362. dos verbos indefinidos

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Na folhinha é oitava de Natal. Há apenas 3 folhas do calendário para serem arrancadas. Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios.
A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis.
O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida ali no quintal.

A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.
Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao  jardim.
A flor já é oferenda do tempo.
Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia
362. dos verbos indefinidos
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324. das fragilidades secretas


O dia rompe as rotinas do nada. Era hora de espionar segredos. Na rota dos olhos, o espelho. Denuncia o cansaço de não dormir.
Ela anota. Eu anoto. Rasgo palavras que havia escrito. Uma espécie de silêncio no ar. Tão gritante e ao mesmo tempo, ensurdecedor.
Ando até a janela. O horizonte mostra a ilusão que vivi.
As frases ecoam na cabeça. Divagações do que poderia ter sido diferente e de como ainda brinca quando fecha etapas.
Escrevo o nome dela na janela do agora. Quase grito, quase chamo. Calo.
Ela anota. Eu apago. Rasuro. Sublinho. Acho bonito um nome sublinhado.
Desenho um coração junto. A neblina de fora oferece a opção da escrita.
Um homem pinta um portão de verde. Uma joaninha cai na lata de tinta. Eu a salvei antes que a tinta marcasse as asas.
Ela me olha. Espia os sentimentos que me atinge.
Falo de coisas surreais. Tatuei o nome dela no meu peito. Tenho um amigo imaginário que conversa comigo. Me diz que se chama Tempo e que a melhor escolha da vida, é viver. É um dragão que vive na minha mão. Sublinho a palavra tatuei. Ela ri.
Lembro do riso dela. Lembro de tanta coisa que fizemos juntas.
– Segura ele. Nunca vi um dragão.
– Ele é inofensivo. Só vive no meu imaginário.
Ela anota.
Fala da boneca de milho que era amiga dela quando era menina.
Penso na rapidez das horas. Ela olha o relógio na parede.
Confirma o diagnóstico: Falta de lucidez.
Coloca um comprimido vermelho na minha mão. Meu dragão come.

 

Mariana Gouveia – Divã
324. das fragilidades secretas

 

276. das infinitudes

misturou riso com lágrima
comprou coisas pela net.
rasgou a renda da saia
atendeu um moço que pedia água –  fazia tempo que ninguém pedia água pra ela –
era quase despejar o que chorou no copo.
Lembrou qualquer coisa da infância.
A lembrança fez um coisa de grito dela.
redemoinho e nuvens vasculham o céu.
espalhou as flores de outono. Era primavera em qualquer lugar. A paixão vem em rotinas desenfreadas.
A dor veio de novo e deu as boas vindas.
Afinal, eram companheiras inseparáveis.

Mariana Gouveia
276. Das infinitudes

249. Entre uma estação e a primavera

Preciso te contar como foi o processo dolorido da morte. A alma se desgrudando do corpo. A maresia podando a pele. A flor mudando de nome junto com a paixão.

O corte sangrando na garganta e as palavras repetindo poemas perdidos dentro dos séculos.
A estação vagando no calor do tempo e seu rosto  –  que nunca vi – embaçado pelo realce do vidro ou na tela de algum museu.
O colar de flores esboçando solidão na primavera. O vazio do copo, o eco, o grito.
A cura desavisada nos envelopes pardos, sem remetente, sem selo. E a janela fechada para o instante de agora.
Mariana Gouveia
249. Entre uma estação e a primavera

244. Entre uma estação e a primavera

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A estação errada surgiu dentro de outra estação. A paixão que nasceu em séculos atrás ecoa no quintal onde a vida escolhe a cor. Li sobre os búzios que cintilavam há um ano atrás. A canção sertaneja repete em algum lugar. Visito suas coisas no baú. As recordações bate recorde de fugas – o nome ecoa – em um azuis desbotados de presença.
Alguém anuncia um mês – o das flores – enquanto que para mim os dias emendam um no outro nessa busca. A espera é essa fragrância de flores secas ainda no pé.
A lua hoje não está para peixes e os búzios trazem o barulho do mar para a margem do rio que seca. Flores desenham caminhos que levam para o nada. Depois do jardim molhado, a noite rescende essência de amor.
O vento vindo do sul traz a maresia feita à mão… essa mesma mão que afaga o corpo como se fosse pétalas de flor e desenha no ar seu rosto, visto através do vidro fosco de algum museu.

A saudade é esse quadro fora da exposição.

Mariana Gouveia
244. São os dedos que tocam as flores

119. dos dias aleatórios de Abril

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Se sentiu a moça mais linda do planeta. Vestiu aquela alma que ganhou de presente.
Havia flores em tudo quanto é parte.
E aqueles caminhos do país que sempre quis visitar, estava lá.
Foi levada pela mão e no coração. Conheceu cada cantinho… e ela era parte da paisagem como se sempre tivesse morado ali.
A paixão visitava o jardim em delírio de flor.
Havia cartazes de felicidade em todo tempo e os corações sorriam para fora do corpo.
A canção que falava de lua refletia na palavra amor.

E ela não sabia mais onde derramar tanto encanto.

Mariana Gouveia
119. dos dias aleatórios de Abril

8. dos rituais da paixão

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Sabia sobre os rumores do amor.
Sentia na própria pele o arrepio.
Gostava de imaginar, pensar e viver dentro da rotina que o coração sabia ser amado.
Mas bastava caminhar pelo jardim e a paixão passava a lhe possuir como se fizesse parte dela.
Cantava as canções, falava o nome como se mantra fosse e aspirava a flor no sentido exato de viver.

Mariana Gouveia
8. dos Rituais dá paixão