Tornei-me na palavra…

laura makabresku 2
*imagem: Laura Makabresku

que os teus lábios esqueceram,
amor.

*
Sono diventata la parola che le tue
labbra hanno  dimenticato, amore.

Estelle Vargas*imagem: Laura Makabresku

Dei-lhe o nome de flor

Dei-lhe o nome de flor

Chamava ela pelo nome e docemente ela respondia.
Trazia sorrisos, às vezes, quando me atendia.
Quase nunca o coração.
Não sabia extrapolar as coisas – dizia –
era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
Nos meus sonhos vinha feito névoa.
Me tocava com a maciez das nuvens e eu era etérea. A felicidade cabia tudo dentro de mim.
Dei-lhe o perfume do nome. O toque das pétalas. Dormia sobre ela. Por ela
e quando amanhecia eu dançava para ela, chovesse ou fizesse sol e regava as sementes que enviou para o jardim.
Um dia, chamei seu nome. E não veio riso, nem coração. Não veio nada.
O eco vagou pelos quartos todos. Visitou gavetas. Bateu janelas e ela não estava.
A montanha onde venta ecoou em resposta do meu grito.
Procurei-a nos lugares, e feito névoa se dissipou.
Eu, que buscava minha lucidez perdi de vez.
Endoideci. Ainda assim a chamava. Ora com a calma do amor,
ora com a tirania dos amantes. Com a raiva de quem endoideceu de amor.
Não veio mais. Nem em sonho.
Desde então, nas madrugadas vazias vago pelas ruas, nua. Coberta apenas com a flor que ela me plantou, com o riso de doida no olhar, cantando o nome dela como se fosse canção.

Quando o sol sai. Volto ao normal. Se bem, que sem ela nunca sei o que é normal.

Mariana Gouveia
*imagem: Anna O.

Perdeu a conta dos meses…

Perdeu a conta dos meses...

já havia se passado dois ou três
não se lembra
Só lembra da falta constante dela.

Pensou que ela voltaria na nova estação
Por isso, cuidou do jardim
revolveu as raízes, adubou a terra
– a flor que era delas nasceu –
da semente que ela enviara.
Rubra. Majestosa, reinava no jardim todo.

Deixou as marias-sem-vergonha com vergonha.

Se preparou para o dia com perfume
vestiu a roupa preferida
decorou o melhor poema

o dia corria solto e as horas marcavam que já era o fim do dia

Quis arrancar a flor.
Quis apagar o jardim

Chamou pelo nome como fazia todo dia

e só aí percebeu que a ausência era para sempre

Havia a possibilidade de enlouquecer de amor?
Se desnudou para a flor
Revelou seu amor para quem não existe

escreveu o nome dela em todas as coisas.
Repetia a canção que ela gostava

depois disso, arrancou a estação do calendário.

Mariana Gouveia.
*imagem: Anna O.

à terceira dimensão do olhar…

à terceira dimensão do olhar...

Meus olhos parecem saltar da face ao olharem o belo. Parece que algo me salta, também, da alma.
Alguma coisa de que amo, de quem amo me traz à tona, à terceira dimensão do olhar…

Sibila De Andrade

*imagem: Tumblr

As coisas acontecem nas manhãs de espera

As coisas acontecem nas manhãs de espera.

Um vento lá fora, ao redor da árvore, grita. As folhas ruidosamente, gritam. Dentro de mim, o silêncio grita. Esse mesmo seu silêncio insistente que me bate todo dia. Abro a porta e seu vulto que é só um vulto criado por mim, na imensidão de coisas que crio sobre você, brinca de fazer sombra nas memórias todas.
Chegou as lembranças, embrulhadas em papel crepom.
O carteiro ri da minha insensatez – ninguém confessa loucura crônica, moça – no envelope não tem uma só palavra sua. Apenas as sardinhas feitas de louça e a coruja que enfeito com seu nome. Levaram noventa e três dias entre suas mãos e as minhas.
Ficam ali, depois de dias guardadas longe dos olhos, em local estratégico para quando você voltar.
Porque eu sei que você vai voltar. Só assim tem sentido essas manhãs de esperas.
Alguns dias doem mais. É quando tenho recaídas – nome simbólico que minha analista usa em decorrência do desespero de saber de você – acontece em alguma mudança de lua? Ela pergunta.
Não sei – ela anota –
O que sei é que alguns dias doem mais. Principalmente, quando no jardim, principiam flores novas. Sementes que nem plantei e que pela singularidade do dia, eu queria te mostrar. O céu tem borrões de nuvens iguais as que gostava e o vento, avisa que a dor hoje veio para ficar.
A janela é meu refúgio em dias assim.
Na extremidade do silêncio respiro saudades. Revisito histórias que te contei. Vejo fotografias onde ri em um carro que parece de brinquedo. Ali, na fotografia, você ri pra mim. Quase pulo dentro da foto e até pularia se pudesse. A moça de azul não veio hoje, e nem veste mais azul. Reparei na última vez que a vi.
A moça do tempo fala em chuvas, repete os dias que não choveu.
Eu também nunca mais chovi. Nada mais é tão líquido em mim, a não ser a espera.

Mariana Gouveia
*Imagem: Deviantart

Sabe o que é saudade?

Sabe o que é saudade.

Recaí.
Entrei sala adentro repetindo várias vezes a frase que evitei tanto nos últimos dias. Recaí.
De novo não resisti ao vício que ela causa em mim.
Ela anota. Me olha como se precisasse de explicações e explicações eu não tenho.
Respiro para a sonolência das horas e repito. Recaí. Fui em busca de seiva da flor, como se disso dependesse para eu viver.
Primeiro busquei o objetivo lógico da saudade.
Sabe o que é saudade? – pergunto – e não obtenho resposta.
Despejo palavras como se fosse uma ampulheta do tempo e se eu não falar logo, morro.
A falta dela é cronológica em mim. É como se eu sempre vivesse com ela e para ela.
Sem ela as palavras são vazias e se perdem. Onde ir buscar alívio para esse vazio?
Falo sozinha sobre o tempo. Sobre as coisas do meu quintal. Sento perdida no meio do nada.
E por um momento, eu só queria ouvir o silêncio dela, do outro lado, de algum lugar qualquer, do oceano, do outro canto, da outra parede.
Eu só queria contar sobre esse ópio que me provoca quando olho no jardim e a papoula segue seu destino de planta e ganha vida no meu inverno. Logo terei a flor para registrar.
Comecei conversando com a semente. Ajeitei o vaso, fiz poemas com elas e as plantei.
Durou sete dias e germinaram em prosa, dentro de mim.
Todos os dias o aguar o fio verdinho que desponta e que com o passar dos dias, ganha jeito de flor. E com isso, conto os dias na sensação plena de que ela não está ali. A sensação da falta é alucinante. Tal qual o vício do meu amor. Porque é isso que sinto por ela. Essa abstinência que ela me causa e provoca alucinações no peito. Reviro todo o jardim. Reconto os dias e o calendário acusa o tempo sem ela.
Era isso que eu queria falar e por isso, recaí na loucura de não segurar o meu amor.
Saio sem rumo em direção ao abismo que essa saudade me causa.
Sabe o que é saudade?
Ela anota e diz:
Sei. Todos os dias eu morro disso.

Mariana Gouveia
Fotografia: Anna O. Photography

Perfil de flor

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*fotografia: Madalina Lordache-Levay
.

Contava a sonoridade dos dias.
brotava na pele toda
ela.

Jeito de flor
perfil de semente que brota.

e a vida seguia
jardineira de outro tempo.
Vaso plantado na pele.

Mariana Gouveia – da página Divã