283. das infinitudes

Havia um vento morno vindo do sul. Trovejou ontem – raios rasgaram o céu – e o cheiro de terra molhada invadiu o ar e a chuva veio bravia.
A vida é feita desses instantes que ninguém escreveu. Uma janela aberta e um rio invade o quintal. Árvores com as raízes à mostra e as paredes cinzas ofuscando o clarão dos relâmpagos.
Ouço uma melodia que me traz a sensação de que nasci agora. A tempestade fazendo a mão para indicar caminhos. Tudo é escuro na noite lá fora.
Os poemas espalhados na lama como sementes. Quem sabe amanhã não nascerá as palavras da atitude.
Às vezes, o silêncio é essa goteira que pinga sem parar.
Essa luz que insiste em ser acaso… a noite, o nada e o vento.

Mariana Gouveia
283. das infinitudes
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271. Entre uma estação e a primavera

 

Eu devia saber dessa coisa – tempo – espaço… Desses vãos que trazem ventos e  entram afastando os móveis de lugar. Sabia que seria difícil essa coisa da dor, logo depois que se desfazem os gestos de comida pronta na cozinha quando a noite chega e o relógio – tão silencioso durante o dia – ganha ecos de um tic – tac sem fim.
Eu devia saber que quando a primavera invadisse meu quintal e o cheiro de hortelã invadisse os quartos e a falta de ar não permitisse o sono eu ia chamar o nome dela e depois disso, a alma já poderia suportar tudo.
Mariana Gouveia
271. Entre uma estação e a primavera

254. Entre uma estação e a primavera

 

Havia escuridão sobre as ruas. Não havia luz feita pelos homens e o céu se nublou.
O vento veio primeiro – feroz – com sua raiva, fazendo a meteorologia errar nas previsões.
Depois, o céu rugiu e suas nuvens ganharam contornos de água. Só se via o vulto das torres, ao longe.
Dizem que em algum lugar caiu granizo. E na escuridão, a alma se mostra cansada.
As árvores com seus galhos formam figuras assustadoras…
Havia um homem na esquina com seus espirais de um fogo frágil, feito para enganar criança, enquanto nos minutos das horas eu espero o amanhecer.

 

Mariana Gouveia
254. Entre uma estação e a primavera

225. das impressões do dia seguinte

Ao meu pai,

Pai, colho impressões do dia seguinte e mais uma vez escrevo essa carta para ganhar seu colo dentro das palavras.
O instante é tão ligeiro e volto lá na minha infância.

Não sei se  vida se restringe ao que se pode tocar – e nessa hora busco a palavra abraço.- o longe não afeta o que é tátil para respirar. Fecho os olhos e posso te tocar, embora a gente seja mais de ler, ouvir no rádio a canção que mais nos toca.

Hoje você é muito mais silêncio que se acomoda em um vão onde ninguém alcança. Talvez você viaje pelos campos a sentir o orvalho. Ou junto com sua fé, o verbo seja confiar.

Lembro-me dos meus medos alados e ganhei a delicadeza de asas quando você me jogava para cima e com sua coragem, fui vencendo o infinito e ganhei sede de viver…  a vida é simples assim e hoje, pai, no seu dia, eu relembro os anos todos de você sendo pai.
Hoje, é quase um menino de riso brando. É mais afeto. De natureza indomável. De mata. E o  que é da mata é ser livre. Nem mesmo uma cadeira de rodas consegue prender, porque a gente voa…
Te amo!

Feliz dia dos Pais!

Mariana Gouveia
225. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte.

I

Havia papéis rasgados
Corações que alguém descolou

– o lado certo virado para o negrume da noite –

O avesso.

II
Junto ao chão
A poeira dos dias

– o vento a rastejar enquanto deseja voo –

O espaço.

III
Era apenas a palavra poesia
Que findou.

– outro dia seria assim, se desejasse –

Não quis.

Mariana Gouveia
222. das impressões do dia seguinte

164. da geografia das coisas

Há o abandono nato das asas que voas.
O pássaro não veio. Ela não quer falar. O cansaço das horas vazias. A espera das horas em que não veio.
A solidão é dentro da gente.
Tanta intensidade até na palavra vazio. O vento empurra o meio do nada.
Às vezes, é preciso entender os silêncios;

Mariana Gouveia
164. da geografia das coisas

142. dos dias diferentes dos outros dias

142. dos dias diferentes dos outros dias.jpg
Quatro da manhã e eu varrendo folhas enquanto a loucura faz barulho na alma.
A garoa densa lembra o tempo da estação e o cacto inicia seu meio de desabrochar uma flor.
O grito de uma ave noturna abala o silêncio…
Um cão ladra como se dissesse um código para o outro da rua de cima que responde em ressonância ao aviso
O que o moço da reciclagem faz uma hora dessa na rua catando garrafas pets, enquanto o frio corta a pele e ele canta a canção sertaneja que me faz lembrar da última carta que minha mãe escreveu?
Sirvo um café quente para aquecer as mãos na xícara e ele narra uma saudade gritante no peito de coisas que não viveu.
Recicla versos dentro de uma canção imaginada e desperta a manhã fria que se aproxima envolvido no abraço… fala da mulher azul do seu passado e seus pés de bailarina e do cheiro de árvore que sente toda madrugada nas caminhadas rotineiras:

– isso de dor de amor, moça, é como ferida na pele… Até sara, mas fica a cicatriz.

Mariana Gouveia
142. dos dias diferentes dos outros dias