Decoração

francesca wodman*imagem: Francesca Wodman

Desculpe-me,
Este
Espelho
Não
Combina
Comigo.

 

Elke Lubitz

Anúncios

Não quero me reter nas impossibilidades,

Não quero me reter nas impossibilidades,

 

Moro nas noites vazias,
Frias,
Fartas de si mesmas,
Mais do que bastantes,
Sombrias…
Quero deslizar-me viajante,
Na perversa habilidade escura,
Nua,
Crua,
De viver possibilidades vadias…

 

Sibila De Andrade
*imagem: Gonzalo Villar

6 on 6 – Preto & Branco

 

“Era preto e branco,
Mas meu coração sorriu”.
Wanderly Frota

Contava o tempo dentro das horas. O jardim acontecia nos olhos de quem não via, mas podia tocar e sentir no toque a maciez da pétala. 

Nunca havia visto um coração, assim de tocar de perto ou atingiu o âmago de um. Podia sentir na boca o gosto de um sabor agridoce. 
Quando ouvia a palavra coração podia sentir na pele a magia da mão dela. Quando ouvia falar de cor, só conseguia entender as nuances em preto e branco.

 


Havia escutado em algum quintal que a chuva não tinha cor… com isso, imaginava sempre que as levezas das gotas pertenciam a alguma ave que percorria o céu na dimensão do seu lugar.

Podia tocar se quisesse o beijo que tocava a flor e que tinha o nome tatuado nas costas, como se com isso pudesse eternizar momentos.

Descobriu que podia.

Desde pequena conhecia a lenda das linguagens das mãos. Tocava em tudo que é bicho.
Conhecia o princípio e o fim dos toques. O dedo a ser pouso e indicação:
Siga por ali… o caminho é o meio. E a vida, às vezes, é feita em preto e branco e o que é lenda – a mãe dizia – nunca tem cor.

 


Não conhecia o caminho do mar e nem nunca pisara na areia para que a maresia banhasse a pele dela…
Sabia que era marítima! Isso sabia. Bastava fechar os olhos e os ouvidos a enganava. 

         Podiam até enganar o olfato, o tato e quase todos os sentidos… mas a audição não possuía cor. Era preto e branco quando os pés se arriscavam na queda leve da correnteza do rio… era com isso, o sempre ritual do encontro dela com o mar.
         E para isso, bastava apenas tocar as estrelas. Do mar.

 


A ausência da cor gesticulada na mudez das aves. Ninguém explica o azul celeste – é o céu – e a garoa fina que atravessa a janela e cai em meu colo como se fosse uma novela em 3D.
A estante ampara as coisas que leu em um livro aqui, outro ali… tudo sem cor, escondido em gestos. 

A mãe entendia o sorriso leve quando fechava os olhos e tocava o vento no verbo amar.

Contava o tempo dentro das horas. Sabia definir o caminho e as rotas sem perigo no quintal. Bastava seguir os tecidos fiados nas teias do caminho. Era bem ali, no quadrante leste que a cor começava a fluir. A tábua sem cor, na passadeira entre o rio e a cerca – o arame farpado sem cor – na travessia da floresta.

Era o nome um abandono completo de pele e a bússola a decifrar rotinas no mapa. Sabia a direção que podia tomar para a direção das cores… fazia meia volta e em sinal de fé, buscava a vida em preto e branco.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

Todas as ausências me doem

Todas as ausências me doem
mas nunca nenhuma conseguirá morder-me mais violentamente do que a tua!

E ainda assim sabes-me a mel e a figos
com broa de milho neste entardecer de mim.

Sabes-me a aconchego
embrulhado num canto da sala embriagada a incenso…
Arruda, canela, mirra, lavanda
com velas plantadas pelo chão.

Sabes-me a deserto e eu tenho sede.
Tenho sempre tanta sede!
Por mais água que me dês a beber
impensável matar esta maldita sede
que me persegue.

Mas é nesse deserto
onde me desfaço e refaço
morro e renasço,
vestida de silêncio
despojada de tudo
inclusive das sedas, da caxemira,
das pérolas, das safiras, dos rubis…
revolvendo todo o sangue nas artérias
que percebo quão firmes são os ninhos das andorinhas e como são cuidadosos os tecelões.

Tudo o resto da tua gritante ausência
em meu corpo,
tuas mãos outrora emoldurando o meu rosto
é coisa nenhuma!
Talvez sempre tivessem sido nada,
talvez tu a quem tanto amei
nunca tivesses sido coisa alguma
enquanto eu esfomeada só conseguia
vislumbrar em ti a doçura do mel
numa fatia de broa de milho.

Sabes-me a deserto e eu tenho sede.
Tenho sempre imensa sede!
Morrerei de sede em tuas mãos ou em tua ausência e as chuvas do norte clamam por mim.

Talvez um dia
quem sabe deixes de morder como um escorpião esfaimado os meus pés, as minhas pernas e me permitas voar.

Adeus.

© Célia Moura
*imagem: Tumblr