273. Entre uma estação e a primavera

 

Começou a escrever a história pelas mãos dele
– as mesmas que arrancam as ervas do jardim –

a que cuida do jantar me levanta quando acontece dias como esse.

Calçou-me os sapatos e riu. Brincou com as bolinhas da roupa.

Perguntou sobre a estação. Colheu as amoras. Quis receita de geleias.

Cantou desajeitado na sorte da palavra. Sempre era o lugar daqui.

Ligou o rádio. Me olhou com olhos de serenata.

A intimidade contemplada. Desafiou-me ao riso.

Falou da geografia das horas.

– O tempo é o sinal de tudo. Tudo passa.

Mostrou-me o jardim. Era ali a direção da cura.

Fui.

Mariana Gouveia
273. Entre uma estação e a primavera

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272. Entre uma estação e a primavera

 

A previsão se corrompeu com o tempo. Havia uma nuvem de poeira dentro do vento. Solitária, a ave que a trazia nas asas a lenda de agouro tinha o abismo do amanhã dentro dos olhos. Era a estação das flores misturadas dentro de outra estação.
relembrou histórias da infância. Viajou nos dias e suspirou.
Era criança e ouvia a mãe contar sobre os telegramas que chegavam, logo depois que avistavam a ave no toco, no tronco de madeira da porteira, no telhado…

Tudo era culpa da ave – coitada – que apenas cumpria seu destino de voar.
Acontecia de que, por acaso, o aparecimento da ave se dar por ocasião dessas notícias ruins que o carteiro trazia num envelope estranho, diferente dos normais.
A notícia da morte do avô veio em um desses que trazia códigos e letras e depois disso, a mãe viveu em luto por anos a fio. A perda do tio querido e o acidente que levara a vida de pessoas que ela nem conhecia – e a mãe amava –  e que por isso se trancou no quarto e começou a maldizer a ave, que estivera pela manhã por ali.
Para ela, a culpa era do carteiro que surgia na estradinha que fazia curva ao lado do rio, com sua farda amarela e azul. Pensou em escrever uma carta pedindo para que ele não trouxesse mais esses envelopes, fora das cartas que aguardava com a ansiedade de quem esperava uma vida.
Hoje, lembrou -se do agouro da ave, logo quando, por fim, o ônibus e sua curva lhe fez ver a ave posta, solitária. O olho atento ao que nem era exato. O sangue a fluir dentro da veia.
Relembrou as estações misturadas dentro do dia. A urbanidade dos pássaros que logo pela manhã cantam no telhado das casas vizinhas e nos envelopes dos telegramas que nunca mais viu. E no olhar da menina que a fixou com o olhar de espanto e a chamou de bruxa.
Mariana Gouveia
272. Entre uma estação e a primavera

271. Entre uma estação e a primavera

 

Eu devia saber dessa coisa – tempo – espaço… Desses vãos que trazem ventos e  entram afastando os móveis de lugar. Sabia que seria difícil essa coisa da dor, logo depois que se desfazem os gestos de comida pronta na cozinha quando a noite chega e o relógio – tão silencioso durante o dia – ganha ecos de um tic – tac sem fim.
Eu devia saber que quando a primavera invadisse meu quintal e o cheiro de hortelã invadisse os quartos e a falta de ar não permitisse o sono eu ia chamar o nome dela e depois disso, a alma já poderia suportar tudo.
Mariana Gouveia
271. Entre uma estação e a primavera

269. Entre uma estação e a primavera

 

Devia ver as roupas secando no varal… O vento convidando para o lençol dançar e a ave, com seu jeito de asa sendo instante no momento. Era primavera dentro dos dias no quintal.

Na estante, os bibelôs trazem lembranças de um tempo que já não é – a vida desavisa os calendários – e a lua, incerta do caminho do sol muda o decanato em meu mapa astral desenhado a dedo no vidro da janela embaçada.

Ainda era ontem, menina eu e os lençóis de linho branco, bordados com monogramas em ponto cruz e a mãe, ali, ao pé do rio, a água a correr e o riso dos irmãos a brincarem de viver.

Devia ver as roupas secando no varal e quem sabe as suas histórias se parecessem com as minhas e a carta de um parente distante, com fotografias desbotadas de quando ainda era a menina de trança.

O olho perdido no espaço e a irmã a relembrar que ela já fora personagem de um filme e que abraçava o cão da infância com nome de Capuchinho – de tão peludo que era – e que toda cidade lotou o único espaço da cidade para ver ela.

A filha do pai que carregava o cão no colo e tinha olho de voo.

Devia ver as roupas no varal… ali, estendeu as lembranças de uma vida toda e até as cartas de amor.

 

Mariana Gouveia
269. Entre uma estação e a primavera

268. Entre uma estação e a primavera

 

” Um dia, a palavra amor será seu lema em tudo que fizer. Desde as coisas mais simples, até o mais sublime ato seu, terá amor e é nessa palavra que me encontrará”.
Mãe.


Hoje vivi o dia dentro do silêncio. A voz sumiu e de repente, a vida passou feito um filme.
Posso contar tudo que você me ensinou dentro da palavra amor e de quanto carrego em mim seus ensinamentos – tão poucos – diante do que me lembro e tão intensos que revejo nas cartas que guardo comigo.
Suas letras aos poucos desbotam perante os anos que foram escritas… em outras, estão bem feitas como a última que escreveu para uma rádio, onde pedia sua música favorita e que trago comigo.
A letra miúda falando da primavera e de como as flores dos ipês te encantava tanto.

35 anos é uma vida. 35 anos sem sua presença física. Eu poderia dizer como foram esses anos todos, mas ao mesmo tempo, dentro do meu silêncio, às vezes, é como se eu abrisse o baú e tivesse ali suas fotonovelas e as histórias de amor que tanto gostava ao toque das mãos.
Aquela menina ainda está aqui, e roubo a frase que a mocinha dizia… Relembro seus suspiros e a mudança da história quando havia algo mais profundo para que a gente entendesse sobre o amor.

Há 35 anos, a vida te levou. Não sei para onde. Sei que de alguma forma você vive. Vive na sua estação preferida e nas canções que gostava de ouvir. Vive no riso dos irmãos onde cada um tem algo de você. Vive e permanece minha mãe sempre, nos momentos que mais preciso… e permanece viva em meu coração, mãe.

Beijo

Sua filha

267. Entre uma estação e a primavera

 

Perto da janela desejou voltar no tempo, costurar pedaços pequenos de lembranças na memória.
Sentia que esquecia, às vezes, as sensações que viveu.

Tocou o céu com os olhos. Lembrou das chuvas. Mexeu nas anotações da mesa. Sentiu saudades. A flor, quase sol em giro, trazia à memória os poros. Miúdas flores como se fosse pele. Digitais.

No canto do lugar –  o cheiro – como um arqueólogo vasculhou antiguidades dentro dela. Revisitou estações noites inteiras.

Pele, toque, mão. Os sentidos aguçados no instante de amar.
Ela – artista –  quando a amo e desenho partituras em seu corpo.

Um modo de amar é assim. Na loucura que herdou.
Em silêncio e cansaço. Em guerra e paz.

Da pele – a palavra – de um dia que se abria e que não havia código a decifrar…
Era apenas ela e mais nada.

 

Mariana Gouveia
267. Entre uma estação e a primavera