Todas as ausências me doem

Todas as ausências me doem
mas nunca nenhuma conseguirá morder-me mais violentamente do que a tua!

E ainda assim sabes-me a mel e a figos
com broa de milho neste entardecer de mim.

Sabes-me a aconchego
embrulhado num canto da sala embriagada a incenso…
Arruda, canela, mirra, lavanda
com velas plantadas pelo chão.

Sabes-me a deserto e eu tenho sede.
Tenho sempre tanta sede!
Por mais água que me dês a beber
impensável matar esta maldita sede
que me persegue.

Mas é nesse deserto
onde me desfaço e refaço
morro e renasço,
vestida de silêncio
despojada de tudo
inclusive das sedas, da caxemira,
das pérolas, das safiras, dos rubis…
revolvendo todo o sangue nas artérias
que percebo quão firmes são os ninhos das andorinhas e como são cuidadosos os tecelões.

Tudo o resto da tua gritante ausência
em meu corpo,
tuas mãos outrora emoldurando o meu rosto
é coisa nenhuma!
Talvez sempre tivessem sido nada,
talvez tu a quem tanto amei
nunca tivesses sido coisa alguma
enquanto eu esfomeada só conseguia
vislumbrar em ti a doçura do mel
numa fatia de broa de milho.

Sabes-me a deserto e eu tenho sede.
Tenho sempre imensa sede!
Morrerei de sede em tuas mãos ou em tua ausência e as chuvas do norte clamam por mim.

Talvez um dia
quem sabe deixes de morder como um escorpião esfaimado os meus pés, as minhas pernas e me permitas voar.

Adeus.

© Célia Moura
*imagem: Tumblr

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Tatuagem

Tatuagem
*imagem: Facebook

Cola-me à pele
a roupa que despi.
Vejo-a espalhada
sobre o soalho,
sinto-a por dentro,
num canto de mim
– nunca explorado.

Fica gravada na pele
como uma tatuagem
– involuntária.

Dulce Morais

Abstinência

abstinência*imagem: Tumblr
.

Virei alcóolatra
bebi tua falta
tua ausência

Bebi essa vontade absurda de você

e agora sofro de abstinência
todo dia invado os jardins
como pétalas
arranco as flores
vago entre os canteiros

busco vestígios de você
e na loucura absurda das horas e da falta

tenho alucinações de que você está aqui
na minha boca
e eu bebo você.

Mariana Gouveia

Cheiro de lua

Cheiro de lua


Não era cheiro de mato
nem de alecrim no jardim

Cheirava a céu
de estrelas – eu pensei

Mas confesso que errei
Uma nuvem se acentua
e eis que assim, despida
toda nua

Senti o cheiro da Lua.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr