6 on 6 – Nós dois

Procura-se…. Pessoa feita triste por verbos pretéritos e palavras ouvidas.
Alguém que seja capaz de se surpreender com gestos incompletos e actos falhados.
Pede-se o favor de responder através de um sorriso vago que possa ser tudo.
Nuno Camarneiro  

 
Parecia tão distante a palavra nós dois. Eu, tão acostumada a ser só e resolver tudo só, de repente, vejo uma mão estendida me indicando caminhos.  

Em alguns horizontes você me mostrava a direção. Era como se ali, tão cúmplice e parceiro estava o amor.
Tão sombra e tão presente. Nós dois! Quase um em meio a tantos.

A realidade sendo constante na sonoridade dos dias. A imagem registrada, era você e sua amizade mais atuante junto ao amor.

 

Com o passar dos anos, os olhos complacentes diante de minhas aventuras e de como os poemas faziam parte do espaço onde existimos… o poema é sempre sua mão estendida e seu ombro de amparo.

 

Basta saber de você ali… onde seu riso é parte principal de minhas rotinas. 

 

Esvazia os meus dias da solidão dos poetas e é silêncio quando minha alma grita nas solidões tantas. 
Não é só de amizade que falo, nem de companheirismo – esse tanto de espelho refletido no peito – onde o jardineiro do jardim cuida dos arredores dos quintais. Onde o dedo aponta o céu e os passos me seguem para além das cartas e de outros amores.

 

Mais do que as infinitas possibilidades nós dois somos o amor.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega  Maria Vitória

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Post Coletivo de Janeiro / Meu Livro Proibido Favorito

“Qualquer forma de amor que encontre…
Viva – o”
Anais Nin

Quando Delta de Vênus chegou na fazenda, no ano de 1979, enviado juntamente com outros livros pela minha avó materna percebi que minha mãe ao folhear mudou o semblante e o colocou na parte mais alta da prateleira, onde nenhum de nós alcançaria.

Sabendo que aquilo atiçaria ainda mais a nossa curiosidade disse que era um livro proibido para menores e que havia sido enviado por engano para a gente. Era visível o constrangimento dela, que ainda nos achava pequenos demais para falar de sexo e falou isso tudo meio cifrado. Ainda não era a hora e ai de quem ousasse pegar o livro sem autorização dela.

Aquele livro virou o centro das atenções todas as vezes que sentávamos para ler, e distraidamente um dia, minha mãe o deixou em cima da mesa enquanto procurava o livro certo para cada um e meus olhos passou ligeiramente na primeira página.

“Ele as levava tão alto, fazia – as girar tão depressa em sua série de encantamentos, que em sua partida era como se houvesse algo semelhante a um voo”.

Busquei entender o que havia de estranho na história que seria proibido para a gente além de uma história de amor. Fui reprimida por questionar e o livro foi levado quarto adentro e ali, onde não sei, foi esquecido.

Só fui ler Delta de Vênus quase 16 anos depois. Não sei se movida pela curiosidade do filme que era comentado entre os colegas de faculdade e que não vi. Talvez ainda sentisse na pele a reprimenda de minha mãe ao ler os contos e pensei que ela comparou com as histórias das moças da Rua do Meio da cidade e que movia o nosso imaginário nas conversas dela com as comadres.

Delta de Vênus foge do romantismo que julguei lá ainda na minha meninice, só por causa de uma frase e embora compreenda que a exigência do patrocinador fosse isso, o erotismo carnal, em seus diversos modos foge do tradicional e vagueia em suas nuances diversas com base na sexualidade.

E se você gosta de sexo sem pudores e de literatura de qualidade que foge do convencional, originados na mente de uma mulher excepcional à frente de seu tempo, arrisque-se neste Delta de Vênus.

 

Este post faz parte da postagem coletiva e participam deste projeto os escritores: Lunna Guedes –  Ale Helga – Fernanda Akemi  – Gustavo Barberá – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes – Fernanda Akemi –  Maria Vitória

6 on 6 – Urban art (arte urbana)

“Porque amar é uma arte e nem todo mundo é artista”.
Renato Russo

Querida A,


Já te contei que minhas ruas possuem o encanto dos artistas de rua? Quando passo em frente a uma obra penso em como você decifraria a história da peça, do quadro, dos muros pintados ao longo de avenidas.

Às vezes, as ruas contam lindas histórias de amor. As declarações são repetidas ao longo de uma avenida, uma parede mal conservada e ali, o artista expõe sua arte e inspiração.
Muitas vezes, fico imaginando se fez o efeito esperado quando a pessoa se “vê” na frase, nas imagens e no desenho.

Saberia o Fred que Tati Ribeiro o ama tanto? Ah, minha cara, eu adoraria saber e por vezes, ao passar nessa rua me vejo tentada a dizer o que teria acontecido com eles. Chego até a criar a história e um final felizes para eles.

A moça da janela da rua de cima parece que está sempre à espera de alguém e logo duas casas acima, os corações colorem um muro inteiro. Devo confessar que já desenhei com os dedos no ar seu nome dentro de um deles.

Mas, o amor é assim, minha querida. Nos leva por caminhos diferentes e faz com que a gente embarque nas histórias que vemos por aí.

A arte tem essa leveza de explicar com mensagens, o que na verdade trazemos dentro de nós.
Beijo,

Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto:
 Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

6 on 6 – Preto & Branco

 

“Era preto e branco,
Mas meu coração sorriu”.
Wanderly Frota

Contava o tempo dentro das horas. O jardim acontecia nos olhos de quem não via, mas podia tocar e sentir no toque a maciez da pétala. 

Nunca havia visto um coração, assim de tocar de perto ou atingiu o âmago de um. Podia sentir na boca o gosto de um sabor agridoce. 
Quando ouvia a palavra coração podia sentir na pele a magia da mão dela. Quando ouvia falar de cor, só conseguia entender as nuances em preto e branco.

 


Havia escutado em algum quintal que a chuva não tinha cor… com isso, imaginava sempre que as levezas das gotas pertenciam a alguma ave que percorria o céu na dimensão do seu lugar.

Podia tocar se quisesse o beijo que tocava a flor e que tinha o nome tatuado nas costas, como se com isso pudesse eternizar momentos.

Descobriu que podia.

Desde pequena conhecia a lenda das linguagens das mãos. Tocava em tudo que é bicho.
Conhecia o princípio e o fim dos toques. O dedo a ser pouso e indicação:
Siga por ali… o caminho é o meio. E a vida, às vezes, é feita em preto e branco e o que é lenda – a mãe dizia – nunca tem cor.

 


Não conhecia o caminho do mar e nem nunca pisara na areia para que a maresia banhasse a pele dela…
Sabia que era marítima! Isso sabia. Bastava fechar os olhos e os ouvidos a enganava. 

         Podiam até enganar o olfato, o tato e quase todos os sentidos… mas a audição não possuía cor. Era preto e branco quando os pés se arriscavam na queda leve da correnteza do rio… era com isso, o sempre ritual do encontro dela com o mar.
         E para isso, bastava apenas tocar as estrelas. Do mar.

 


A ausência da cor gesticulada na mudez das aves. Ninguém explica o azul celeste – é o céu – e a garoa fina que atravessa a janela e cai em meu colo como se fosse uma novela em 3D.
A estante ampara as coisas que leu em um livro aqui, outro ali… tudo sem cor, escondido em gestos. 

A mãe entendia o sorriso leve quando fechava os olhos e tocava o vento no verbo amar.

Contava o tempo dentro das horas. Sabia definir o caminho e as rotas sem perigo no quintal. Bastava seguir os tecidos fiados nas teias do caminho. Era bem ali, no quadrante leste que a cor começava a fluir. A tábua sem cor, na passadeira entre o rio e a cerca – o arame farpado sem cor – na travessia da floresta.

Era o nome um abandono completo de pele e a bússola a decifrar rotinas no mapa. Sabia a direção que podia tomar para a direção das cores… fazia meia volta e em sinal de fé, buscava a vida em preto e branco.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

O barco de papel…

ancorado no canto da mesa da cozinha
Um envelope a espera da resposta
A tarde deixando o dia e levando o sol
Para navegar outros mares
Saudades
a alma ultrapassa a porta e vai em busca do oceano
A nado.

Mariana Gouveia
In – Sete Luas
Editora Scenarium Plural
*Imagem: Wallpaper The Best

6 on 6 – Livros

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.
Jorge Luis Borges


Eu, criança ainda
Os olhos voltados para os livros que chegavam até nós através de doações, ou enviados via correio pela minha avó materna. Tive tantos livros em minhas mãos que meu desejo era colocar em palavras tudo que eu sentia.
Minha mãe conseguia arrancar da gente o que estava guardado lá dentro da alma. E foi ali, no interior de Goiás, em meio às capas puídas de Fernando Pessoa que desejei ser escritora.
Os cadernos – às vezes, artesanais, costurados pela minha mãe, feitos de papel de pão – ou alguns novos, que eram tratados como tesouros foram testemunhas das primeiras palavras.

 

 

O tempo foi passando e como junto com o relógio a vida gira e foi ganhando rumos inesperados. Me tornei radialista e as palavras escritas eram lidas em um programa de rádio. O desejo, ali, guardado no peito e os cadernos, um a um, guardados em um baú.


Um dia, recebi um convite tentador através de um comentário no blog – que eu criara para compartilhar as palavras. O blog era nada mais do que um livro virtual e foi ali que Lunna Guedes, editora da Scenarium Plural me fez o delicioso convite para publicar um livro pela Série Exemplos e nasceu ali O Lado de Dentro.

O livro era mais do que eu sonhara a vida inteira. Com a graça e a arte do artesanato e com o carinho estampado em cada página.

 

Junto com O Lado de Dentro vieram participações na Revista Plural e outros projetos coletivos da editora.
Já não era mais um sonho. Já era realidade e minhas palavras ganhavam voos para além do meu lugar.

Com isso ganhei o mundo e Cadeados Abertos – Diário de Quatro Estações e a poesia ganhou as rotinas do dia a dia.

 


E para quem sonhava em escrever um livro, nesse ano nasceu Corredores – Codinome Loucura.  Agora, já são 3 livros. Todos no formato artesanal e com a poesia derramada em cada palavra.

O livro artesanal tem a simbologia de te abraçar em cada costura e o projeto trouxe para minha vida muito mais do que sonhos realizados. Trouxe para minha vida a paixão pelas histórias. As mesmas que encontro nos livros da Scenarium Plural, além de presentear com amigos espetaculares.

Ser Plural dentro dessa singularidade toda me faz mais uma entre os tantos que amam os livros.

 

Mariana Gouveia
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória