6 on 6 – Preto & Branco

 

“Era preto e branco,
Mas meu coração sorriu”.
Wanderly Frota

Contava o tempo dentro das horas. O jardim acontecia nos olhos de quem não via, mas podia tocar e sentir no toque a maciez da pétala. 

Nunca havia visto um coração, assim de tocar de perto ou atingiu o âmago de um. Podia sentir na boca o gosto de um sabor agridoce. 
Quando ouvia a palavra coração podia sentir na pele a magia da mão dela. Quando ouvia falar de cor, só conseguia entender as nuances em preto e branco.

 


Havia escutado em algum quintal que a chuva não tinha cor… com isso, imaginava sempre que as levezas das gotas pertenciam a alguma ave que percorria o céu na dimensão do seu lugar.

Podia tocar se quisesse o beijo que tocava a flor e que tinha o nome tatuado nas costas, como se com isso pudesse eternizar momentos.

Descobriu que podia.

Desde pequena conhecia a lenda das linguagens das mãos. Tocava em tudo que é bicho.
Conhecia o princípio e o fim dos toques. O dedo a ser pouso e indicação:
Siga por ali… o caminho é o meio. E a vida, às vezes, é feita em preto e branco e o que é lenda – a mãe dizia – nunca tem cor.

 


Não conhecia o caminho do mar e nem nunca pisara na areia para que a maresia banhasse a pele dela…
Sabia que era marítima! Isso sabia. Bastava fechar os olhos e os ouvidos a enganava. 

         Podiam até enganar o olfato, o tato e quase todos os sentidos… mas a audição não possuía cor. Era preto e branco quando os pés se arriscavam na queda leve da correnteza do rio… era com isso, o sempre ritual do encontro dela com o mar.
         E para isso, bastava apenas tocar as estrelas. Do mar.

 


A ausência da cor gesticulada na mudez das aves. Ninguém explica o azul celeste – é o céu – e a garoa fina que atravessa a janela e cai em meu colo como se fosse uma novela em 3D.
A estante ampara as coisas que leu em um livro aqui, outro ali… tudo sem cor, escondido em gestos. 

A mãe entendia o sorriso leve quando fechava os olhos e tocava o vento no verbo amar.

Contava o tempo dentro das horas. Sabia definir o caminho e as rotas sem perigo no quintal. Bastava seguir os tecidos fiados nas teias do caminho. Era bem ali, no quadrante leste que a cor começava a fluir. A tábua sem cor, na passadeira entre o rio e a cerca – o arame farpado sem cor – na travessia da floresta.

Era o nome um abandono completo de pele e a bússola a decifrar rotinas no mapa. Sabia a direção que podia tomar para a direção das cores… fazia meia volta e em sinal de fé, buscava a vida em preto e branco.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

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Menina, que sina essa?

1393039_339474702856150_1128347943_n*imagem: Tumblr

Para essa dor,
sabe que não há analgésico…
O jeito é :
se a dor rimar com a menina
a menina a desrima com


ri

rua!

Todas as ausências me doem

Todas as ausências me doem
mas nunca nenhuma conseguirá morder-me mais violentamente do que a tua!

E ainda assim sabes-me a mel e a figos
com broa de milho neste entardecer de mim.

Sabes-me a aconchego
embrulhado num canto da sala embriagada a incenso…
Arruda, canela, mirra, lavanda
com velas plantadas pelo chão.

Sabes-me a deserto e eu tenho sede.
Tenho sempre tanta sede!
Por mais água que me dês a beber
impensável matar esta maldita sede
que me persegue.

Mas é nesse deserto
onde me desfaço e refaço
morro e renasço,
vestida de silêncio
despojada de tudo
inclusive das sedas, da caxemira,
das pérolas, das safiras, dos rubis…
revolvendo todo o sangue nas artérias
que percebo quão firmes são os ninhos das andorinhas e como são cuidadosos os tecelões.

Tudo o resto da tua gritante ausência
em meu corpo,
tuas mãos outrora emoldurando o meu rosto
é coisa nenhuma!
Talvez sempre tivessem sido nada,
talvez tu a quem tanto amei
nunca tivesses sido coisa alguma
enquanto eu esfomeada só conseguia
vislumbrar em ti a doçura do mel
numa fatia de broa de milho.

Sabes-me a deserto e eu tenho sede.
Tenho sempre imensa sede!
Morrerei de sede em tuas mãos ou em tua ausência e as chuvas do norte clamam por mim.

Talvez um dia
quem sabe deixes de morder como um escorpião esfaimado os meus pés, as minhas pernas e me permitas voar.

Adeus.

© Célia Moura
*imagem: Tumblr

Tatuagem

Tatuagem
*imagem: Facebook

Cola-me à pele
a roupa que despi.
Vejo-a espalhada
sobre o soalho,
sinto-a por dentro,
num canto de mim
– nunca explorado.

Fica gravada na pele
como uma tatuagem
– involuntária.

Dulce Morais

Abstinência

abstinência*imagem: Tumblr
.

Virei alcóolatra
bebi tua falta
tua ausência

Bebi essa vontade absurda de você

e agora sofro de abstinência
todo dia invado os jardins
como pétalas
arranco as flores
vago entre os canteiros

busco vestígios de você
e na loucura absurda das horas e da falta

tenho alucinações de que você está aqui
na minha boca
e eu bebo você.

Mariana Gouveia

Cheiro de lua

Cheiro de lua


Não era cheiro de mato
nem de alecrim no jardim

Cheirava a céu
de estrelas – eu pensei

Mas confesso que errei
Uma nuvem se acentua
e eis que assim, despida
toda nua

Senti o cheiro da Lua.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr