— É uma rosa rubra a autora dessas linhas

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”E seu corpo iria girar, até que a última nota de seu coração parasse e fervesse sobre seus pés.”
Sekai Mato

 

Nasci no meio de 6 irmãos. Éramos 7… eu – a do meio – lunática, estranha, tudo porque gostava de livros, de ler. A que escrevia e que sabia contar histórias ou inventar.

Havia a meiofadameiobruxameioflor quem me trouxe ao mundo e que fazia os partos de toda a região, inclusive dos meus irmãos e primos. Para mim, ela era mesmo uma fada que transformava em magia tudo que tocava.

Os cogumelos ganhavam, na fazenda, um toque especial sobre suas mãos.

A floresta tinha o sentido claro de mundo encantado para mim e o tecer do capim dourado era a própria magia.

Era Florinda ou Dona Fulô e foi ali, naquele mundo em sua volta que aprendi o costurar das letras. Primeiro, de carreirinha, para logo mais emendar as palavras e fazer delas, versos. D. Fulô – ou minha bá – não conhecia nenhuma letra. Nem sabia manusear a pena – como ela dizia – mas sabia o poder delas sobre o mundo e quando deitada na rede, debaixo do pé de manga eu lia alguma coisa para ela, os olhos dela viajavam para além dos campos dourados de sol.

Passei a registrar todos os momentos em papéis de pão que minha mãe costurava e transformava em um caderno para escrita. Os cadernos, desses de capa dura, eram aos meus olhos, luxo puro, que atentos espiavam quando na visita à cidade passávamos em frente à papelaria ou armazém. O primeiro só veio anos depois quando entrei para a escola.

A letra era a chave para minha timidez e me manter longe das encrencas dos meus irmãos. O mundo se abria quando eu conseguia montar uma frase, uma carta e os olhos fechados da bá e o riso inquieto de minha mãe eram poemas que ninguém mais tinha. Só eu!

Eu desenhava perto delas a lua e o céu estrelado. A rosa rubra do jardim, e a natureza aos meus olhos parecia um quadro, desses que só via em revistas. Mas era uma pintura que minha mãe conseguia transformar em bordado. Depois eu pintava meus pés de asas e com isso eu podia voar. Passei horas procurando estrelas para botar no quarto, borboletas para nascerem no quintal e um ipê amarelo do lado da cerca, com a casinha simples ao fundo sendo cenário de uma infância que me fez no que sou hoje.

Com isso, consegui espantar os nuncas e me tornei portadora da fé.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural Editora
Crônicas de Outubro

 

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— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta

Hoje fui acordada do meu – suposto – merecido descanso por uma ideia. De madrugada.

Sabia que não ia lembrar mesmo falando o mantran que aprendi no curso de meditação que fiz em 1997 (e que tem os mesmos mantrans dos cursos vindouros – que fiz).

A gata mais pazeamor, vendo minha inquietude espreguiçou com as patinhas na minha garganta. Tossi. Acordei a outra gata (não é de paz e amor).

Desisti de tentar repetir à exaustão pra que eu não esquecesse e acendi a luz. Abri o caderno da aula de amanhã, ou melhor, de hoje mesmo e lá estava mais anotações de outras ideias não esquecidas (só porquê anotadas).

Sim. Ideias são como a mãe da gente acordando pra ir pra escola. E faz maria chiquinha que nem dá pra piscar até o final. Ideias acordam a gente… como se estivéssemos atrasadas ou pecando.

Aden Leonardo

 

Na rua de cima os cães não latem para os garis.  O caminhão passa tranquilamente sem barulhos, latidos e bafafás.

Percebi isso na madrugada quando acordei e mergulhei no texto estampado em neon – tipo me leia e guarde-me antes que a Aden acorde e me apague – mania latente de marcar a gente com palavras/poemas como se fosse ferro a brasa e mesmo apagado já fica ali, na pele…

A rua de cima é morna dentro das minhas idéias. Um gato preto anda sobre o muro e o silêncio chega a fazer barulho nas portas pintadas de azul. Há um outro – gato – pardo que atravessa os muros laterais dos vizinhos e vem justamente na minha rua, cheia de barulho provocar os cães, atrapalhar a ideia que grita dentro do silêncio, na madrugada.

A ideia me arrasta como correntes e fiz o quarteirão repetindo gestos no ar como se louca fosse e percebi que algumas janelas se entreabriram para as vizinhas que não entendem como a madrugada me abraça. O último poema ainda adoça a boca que perdeu o sentido de sabor. A ideia da Maria Chiquinha leva o pensamento para além da infância e o cabelo sente o repuxo que a mãe fizera na última vez. Isso já foi a tanto tempo!
Os dias se perdem nessa dimensão do espaço.

O caderno ganha as anotações depois que o poema ativou a palavra solidão no calcanhar… e quando você busca o poema que te inspirou, ele evaporou-se no baú dos apagados – não falei que ela – Aden – ia fazer isso? – e as ideias se perderam dentro do poema apagado…
para no instante seguinte florir no carinho da amizade.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural Editora
Crônicas de Outubro


— a leitura que faço de mim mesma

“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher,
com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado

Clarice Lispector

a leitura que faço de mim mesma .

Quando Setembro se inicia em meu íntimo já é primavera e escrever é quase esse espalhar sementes em um quintal povoado de pássaros. Sou esse ser em formação em matéria de escrever. Perco-me diante das banalidades e minha escrita ganha vida no dia a dia. Sou a que planta, colhe e faz poesias. A palavra me toma como se parte dela fosse parte de mim e outros tantos eu caminham por nortes diferentes dentro da escrita.

Ser escritora em plena primavera de 2017 talvez tenha a leveza da estação, mas ainda assim continua sendo peso o fato de ser mulher, dona de casa e escritora – e o novo século não alterou em nada essa questão –  e atrevida, ganho voz através das redes sociais; a escritora de hoje sente na pele a mesma opressão que desde os séculos passados outras viveram e sentiram. A luta pelos direitos iguais dentro do movimento feminista imprime mudanças substanciais na ótica e nas relações sociais. E isso influencia a escrita, o pensamento e as ações.

Diante disso vivo em constante reconstrução e a cada dia me dispo diante das palavras e levo a quem me lê meu coração. Meu linguajar se mistura com a estação onde tento passar a minha emoção para o outro.

Moderna-antiga-ultrapassada-atuante, muitas vezes muitas dentro de uma só. Múltipla de mim mesma. De qualquer forma, assumo minha independência e força admitindo meus desejos e me coloco como protagonista de minha própria história.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Crônicas de Outubro.

 

4 – sinto falta de mim, em mim

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Eu te enfeito com histórias que ninguém, senão eu, li em ti.

Nélida Piñon

 

Querida minha.

A expectativa de um sábado à tarde é preguiça de viver. É primavera – mas em meu quintal o outono vagueia invasivo nas folhas que caem – e amanhã já será outro mês e a gente fica medindo os dias que faltam para o ano acabar.

Fico nessa agonia de buscar curas, de buscar ervas, de viver poesias, de estar em tanto lugar e ao mesmo tempo em nenhum.

Os dias aqui têm sido mornos – quentes – e sufocantes. Parece que Agosto perdura até hoje e que a qualquer momento os cachorros loucos entrarão portão adentro e lembro da infância onde não afastava tanto de casa com medo dos cachorros loucos que podiam aparecer a qualquer momento – e que nunca vi – e é como se esse mesmo medo voltasse. O medo tão real e palpável que recuo diante da tarde.

As sombras no muro refletem os cachorros loucos que existem na memória.

Não venta, não chove e o céu fica nesse cinza chumbo enquanto eu busco a cor dentro de mim. Aliás, me busco nas lembranças de tudo que já vivi. Sinto falta de mim, em mim.

A lua, atreve-se em sua fase a caminhar oblíqua no céu enquanto penso em você e seu barulho de mar. Faço declarações de amor que não envio.

Crio histórias contigo que não conto para ninguém.  Faço grafites imaginários no muro onde uma mancha lembra qualquer coisa das suas lendas.

Lembro – me da parede do prédio abandonado perto do trabalho onde havia um grafite, escrito um nome meio ilegível e uma flor arrancada a pétala. Conheci o moço que fez o desenho. É o mesmo que tatuou em mim as borboletas que fazem parte de minha vida, assim como você…

 

Beijo
M
Projeto Scenarium Plural
Missivas de Primavera

3 – estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

* imagem: Félix Mas

escrevia-te poemas
na ponta dos lábios
todos os começos do dia

a carmim
cor de terra
laranja de vida

dizer-te todos os começos do dia
eu te amo
Ana Christelo

 

Querida A.

 

Agucei o delírio da febre e reconstruí mais uma vez nossa história. Poderia dizer que olhando através das ondas eu só mudaria algumas marés… O resto, te amaria igual – ou diferente – nesses séculos que te vivo.

Do meu quintal eu atravesso esse oceano de possibilidades. Enquanto você é mais aldeia, eu sou marítima nesse meu amor. Visito suas lendas dentro da escuridão. Estou sozinha. De noite… Sou puro cavalgar no teu oceano onde a vida exala beleza.

A primavera chegou… dizem que hoje, seria o fim do mundo – pensei que seria lindo se o mundo acabasse em plena primavera – e se isso acontecer eu ouvi tua voz mais uma vez ecoando dentro do vento.

Mas o mundo que me ronda é esse mar que invade onde é rio e eu líquida, deliro de amor.

Quando te escrevo tento me ater às ruínas dos castelos onde esteve. Te visito pelas estradinhas das vilas nos voos das borboletas – que cada vez mais nos une –  ou nos girassóis dos campos onde respira meu nome dentro da flor – ou nos habitantes do mar que te rodeia.

Converso com suas lendas e cada vez mais o que é do mar nos aproximam no mesmo tempo e espaço.

É como se dentro de mim estivessem juntos os dois mundos dentro dos nossos.
Os abismos e sua fala doce… a moldura da maresia que todos os dias reflete em minha pele teu toque e você.

 

Beijo meu

 

M.
Projeto  Missivas de Primavera
Editora Scenarium Plural

 

2 – as horas estão escritas num futuro impossível

O tamanho do teu nome
 Quase já não se nota
Na estrada onde caminhas
Já não sei onde mora
A cor do sol
Pela estrada
onde caminhas
As curvas entornam-nos
      Sucessivamente. 
Daniel Faria
 
 Querida A

Preciso te dizer que tudo está bem, que a febre baixou e que a moça de branco agora vem de azul – quase toda noite – com exceção das sextas sem lua.
Nas sextas, ela vem colorida, diferente e mais simpática.
Percebi que ela cortou o cabelo e riu sem graça quando comentei – apenas para puxar assunto –  e fixou o olho na frase que pede silêncio no cartaz.
Eu acho que eu precisava ouvir tua voz. Sentir a rotina das urgências nas flores do jardim.
Devo te contar que esse mar por onde você navega nesse momento rebate em ondas no meu quintal.
O mesmo quintal onde suas lendas nasceram e onde planto o ipê que irá florar em alguma primavera daqui a alguns anos.
O calor está demais e as aves migratórias madrugam e lembro-me de que eu era de um hemisfério – florido, com noites no cabelo e dias de sol – e você em outro – com lado marítimo e crepúsculo no coração.
Deveria te dizer promessas vazias, do meu amor de toda noite, onde desenharei os dias dentro das horas escritas num futuro indescritível…
Mas, tudo que posso dizer dentro das palavras é que meu amor tão teu, tão entregue é apenas esses dias de setembro, esperando que a primavera seja mais do que uma estação de flores e sim, uma estação de amor e meu refúgio é dentro do seu nome.
Mariana
Projeto Scenarium Plural
Missivas de Primavera

1. Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

 

Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Alejandra Pizarnik

Querida A.

 

A palavra fogo rodeia meu lugar. Eu mesma ardo em febre e a cidade, conhecida pelo seu calor insuportável, agora fica insuportável. A meteorologia prevê ainda dias quentes e o lugar onde é meu refúgio está sendo devastado pelo fogo.

Talvez você nem leia essa carta. Talvez você a leia e nada fará sentido. Talvez sejam as palavras que estarão aqui que você desejava tanto ler – o talvez é tão cheio de expectativas – o sempre, não.
O sempre gera certeza e garantia e nós humanos queremos sempre o sempre.

” sempre vou estar aqui” “sempre vou te amar…”

Sempre, sempre… Às vezes, ele vira palavra vazia. Mas em mim – ou nós – posso substituir pela palavra século. Essa é durável. Forte. Resistente.

Talvez você quisesse ler a palavra sempre enquanto dentro de mim ardia, além da febre a palavra século. E ela significa que, apesar do tempo agora, eu vou te amar sempre.

E não veio o que você esperava no momento e daí você fechou todas as portas e janelas para mim e eu estava no meio de um corredor entre o desespero de mais um dos diagnósticos aterradores, que transformam pessoas em zumbis.

É difícil gerar expectativa de vida depois que os envelopes se abrem e os vãos ficam pequenos entre as calçadas.

Mas não existe espaço para você na minha vida, porque você se tornou ela desde os séculos dos séculos, amém.

Talvez se eu tivesse dito: espere, fique tranquila. Espere a tempestade passar… Talvez você ainda estaria ali, do outro lado da janela, sendo alívio e calma para os dias de fúrias enquanto o corpo luta contra o monstro real.

Talvez é tão cheio de expectativas. Talvez eu hoje pudesse te mostrar o que o nome de um mês pode muda dentro de um quintal.

Parece que a estação acontece no mês todo e não quando passamos da metade dele. Talvez eu pudesse te mostrar o ninho que as aves fizeram aqui. Mas tudo isso é tão relativo e distante. Parece até que aconteceu em outro século e por isso, escrevo cartas que talvez você nem leia.

Meu imaginário me engana sempre, entre os delírios de febre. É como se eu estivesse aí e tudo isso fosse apenas uma história que te conto, mas quando dou por mim existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada… Porque de fogo basta esse que destrói meu cerrado e aquele que queima minha alma.

Fica bem.

M.
Projeto Scenarium Plural – Missivas de Primavera