164. da geografia das coisas

Há o abandono nato das asas que voas.
O pássaro não veio. Ela não quer falar. O cansaço das horas vazias. A espera das horas em que não veio.
A solidão é dentro da gente.
Tanta intensidade até na palavra vazio. O vento empurra o meio do nada.
Às vezes, é preciso entender os silêncios;

Mariana Gouveia
164. da geografia das coisas

142. dos dias diferentes dos outros dias

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Quatro da manhã e eu varrendo folhas enquanto a loucura faz barulho na alma.
A garoa densa lembra o tempo da estação e o cacto inicia seu meio de desabrochar uma flor.
O grito de uma ave noturna abala o silêncio…
Um cão ladra como se dissesse um código para o outro da rua de cima que responde em ressonância ao aviso
O que o moço da reciclagem faz uma hora dessa na rua catando garrafas pets, enquanto o frio corta a pele e ele canta a canção sertaneja que me faz lembrar da última carta que minha mãe escreveu?
Sirvo um café quente para aquecer as mãos na xícara e ele narra uma saudade gritante no peito de coisas que não viveu.
Recicla versos dentro de uma canção imaginada e desperta a manhã fria que se aproxima envolvido no abraço… fala da mulher azul do seu passado e seus pés de bailarina e do cheiro de árvore que sente toda madrugada nas caminhadas rotineiras:

– isso de dor de amor, moça, é como ferida na pele… Até sara, mas fica a cicatriz.

Mariana Gouveia
142. dos dias diferentes dos outros dias

hoje eu esqueci as asas em casa

hoje eu esqueci as asas em casa

Hoje
não choveu estrelas
nem
pétalas de prosa,

hoje
fez-se brisa
onde era brasa

e restou
uma poesia rasa,

hoje
eu esqueci as asas

(…)
em casa.

Múcio Góes
*imagem: Tumblr

das minhas memórias todas

das minhas memórias todas.jpg

seu nome escrito nos muros
sangrando as paredes
onde escrevo saudade
a palavra que não disse
o beijo que não deu
o abandono todo.
O sentir do teu toque na pele,
as borboletas a voar no estômago
das minhas memórias todas
o livro que não li em braile em tua pele
o abraço que não dei em seu dia
das minhas memórias todas, você.

Mariana Gouveia
*imagem: Rimel Neffati

O grito…

o-grito
ecoou na noite embateu contra a parede quebrou o silêncio, sem perdão O homem, enlouquecido, vira-se de costas para não ver o vazio deixado Para evitar o murro na parede do quarto perdido, despojado. Inutilmente, fica na penumbra, à espera do que sabe não ter retorno.

Lia Branco
*Fotografia: Fidalgo Pedrosa

40. das palavras das cartas

pudesse-eu-ser-tu

A moça de coração na roupa me cede lugar no ônibus. Passo em frente a lugares onde fui presença.

Relembro da história do filme. Faço anotações para a carta que escrevo mentalmente. Os corredores ficaram mais cinza hoje. A menina do beijo rosa se foi. Deixou um coração riscado em uma folha com meu nome. Nas mãos dela tudo virava corações. A voz se perde dentro da viela em frente a igreja. Como dar cor para uma mulher ausente de fé?

As mãos aceitaram o toque… o corpo agradeceu o abraço.

Em alguns dias o aconchego vem com o silêncio da alma.

Mariana Gouveia
40. das palavras das cartas