what a sweet lullaby

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Querer,
quero uma canção
sussurrada ao búzio do meu ouvido
um murmúrio apenas
sem penas,
palavras nenhumas.

Querer,
quero o teu cheiro
depois do amor,
o teu hálito morno,
verão do meu passado
perdido no limite do mar
a embalar – me o corpo até o sono.

Raquel Serejo Martins.
In: Aves de Incêndio – pág. 14
*imagem: Natalia Deprina

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Subversiva

subversiva
*imagem: Tumblr

Vive de flor.
Come a espécie e grita a fome.
Adoece por falta de seiva – a dela –
Clorofila pura do sentido de ser natural.
Ama.
Por dentro, flor espalha em tudo que é canto.
Veia, sangue, ar. Respira jardim.
No sentido pleno da frase.
Dentro dela germina vontades… da essência dela em todo lugar.
Reage quando muda de espaço.
Trepa no limite do que pode sugar.
A história dos outros dentro da sua.
Subversiva, vive de flor.
Por que, só assim, pode viver.

Mariana Gouveia

Falta

falta
*imagem: Tumblr

quase morro (e não vejo tudo) tenho uma síncope uma febre delirante culpa dessa fome uma fome maior que a do jejum uma secura desértica que é sede de gente um oco buraco negro que ultrapassa a borda desse corpo o meu tão incompleto e aleijado sobra de vazios e partes faltantes (o corpo do outro) pra tapar o sol das minhas carências todas com uma peneira mais que furada.
Eu não me basto.

Ana Farrah Baunilha

365. dos verbos indefinidos

Retirou a tipoia do braço nessa ânsia imprecisa da escrita.
O vento lembrou Berlim em uma época que não estava lá.
Havia margaridas alimentando insetos com seus polens. O último dia antecede ao primeiro.
As janelas dão vistas para a lateral da canção.
Um ciclo se encerra e outro recomeça no agora.
Rabiscou à lápis as cidades que nunca visitou. Adoraria andar descalça pelas ruas de Paris. Lisboa conheceria sua voz dentro dos fados pelas vielas e ficaria em silêncio reverencioso nos arrozais da China.
Lembrou – se de que viu em algum lugar as vilas coloridas e suas casinhas brancas com gerânios florindo nas janelas – parecia uma pintura que a irmã sabia fazer desde pequena – ficou em dúvida se era de verdade isso tudo ou apenas poesia para acalmar a alma e afastar a solidão de um dia grande.
O pai incutiu- lhe a ideia de reverenciar os dias grandes. Seguia sempre os rituais que aprendeu desde criança e embora soubesse que isso era superstição seguia rigorosamente cada um deles.
Por isso, em um desafio no início de 2017  resolveu reverenciar os dias grandes. Todos os dias do ano e durante os 365 dias que se seguiram reverenciou-os com os rituais, as palavras das cartas, vibrou na estação das águas e se renovou nos dias aleatórios de abril.
Viveu cada um dos grandes com momentos únicos dentro dos dias diferentes dos outros dias.
Conheceu a autonomia dos voos e sentiu as impressões do dia seguinte, que era nada mais do que o agora.
Entre uma estação e a primavera coube nas infinitudes das coisas .
Tudo tão mágico e grande. Tudo tão pequeno e tão tanto.
Dentro dos verbos indefinidos ousou viver mesmo quando o diagnóstico dizia o contrário.
A vida é logo ali.
Cada dia é um dia grande para viver.
O desafio foi cumprido. Somente um dia, em todos esses 365 dias se resumiu em umas poucas palavras. Mas, você que me acompanha, nem deve ter percebido porque mesmo nesse dia ruim, eu o vivi como dia grande. Seja você o definidor do verbo que vai gerenciar seus dias em 2018.
Os próximos dias serão de dias grandes!  Façam valer a pena!

Feliz tudo novo!

beijo
Mariana Gouveia
365. dos verbos indefinidos

352. dos verbos indefinidos

Não fosse eu esse rio

que deságua em meu peito
eu morria todo dia
feito flor no deserto e com a solidão dos quintais.
não fosse eu esse céu
as asas
enquanto espero o 508
as ruas ganham o vento de companhia e na calçada
o cacto de tantos anos que floresce
não fosse eu a cor
o sabor da invenção das palavras na boca
tal qual um beijo que nunca veio.
Solidão.
Não fosse eu, seria o perfil de uma casa que não lembro o nome.

Mariana Gouveia
352. dos verbos indefinidos

337. dos verbos indefinidos

Tem a flor estampada no vestido,
dezembro e seus dias de chuva atrapalha a visão da super Lua.
A rua de cima tem uma canção no repeat.
Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos.
A rua de cima tem dias de vazios nas árvores – cabia a brancura em qualquer canto – e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu.
Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

 

Mariana Gouveia
337. dos verbos indefinidos

332. das fragilidades secretas

Bambina mia,

 

Descobri que as esperas são vermelhas – e a saudade, idem – e são intermináveis em dias sem chuva.
O sol de meio dia, assim a pino, e as delicadeza do tempo virando nuvens.

Pode ser que chova mais tarde – o dia é longo – e a previsão é uma encenação da moça do tempo – pode chover a qualquer momento – e as flores se preparam para serem refúgio das vidas minimas que andam por aqui.
O vento traz o cheiro de assado da redondeza. Na rua de cima, uma criança brinca de nascer. E amanhã, a vida acontece mais uma vez dentro dos dias, no seu dia.
Enquanto te espero – e anseio por tuas palavras, dentro do tuo vermelho – o carteiro suspira e solta um ” valha – me, Deus! ” e choveu… primeiro, você chegou em meio aos trovões  e logo uma chuva mansa colocou o cinza para além das janelas. Lembrei-me de que amanhã é teu dia e que a delicadeza começou a surgir rubro em tua janela, na última vez que nos vimos. Converso com o Universo em um eterno agradecer por tê-la colocado em meu caminho.
Que tuo cuore seja sempre feliz. com a emoção a estampar o amor em teu riso!
Que mais posso desejar senão que tua vida seja de emoção?
Feliz tudo!
Bacio
Mariana Gouveia
332. das fragilidades secretas