320. das fragilidades secretas

Quando choveu revirou cada canto da casa. As gotas na chuva lembrou as goteiras da infância.
O cansaço abre a porta, faz o chá… verte líquidos. Na mesa da sala, os discos…
Os vinis antigos esparramados entre os poemas antigos, as cartas de tarô.

Tudo antecede a sorte e a vontade da escolha.
O caminho é  logo ali, quando escurece, no canto do muro.
O café frio na xícara e as cartas que nunca enviei.
O aroma de bolo vem da casa vizinha – o vento atravessa as cortinas lilases – e traz de novo as lembranças da infância. O riso das histórias contadas, as frases dos livros lidos e o pai a dizer que tudo é poema em uma noite em que as gotas molham as flores e os azuis que enganam os olhos de amor.

Mariana Gouveia
320. das fragilidades secretas
Anúncios

314. das fragilidades secretas

Por iluminância, a dor

nos dias em que se arrastam as correntes das horas.
O eco das sementes germinando em pólen e a cor
nos muros em dias de sol e noites sem lua
as outras coisas inventadas em um jardim de delírios no quintal sem árvores.

Mariana Gouveia
314. das fragilidades secretas

A flor de carne

A flor de carne*imagem: Tumblr

Perguntas-me,
se é por ti
que me ergo das cinzas
e eu respondo:
não é sobre o teu corpo
que me desfaço
em suor,
pelos poros da tua pele
que escoo
e nas tuas veias
que me dissolvo?

Perguntas-me,
se é em ti que eu habito
e eu respondo:
não é pela tua boca
que respiro,
pelos teus olhos
que me vejo
e pelas tuas mãos
que me toco?

Perguntas-me,
o que tive de perder,
quando escolhi envelhecer
contigo.
E eu respondo:
o ciúme dos que procuram,
a união
dos espíritos e dos corpos.

Não és senão o ponto
e a ponte,
de partida e de chegada.

João Veríssimo

299. das infinitudes

 

“Em mim haverá paixão até que a última flor de ipê caia e enfeite o chão…”

Fabrício Hundou 

Luci, enquanto procuro que artesanato começar eu me vejo pensando em você e na delicadeza de seus atos.
Falei do Zep para um moço da aldeia – mostrei as fotos tuas na delicadezas das coisas – e a vida, de fato, se mostrou encantada para quem cuida da natureza.
A bicicleta laranja é a docilidade da minha infância e de repente, lembro – me do riso da tua Anna. Você tem a flor do campo em tua casa.
Pintei três paredes enquanto desenhava sua histórias nos rabiscos da mente.

Abri o armário para escolher as linhas e as agulhas bordaram contos de fadas para quem vai nascer.
Luci, às vezes, a vida precisa disso – urgentemente – e lá fora, o silêncio é apenas o canto do grilo. Meu quintal está vazio de árvores e uma criança que sempre tem um dragão nas mãos plantou de novo a semente do amor.
Brotou rapidinho e o riso ecoou rua afora.
Colhi mil flores na rua de cima… uma hora te conto sobre a rua de cima e seus pés de ipês.
Tem dia que o chão fica amareladinho feito ouro. Dá vontade de deitar como se fosse cama.
O lindo é necessário em alguns dias e quando preciso reavivar a ternura, corro ao Zep…
Poderia te contar da laranjeira do vizinho, que na última chuva teve alguns galhos quebrados e a flor serviu de morada para as joaninhas.
A felicidade deve ser isso que a gente pode tocar… o vento na janela, a cortina a balançar mostrando uma fatia de lua que reflete na bacia de água no quintal e uma rua inteirinha de sol de flores a esparramar poesia no chão.

Beijo

Mariana Gouveia
299. das infinitudes

293. das infinitudes

A vida nasce nos dias delicados onde a chuva fina aplaca a sede do jardim.
Os girassóis florescem no mesmo dia que o menino feito de amor nasceu.
Era ontem ainda quando o riso se fez presença no coração da mãe e a delicadeza conheceu o berço de acolhida.
Ainda era ontem ali, a felicidade preenchendo as ruas feitas de esperas.
A vida, bem ali, na graça dos dias. O sonho bem realizado na palma da mão, enquanto no jardim, os girassóis forjam que a vida deles clareiam as manhãs iluminadas de nascimentos e as flores trouxeram o som das flores que ela sempre me entrega todas as manhãs.

Bem aventurado o menino que foi escolha e espera.
A vida é esse florescer de sol quando o amor acontece.

bem aventurado o amor de Benjamin.

Mariana Gouveia
293. das infinitudes

274. Das infinitudes

A noite ainda não tinha a rompido a renda salmão das cortinas e você já era saudade.

Quando te falei das estações do tempo e da tranquilidade que sentia, não sabia que uma noite demoraria uma vida – em pouco tempo – e que os dias em que você surgia, a manhã possuía o sagrado do amor.

Na época levei-te pela mão à minha mão.

Minha voz deu voz à mesma pergunta, e cadê?

– chamam-lhe saudade… alguém disse. E houve dias em que endoideci no quintal. Busquei a palavra “volta” nas cartas, no horóscopo, no relicário – até rezei – e cantei as músicas que nem eram nossas, mas que falavam de amor.

Havia a mensagem que eu não apagara e li e reli a noite inteira na sobreposição do dissolvido desejo e nas palavras doces que inventamos.

E eu só pensava no teu encanto pela flor. Girava a vida em torno do sol.

Foi quando converti os silêncios e ouvi, gritantemente, a pulsação do sol…

em cada fresta da noite eu só queria a pulsação do sol.

 

Mariana Gouveia
274. Das infinitudes