Projeto 6 missivas — uma carta a um amigo

O Homem cansa-se;
o espírito não.
O Homem rende-se;
o espírito nunca.
O Homem arrasta-se;
o espírito voa.
O espírito vive
quando o Homem morre.

 

O Homem parece;
o espírito é.
O Homem sonha;
o espírito vive

O Homem está amarrado;
o espírito é livre.

O que o espírito é…

o Homem pode ser
Mike Scot
(Waterboys)

Já faz tempo que não falo com você e hoje, quando passei na rua que tem seu nome fiquei imaginando como se sentiria sabendo que você tem uma rua toda sua.
Lembrei-me do dia em que colocaram a primeira placa e de como seu irmão segurou minha mão bem forte.

– Cara, ele agora é dono de uma rua inteira! A rua em que ele soltou pipa e brincou de bola de gude. A rua em que ele caiu e ralou todo o joelho e namorou com a menina mais linda da cidade naquele canto.

A gente riu e chorou e mais uma vez repeti como te conheci e como fomos parceiros no rádio uma vida inteira. Uma vida que durou o tempo de uma curva e um sopro te levou. Os intervalos eram tão caros para o cliente e tão baratos para nós e você conseguia o meio termo. A roupa da loja de tecido, o tênis que você desejou a vida toda… o cartão transporte gratuito – infiniiiito para uma vida toda – e seu grito ecoava nos corredores.

Ali, não tinha um que não tivesse uma história com você e depois que tudo passou fiquei eu, só, na sua rua. Relembrei cada instante dourado de nossas vidas. O dia em que sua mão me ofereceu parceria e nem meu nome você sabia. A marmita com ovo frito e a parte maior oferecida sua para mim com ombro de amigo.

Isso foi bem antes de você ganhar uma rua com seu nome…

O ônibus que pego passa todos os dias por ela e nas madrugadas as placas com seu nome escrito me levam para além do rádio – nossa paixão – e como nossa parceria era divertida. E de como a vida ficou vazia sem você.

A compota de laranja que o pote escondia e você dividia na delicadeza do abraço. O microfone dividido, as canções escolhidas e o riso que era seu companheiro rotineiro. E a reciclagem que você fazia no caminho a pé com as latinhas – e que virou seu apelido. E se pudesse te chamaria a vida toda de Divisão. Você era pura divisão de amor.

Nunca te vi triste e essa leveza você carregava e fazia leve quem te tocava.

O rádio nos ligou e quantas vezes dessas janelas – da foto – a gente ria de qualquer bobagem. Dávamos apelidos para quem passava lá embaixo, na calçada.
Eu, a menina caipira que escrevia as coragens que você narrava e você o menino do girassol e dos cabelos ao vento que trazia a magia na voz. Uma voz que ecoava estado afora.

Um vento te levou para além das ondas do rádio e hoje você foi saudade no meu coração. Te senti de leve quando meus olhos avistaram seu nome na placa de rua.

Moço, moço!

Mais do que duas janelas você tem uma rua que é só sua.

Saudades!

Beijo molhado de carinho (frase nossa ao terminar o programa Todo sábado é de festa – Radio A Voz do Oeste)

*minha homenagem ao meu amigo de um infiniiito inteiro Edson Luís da Silva. Radialista que foi soprado pelo vento em um acidente de carro ocasionado por um motorista embriagado.  A rua com nome dele citada fica na avenida principal do bairro Tijucal, Cuiabá – MT

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta a um amigo
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

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Projeto 6 missivas — uma carta para seu autor favorito

“Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo”.
Manoel de Barros

 

Fico imaginando como começo essa carta e escrevo mil vezes – dentro do meu exagero conhecido – bom dia, mestre! Ou seria boa tarde? Também tentei o Querido Manoel, Caríssimo e achei que ficou um tanto quanto comum. Como se começam as cartas para quem a gente se dobra e reverencia sem ser muito igual?

Vi que Drummond em uma das cartas que te escreveu usou simplesmente seu nome e me encoraja apenas a dizer:
Manoel,

Hoje venta muito no meu quintal e desde cedo penso nas palavras que quero te dizer. Talvez você gostaria de saber que aquela menina que chorou ao te entrevistar, cresceu. Ganhou poesias vida afora e abre os braços para dançar com o vento.
Ah, é, eu falava do vento no meu quintal e a leveza das folhas correm para um canto do muro. Olhando de perto não tem tanta folha seca no pé de algodão. Mas como cai!!

Quero te contar dos calangos que vivem aqui, entre meu muro e a parede da casa vizinha… já vi muitos e até fotografei eles e seus olhinhos assustados. Sempre os salvo dos cães que por vezes, são mais rápidos do que eles. Cada vez que vejo um, lembro de você e de seu poema que fala da lagartixa. Tem até a Rabicó, que perdeu parte de seu rabo em uma dessas fugas desastradas da Lolla e Yoshi.

Aqui, a vida me parece ensaiada dentro de poemas seus. Quando as borboletas enfeitam meu pé de Maria Sem Vergonha e cismam de brincarem nas minhas mãos, quando a nuvem chacoalham dentro da bacia de água e a lua banha dentro do balde e arranca meu riso, quando os insetos vem morar no meu pé de boldo – hoje surgiu a lagartinha que mede os centímetros – e eu carrego a ilusão de que seus poemas foram desenhados aqui… bem no meu quintal.

Tenho sorte de ter olho para o encanto. De ver imagens nos estuques das paredes do muro. De ver o portal que dá lugar para minhas emoções esparramadas na grama verde e de poder viver o lambeijo dos meus cães quando deito no chão. De enxergar coração em tudo que é coisa.

Tenho sorte porque lá fora, para além dos instantes de encanto, o mundo está de ponta cabeça e não sei se você gostaria de vê-lo como se apresenta hoje. Talvez, aqui, no meu lugar seja um daqueles achadouros que você criava em seu mundo.

O meu quintal é desabitado de realidade e levo ele na bolsa sempre que saio calçadas afora para viver o mundo real e lá, quando o baque vem em grau maior eu retiro um pequeno bocado para sobreviver.

O mundo está moderno demais e atravessado. Então, eu busco como escape essa inteireza de criança que meu pai ainda acha que sou e com isso tento dar verbo às coisas que me rodeiam e bem ali, no cantinho do espaço imaginário, perto das lanternas chinesas eu te abraço e agradeço pela inspiração que me ofereceu diante da palavra e tentando entender a cor dos pássaros faço o verbo esperançar renascer cada vez mais dentro de mim.

Um abraço,

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta para seu autor favorito
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto 6 missivas — uma carta a um desconhecido

Embora não saiba seu nome eu a vejo todos os dias. Meu horário combina com seus rituais de abrir as portas do seu lugar de trabalho.

Há sempre um cão a te acompanhar e seu olho vasculha o ponto de ônibus onde estou. Não chego a ouvir tua voz – o que me faz pensar em como você se dirige ao cão que te atende ao primeiro chamado.

Há tantos anos sua maneira de abrir as cortinas já é conhecida. O cabelo esvoaçante e as portas de correr sobre tuas mãos. Pudesse eu atravessar, atravessaria a faixa de pedestres e te daria o abraço que às vezes, sinto que você procura.

Moça, você desenha unhas, pele e embeleza a alma. Te vejo leve nas manhãs e nas tardes, quando volto, sua figura aparece para mim como um vulto. Às vezes, a sinto cansada. Em outras, você é pura alegria – chega a arrancar um riso aqui também – parece que dança enquanto manipula a tesoura, o secador, as agulhas.

Já desejei saber teu nome para te ligar e dizer que sei de sua luta diária.
Sou apenas aquela que te espia e de longe te admira diante da leveza com que carrega a coragem de todo dia.

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora – uma carta a um desconhecido
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto Scenarium 6 Missivas – Setembro

Setembro, 30/2018

 L,

Essa carta não será enviada e fará companhia as tantas outras que escrevi – e não digo sobre as que rasguei, embolei, joguei fora – e será apenas palavras escritas no vento, como o coração que vagueia nas nuvens.

Perdi a conta dos dias de solidão sem sua voz, sem seu riso e sem o olá tão único e distinto. Aqui, continua quase tudo igual. Os cães ainda vivem ao pé de mim e essa frase dita assim me faz lembrar teu sotaque. Já te contei que busquei seu rosto em outras pessoas? Dias desses, ao atravessar a rua te vi, ou melhor, pensei ter te visto. A pessoa atravessou a faixa de segurança e cruzou a avenida rumo a praça dos correios.

Corri logo depois do ônibus parar ao meu sinal – loucura minha, digo – para ao chamar teu nome, perceber que a solidão me faz ver coisas e a vi de novo dias atrás na missa. Cheguei a pensar que a tal pessoa poderia ser sua parente.

Minha analista acha que crio projeções de vontades que tenho aqui dentro. É verdade, tenho uma analista que fica a me ouvir e apenas repete o que um dia você disse sobre esse amor ser o mais bonito dos amores.

Como disse Silvia Plath:  Acho que te criei no interior de minha mente e te busco nos aromas das flores, na chuva morna que já te lavou a alma aqui. É engraçado como as coisas tomam formas dentro da imaginação. Parece que foi ontem tudo e hoje, não consigo nem relembrar as datas. O calendário vira do avesso e me engana na sorte das rotinas. O dia do santo do seu lugar, o aniversário que é logo ali, o endereço que não lembro mais e o telefone que busco o número nas mensagens antigas.

Aqui, tudo é bloqueio entre as frases cortadas e o engano de sua presença.

A vida é assim mesmo, L,  os finais são necessários para um novo começo, mas no fim o que fica mesmo é saudade.

Beijo meu

M

 

Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
Participam: Lunna Guedes Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega