
O futuro é incerto para os que tem que ir enfrentar os corredores onde nem venta.
No céu, apenas um resquício de azul.
Aos que esperam ser ave invento meu jeito de voar. Há céus imaginários inabitáveis e os pés rastejando fé quando se chega ao solo.
Por isso, prefiro a incerteza dos telhados de onde posso apenas imaginar as ampolas como cantos de passarinho.
As insignificâncias talvez tragam a parte mais bela da manhã… era a vida mudando de lado na esquina.
Mariana Gouveia
199. da autonomia dos voos

156. da geografia das coisas

156. da geografia das coisas.JPG

O homem da esquina contou sobre o pássaro solitário. Nunca havia motivo para voo, nem pouso. Que ele ficava ali, parado sem nenhum motivo aparente de alegria. E que a missão dele era encaminhar aves sem rumo. Que a maçaneta da porta da casa azul foi ele quem fez, depois de levar comida às aves. E que o pé de amoras foi plantado no quintal em um dia de chuva e que ele ficara ali, com o céu a derramar a água e o cheiro de terra molhada a invadir as janelas onde violetas brotavam… Que a água foi dando vida entre a raiz e a terra e que naquele dia desejou o pássaro para ser parte da árvore que nascia e que pássaro nasceu para pousar em galhos, onde frutos oferecessem o universo no sumo e não para pousar em fio, seco, sem vento, suporte ou sem algo para a fome.

Desenhou para mim as palavras dentro do mesmo tempo – a ave e a árvore –  Os dois. Entre o reencontro e a perfeição. Que era assim que tinha sonhado e que passaria a vida inteira a ser ponte para asa e pouso.

Havia quem dizia que era doido – o homem – e que o sonho era tão maluco quanto ele…

Eu, apenas imaginava que não importava o que falassem dele… que dentro dos olhos dele o céu criava jeito de espaço e morada para pássaros sem árvores. E que das mãos dele, já com instinto de cansaço ainda continuavam espalhando sementes em dias de chuvas.
Em cada dia ele repetia a história… Cada dia com uma ave diferente, cada dia com uma árvore nova e seu quintal se juntava ao meu e em oração pelas aves sem árvores ele criava dentro de sua história motivo para viver.

 

Mariana Gouveia
156. da geografia das coisas

155. da geografia das coisas

155. da geografia das coisas.JPG

Carta ao amor aos cuidados do sol

Já é noite por aqui, meu amor e esse dia ganhou ares de lembranças… Abro a caixa de memórias – as minhas, que se misturam nas tuas – e em cada página que abro você está. Ali, perto, sempre estendendo a mão. Segurando meus passos, e companhia silenciosa enquanto eu estou nos holofotes.

Sento-me na varanda do passado e estendo as mãos no vento à tua procura. Você sempre está lá…   Lá, onde o sol é mais dourado e os minutos mais lentos e onde me espera com o mesmo jeito de antes…
sempre nestes dias em que minha alma fica solta você é o reflexo do amparo e quando meu silêncio faz barulho suficiente dentro da sua calmaria transforma em cor a dor.

O nosso amor é esse sol que avermelha as tardes quentes em um dia perfeito e modifica os dias dentro da estação… Era essa a mesma estação na manhã que você chegou e meu olho pousou e buscou segurança no seu. Depois disso, sua presença sempre esteve ali como um porto seguro, me indicando caminhos, me dando direções.

Já virei a página do calendário, amor e transformo teu dia em todos os dias. Hoje, eu queria te dar o sol, mas é você que se transforma meu sol todos os dias. Encara minhas metamorfoses como se disso dependesse a vida… e sua vida dentro da minha faz a minha história mais bonita.

Feliz Aniversário!

Te amo!

Mariana Gouveia
155. da geografia das coisas