Guarda roupas

nishe 2*imagem: Nishe

Quando você invade meu guarda-roupas,
me sinto linda.
Parece que tenho bom gosto.
Quando me veste.

 

Aden Leonardo

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Toque…

Tocou aquela flor como se fosse música
Dançou seguindo o som,
Como se fosse vento

Ouviu a melodia
Como se fosse mantra

Sentiu a pétala
Como se fosse pele

O arrepio
Como se fosse prece

E as notas, sinfonias e verdades todas,
… Uma coisa certa!

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro – Scenarium Plural Editora
*Imagem: Tumblr

e assim…

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Passei quase a noite inteira refazendo roteiros de tudo que tinha vivido. Ajeitei os quadros. Peguei a xícara de café. Aquela mesma que ela bebia o café da manhã. Contei as estrelas no céu e percebi que o número é o mesmo daquele dia. Era um revoar de borboletas no coração. Milhões de emoções a percorrer a veia e a alegria plena de saber dela ali.

Tão distante mas se eu levantasse a mão poderia tocá-la.

E essa sensação era quase como que pegar fogo. Ela gosta de me ver incendiada.

Ela tem um jeito apressado pra decidir as coisas e decidiu.E veio e ficou e foi…Com algumas perguntas que eu não poderia responder.Com algumas respostas que eu não saberia escutar.

A bagunça dentro de mim é culpa dela. Ocupa os espaços plenos do respirar. Resigno em comer saudades e em poucos minutos a risada dela me leva ao céu.O mesmo céu que conto agora as estrelas…

E em cada amanhecer pinta de um alaranjado brilhante tudo que toco para assim como o poema de Adélia Prado, constantemente amanhecer nela. Ela me impressiona nos gestos e no modo de gostar. Eu a desenho em tudo que toco. Nas janelas do ônibus, nas portas, nas mesas, na comida do prato, nas nuvens e no amor que sinto por ela.

E assim,cultivo a esperança.

 

Mariana Gouveia

Fazia frio nos olhos dela

e eu pensei em ajudar, mas havia frio também nos meus olhos
As velhas senhoras dos meus poemas sempre veem conversar,
Ainda há tanta beleza nos olhos delas,
E elas aprenderam a sorrir das tristezas,
As faces com velhas pinturas, algum ouro antigo nas molduras, 
Uma forma madura de iluminar os problemas,
Os caminhos nos mapas a dizerem do mundo
Coisas que não precisam voltar,
Mas me contento em me aquecer nos olhos delas

Charles Burck
* imagem: Marta Bevacqua

Perdi as mãos por tão pouco.

Por uma gota da água dos teus olhos,
pelo rumor na tua boca,
pelo ciciar dos ventos nas muralhas.
perdi as mãos por tão pouco…
Ficou-me a fome na boca,
fome de quem nada deseja
para além da antemanhã.
Acho um a um os meus dedos
delgados, ventos nos cabelos,
as palmas das mãos tão sulcadas,
tão leito onde as águas se demoram.
Com as minhas mãos perdidas
encontro branca
a nudez das tuas.
Com elas brinca
a fragrância da madrugada.

Lília Tavares
*Imagem: Andreas Kiss

Veste-me a seda

Marta Orlowska 8*imagem: Marta Orlowska

das tuas mãos
serenas
Veste-me a roupa quente da tua pele
e aperta-me com o cinto dos teus braços
no lugar onde o meio traz cansaços
Evita que na ausência de ti gele

Recorta-me
em pequenos pedaços
Ata-me em laços
e guarda-me no coração
antes de saíres para o mundo
e bater no fundo
da traição que te apetece

 

Edgardo Xavier
*imagem: Marta Orlowska