Reconhecimento

Reconhecimento.jpg3*imagem:Tumblr

Eu seria capaz de reconhecer todos os que te tocaram.
Talvez eles não saibam,
ou por estultície talvez tenham esquecido,
mas nos dedos deles ainda há vestígios de pétalas,
de brisa, de orvalho.

Raul Drewnick

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Dei-lhe o nome de flor

Dei-lhe o nome de flor

Chamava ela pelo nome e docemente ela respondia.
Trazia sorrisos, às vezes, quando me atendia.
Quase nunca o coração.
Não sabia extrapolar as coisas – dizia –
era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
Nos meus sonhos vinha feito névoa.
Me tocava com a maciez das nuvens e eu era etérea. A felicidade cabia tudo dentro de mim.
Dei-lhe o perfume do nome. O toque das pétalas. Dormia sobre ela. Por ela
e quando amanhecia eu dançava para ela, chovesse ou fizesse sol e regava as sementes que enviou para o jardim.
Um dia, chamei seu nome. E não veio riso, nem coração. Não veio nada.
O eco vagou pelos quartos todos. Visitou gavetas. Bateu janelas e ela não estava.
A montanha onde venta ecoou em resposta do meu grito.
Procurei-a nos lugares, e feito névoa se dissipou.
Eu, que buscava minha lucidez perdi de vez.
Endoideci. Ainda assim a chamava. Ora com a calma do amor,
ora com a tirania dos amantes. Com a raiva de quem endoideceu de amor.
Não veio mais. Nem em sonho.
Desde então, nas madrugadas vazias vago pelas ruas, nua. Coberta apenas com a flor que ela me plantou, com o riso de doida no olhar, cantando o nome dela como se fosse canção.

Quando o sol sai. Volto ao normal. Se bem, que sem ela nunca sei o que é normal.

Mariana Gouveia
*imagem: Anna O.

what a sweet lullaby

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Querer,
quero uma canção
sussurrada ao búzio do meu ouvido
um murmúrio apenas
sem penas,
palavras nenhumas.

Querer,
quero o teu cheiro
depois do amor,
o teu hálito morno,
verão do meu passado
perdido no limite do mar
a embalar – me o corpo até o sono.

Raquel Serejo Martins.
In: Aves de Incêndio – pág. 14
*imagem: Natalia Deprina

Subversiva

subversiva
*imagem: Tumblr

Vive de flor.
Come a espécie e grita a fome.
Adoece por falta de seiva – a dela –
Clorofila pura do sentido de ser natural.
Ama.
Por dentro, flor espalha em tudo que é canto.
Veia, sangue, ar. Respira jardim.
No sentido pleno da frase.
Dentro dela germina vontades… da essência dela em todo lugar.
Reage quando muda de espaço.
Trepa no limite do que pode sugar.
A história dos outros dentro da sua.
Subversiva, vive de flor.
Por que, só assim, pode viver.

Mariana Gouveia

Falta

falta
*imagem: Tumblr

quase morro (e não vejo tudo) tenho uma síncope uma febre delirante culpa dessa fome uma fome maior que a do jejum uma secura desértica que é sede de gente um oco buraco negro que ultrapassa a borda desse corpo o meu tão incompleto e aleijado sobra de vazios e partes faltantes (o corpo do outro) pra tapar o sol das minhas carências todas com uma peneira mais que furada.
Eu não me basto.

Ana Farrah Baunilha

365. dos verbos indefinidos

Retirou a tipoia do braço nessa ânsia imprecisa da escrita.
O vento lembrou Berlim em uma época que não estava lá.
Havia margaridas alimentando insetos com seus polens. O último dia antecede ao primeiro.
As janelas dão vistas para a lateral da canção.
Um ciclo se encerra e outro recomeça no agora.
Rabiscou à lápis as cidades que nunca visitou. Adoraria andar descalça pelas ruas de Paris. Lisboa conheceria sua voz dentro dos fados pelas vielas e ficaria em silêncio reverencioso nos arrozais da China.
Lembrou – se de que viu em algum lugar as vilas coloridas e suas casinhas brancas com gerânios florindo nas janelas – parecia uma pintura que a irmã sabia fazer desde pequena – ficou em dúvida se era de verdade isso tudo ou apenas poesia para acalmar a alma e afastar a solidão de um dia grande.
O pai incutiu- lhe a ideia de reverenciar os dias grandes. Seguia sempre os rituais que aprendeu desde criança e embora soubesse que isso era superstição seguia rigorosamente cada um deles.
Por isso, em um desafio no início de 2017  resolveu reverenciar os dias grandes. Todos os dias do ano e durante os 365 dias que se seguiram reverenciou-os com os rituais, as palavras das cartas, vibrou na estação das águas e se renovou nos dias aleatórios de abril.
Viveu cada um dos grandes com momentos únicos dentro dos dias diferentes dos outros dias.
Conheceu a autonomia dos voos e sentiu as impressões do dia seguinte, que era nada mais do que o agora.
Entre uma estação e a primavera coube nas infinitudes das coisas .
Tudo tão mágico e grande. Tudo tão pequeno e tão tanto.
Dentro dos verbos indefinidos ousou viver mesmo quando o diagnóstico dizia o contrário.
A vida é logo ali.
Cada dia é um dia grande para viver.
O desafio foi cumprido. Somente um dia, em todos esses 365 dias se resumiu em umas poucas palavras. Mas, você que me acompanha, nem deve ter percebido porque mesmo nesse dia ruim, eu o vivi como dia grande. Seja você o definidor do verbo que vai gerenciar seus dias em 2018.
Os próximos dias serão de dias grandes!  Façam valer a pena!

Feliz tudo novo!

beijo
Mariana Gouveia
365. dos verbos indefinidos