Minha Cecilia,

Das cartas…

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia

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Mariana Gouveia, autora

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Venta por aqui…
É madrugada ainda… e o tempo parece, que vai acatar a previsão — é que, às vezes, ele dá uma de menino teimoso e foge à regra dos cientistas, conhecedores do assunto — e vai mudar mesmo. O frio já bate nas folhas do ipê e elas cantam uma canção ao vento.
Mas, o céu está limpo” Falta um dia para a lua cheia e enquanto busco por ela entre as folhas das árvores, relembro seu poema, as fases lunares e ao me lembrar de cada um dos versos, as memórias retornam feito mágica.
Eu era mocinha, e havia a festa da Santa do dia de amanhã, enquanto minha mãe e as tias preparavam os doces bolos, biscoitos e comidas… o vestido da rainha da festa era bordado pelas mãos da bá, que sabia como ninguém, cruzar a linha em volta das…

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Carta à Alejandra

Missivas de Agosto!

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia

Não é você a culpada
de que teu poema
fale do que não é

‘Diarios’,
2 de Enero, París, 1963.

.Mariana Gouveia, autora

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.Caríssima minha!

Enquanto te escrevo fito teus olhos que sobressai como se me analisasse na entrega da carta. Vi nesses olhos, minha mãe, com fome de viver enquanto a noite fria de inverno anos atrás tragava-lhe a vida. Vi também os olhos de minha irmã espiando o rio — antes que a curva levasse as flores de oferenda para algum santo — e despetalava o mal-me-quer na busca de uma resposta que nem ela mesma sabia a pergunta.
Vendo teus olhos — agudos — me vem à memória a Capitu — do Bentinho — e logo uma canção me instiga a ler/ver você, com seus olhos de fome de vida — igual minha mãe — que tinha olhos que intimidava iguais aos teus.
Na noite passada…

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Mariana Gouveia,

Minha entrevista pelos olhos de amor da Lunna!

Scenarium livros artesanais

e quem disse que é preciso estar juntos
para estar perto? Acabo e ardo

Mariana Gouveia

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Mariana Gouveia, a mulher-menina-poeta-arteira-arteira… nasceu numa fazenda no interior de Goiás, das mãos de uma parteira que se chamava Florinda, mas todo mundo a conheciam por dona Fulô, no primeiro dia de julho de 1.965, era inverno, mas parecia primavera…
Ali, cresceu e viveu um conto de fadas entre sete irmãos. Mudou-se para o Mato Grosso por conta de uma doença de sua mãe – num dia qualquer de agosto. Precisamente dia 25. Era outono, mas não havia diferença entre os dias quentes de verão e veio descobrir bem depois que era assim o ano todo e em qualquer estação…
Desde pequena as palavras invadira-na e ela escrevia em tudo que podia: papel de pão, de embrulho de qualquer coisa, guardanapos, chão. Cadernos eram luxos que só vez ou outra ganhava, e reservava-os para…

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A solidão na astrologia das coisas.

Li a sorte na borra do café.
Encontrei trevo de quatro folhas, no quintal.
Ri da moça que queria encontrar a linha da vida.
Estava a beira de um cais,
– no outro lado do rio… o mar!
Nos jornais, a notícia do eclipse
Contei os dias nos dedos da mão…
O mar emudeceu
Não me traz mais o som da sua voz
Entendi coisas antigas…
A solidão na astrologia das coisas.

Mariana Gouveia
In, Sete luas – Editora Scenarium Plural
Eclipse – pág. 51
*Imagem: Julija Jankelaityte

Toque…

Tocou aquela flor como se fosse música
Dançou seguindo o som,
Como se fosse vento

Ouviu a melodia
Como se fosse mantra

Sentiu a pétala
Como se fosse pele

O arrepio
Como se fosse prece

E as notas, sinfonias e verdades todas,
… Uma coisa certa!

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro – Scenarium Plural Editora
*Imagem: Tumblr

6 on 6 — Serendipity

Quando esse tema chegou até a mim, fiquei a imaginar quais seriam os instantes que eu colocaria nas palavras.
O acaso vive me trazendo momentos quase que diários onde meu suspiro vai de encontro ao inesperado.

                                                                                                   ” O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar”
Titãs


Logo nas primeiras horas da manhã, a sorte me chama no amor do pássaro de todo dia que o acaso traz para meu quintal. Chiquinho é a emoção diante do inesperado gesto de pousar em meus dedos… ou sobrevoar meu pescoço em busca do afago nas asas. É como se um elo entre a natureza fizesse o sopro do acaso em minha vida.

Na rua de cima, me deparo com a leveza do ipê, como se beijasse a rua e as calçadas – e ainda nem é tempo deles se despertarem para as flores – que tem no mês de agosto sua florada magistral. Mas quem disse que o acaso não pode ser vivido dentro da rotina?
A extensão da rua, logo depois da casa da esquina, a pétala que cai, o cão que late a espera do meu bom dia – ou do biscoito que trago todo dia para ele – e meu afago em sua cabeça é sinal de confiança.

As múltiplas opções que o acaso me desenha vai desde uma árvore quase morta cheia de pássaros em meio a um trânsito caótico e o dia fechando as portas rumo ao poente e um coração de pedra, com as cicatrizes que a natureza causou logo acima da rua do meio.

O cheiro da garoa – que mais parecia uma chuva fina – caindo sobre a grama me trouxe a serenidade para além dos dias tumultuados e dentro da palavra serendipity, uma visita acalentou o dia.

E como se não bastasse um pouso, a vida de asas faz festas no focinho de quem sempre tem olho mágico diante da vida. Tudo é tão cheio de singularidades que a melodia do vento faz jus à sinfonia do silêncio que impera na alma.

Como Pasteur disse: “O acaso favorece apenas a mente preparada“. Mas para absorver as felizes descobertas ao longo dos dias, devemos ter o entendimento de aceitar o inesperado e reinterpretá-lo com o coração.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes– Obdúlio Ortega Maria Vitória