225. das impressões do dia seguinte

Ao meu pai,

Pai, colho impressões do dia seguinte e mais uma vez escrevo essa carta para ganhar seu colo dentro das palavras.
O instante é tão ligeiro e volto lá na minha infância.

Não sei se  vida se restringe ao que se pode tocar – e nessa hora busco a palavra abraço.- o longe não afeta o que é tátil para respirar. Fecho os olhos e posso te tocar, embora a gente seja mais de ler, ouvir no rádio a canção que mais nos toca.

Hoje você é muito mais silêncio que se acomoda em um vão onde ninguém alcança. Talvez você viaje pelos campos a sentir o orvalho. Ou junto com sua fé, o verbo seja confiar.

Lembro-me dos meus medos alados e ganhei a delicadeza de asas quando você me jogava para cima e com sua coragem, fui vencendo o infinito e ganhei sede de viver…  a vida é simples assim e hoje, pai, no seu dia, eu relembro os anos todos de você sendo pai.
Hoje, é quase um menino de riso brando. É mais afeto. De natureza indomável. De mata. E o  que é da mata é ser livre. Nem mesmo uma cadeira de rodas consegue prender, porque a gente voa…
Te amo!

Feliz dia dos Pais!

Mariana Gouveia
225. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte.

I

Havia papéis rasgados
Corações que alguém descolou

– o lado certo virado para o negrume da noite –

O avesso.

II
Junto ao chão
A poeira dos dias

– o vento a rastejar enquanto deseja voo –

O espaço.

III
Era apenas a palavra poesia
Que findou.

– outro dia seria assim, se desejasse –

Não quis.

Mariana Gouveia
222. das impressões do dia seguinte

164. da geografia das coisas

Há o abandono nato das asas que voas.
O pássaro não veio. Ela não quer falar. O cansaço das horas vazias. A espera das horas em que não veio.
A solidão é dentro da gente.
Tanta intensidade até na palavra vazio. O vento empurra o meio do nada.
Às vezes, é preciso entender os silêncios;

Mariana Gouveia
164. da geografia das coisas

142. dos dias diferentes dos outros dias

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Quatro da manhã e eu varrendo folhas enquanto a loucura faz barulho na alma.
A garoa densa lembra o tempo da estação e o cacto inicia seu meio de desabrochar uma flor.
O grito de uma ave noturna abala o silêncio…
Um cão ladra como se dissesse um código para o outro da rua de cima que responde em ressonância ao aviso
O que o moço da reciclagem faz uma hora dessa na rua catando garrafas pets, enquanto o frio corta a pele e ele canta a canção sertaneja que me faz lembrar da última carta que minha mãe escreveu?
Sirvo um café quente para aquecer as mãos na xícara e ele narra uma saudade gritante no peito de coisas que não viveu.
Recicla versos dentro de uma canção imaginada e desperta a manhã fria que se aproxima envolvido no abraço… fala da mulher azul do seu passado e seus pés de bailarina e do cheiro de árvore que sente toda madrugada nas caminhadas rotineiras:

– isso de dor de amor, moça, é como ferida na pele… Até sara, mas fica a cicatriz.

Mariana Gouveia
142. dos dias diferentes dos outros dias

hoje eu esqueci as asas em casa

hoje eu esqueci as asas em casa

Hoje
não choveu estrelas
nem
pétalas de prosa,

hoje
fez-se brisa
onde era brasa

e restou
uma poesia rasa,

hoje
eu esqueci as asas

(…)
em casa.

Múcio Góes
*imagem: Tumblr

das minhas memórias todas

das minhas memórias todas.jpg

seu nome escrito nos muros
sangrando as paredes
onde escrevo saudade
a palavra que não disse
o beijo que não deu
o abandono todo.
O sentir do teu toque na pele,
as borboletas a voar no estômago
das minhas memórias todas
o livro que não li em braile em tua pele
o abraço que não dei em seu dia
das minhas memórias todas, você.

Mariana Gouveia
*imagem: Rimel Neffati

O grito…

o-grito
ecoou na noite embateu contra a parede quebrou o silêncio, sem perdão O homem, enlouquecido, vira-se de costas para não ver o vazio deixado Para evitar o murro na parede do quarto perdido, despojado. Inutilmente, fica na penumbra, à espera do que sabe não ter retorno.

Lia Branco
*Fotografia: Fidalgo Pedrosa