204. da autonomia dos voos

 

Não teve missa, o domingo. A igreja fechou para reforma. A oração foi designada para as casas.
O vento veio fazer parte do momento.
A asa trouxe o número da sorte. Vai que muda a estação e a previsão do tempo erra.
Entende a certeza da vida. Ela é ilusão de sopro. Vai até onde ninguém pode alcançar.
Há ocasiões em que que é boa para voar.
O espelho mostra a verdade inversa. Busca a poesia na cura. O sossego no silêncio é quando o voo grita e as acrobacias no céu pedem pousos.
É utopia a certeza do espaço. O abismo é a pálpebra quando abre e o horizonte é a linha imaginária na superfície.
O dia destinado ao veneno não é adequado para rezas e uma esquadrilha faz movimentos no céu.As asas, do avesso, rastejam.
Alguém me pede para ser árvore quando em minha escolha sou folha.

Mariana Gouveia
204. da autonomia dos voos

178. da geografia das coisas

O campo dá certeza das coisas. O vento aqui traz a leveza da brisa e é cada coração em cada grito;
O céu tem asa em tudo quanto é canto e de noite, traz estrela em cada espacinho dele. Dá para ver as nebulosas e o caminho de Santiago… O Cruzeiro do Sul, bem ao sul vagueia no laguinho onde o cão se banha.
Os vaga – lumes oscilam perto do lago e ele – o cão –  corre atrás de algo que voa…
Aqui, tudo voa – ou quase – e quando a asa vira coração, vira folha – de dia – e de dia, o azul é deslumbrante! Parece vestido de festa e as folhas ficam rendadas para ficar a altura da beleza.
É tudo simples… a beleza da noite se esconde, porque fica tudo mais bonito, assim a olho nu.  O campo ao longe, o barulho da floresta e o riacho sempre espera para depois…
E depois, se transforma em sonho. E de sonho, em toda leveza de ser, eu sou.

Mariana Gouveia
178. da geografia das coisas

Sem saber o porquê

caminhou até onde o sol batia, deu três toques na madeira e a alisou suavemente, sentindo uma parte quente e outra fria. Naquele instante percebeu que não era diferente da casa, seu coração inflamava ou gelava, conforme o calor que recebia.

Joaquim Antonio

129. dos dias diferentes dos outros dias

129. dos dias diferentes dos outros dias

Mudou a rotina dos dias… abraçou a menina que pedia colo na madrugada. Alguém perdeu a alegria logo ali, entre a esquina de baixo e a caixa d’água.

A estrela gigante se ampliou no riso dela e o afago apenas foi automático.

Cantou as canções que lembrava da infância. Simulou esperança nas folhas e captou a ternura no olho de amor. As coisas miúdas criam fases de encantamentos.

Buscou histórias infinitas vividas nos dias. Desenhou nas mãos a minuta do sonho.

Às vezes, a vida tem coisas estranhas que escapam do normal

Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.

Mariana Gouveia
129. dos dias diferentes dos outros dias

Folheava as plantas.

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As folhas, as pétalas, os espinhos, os cheiros; salivava pontas de dedos ao revirá-las; eram brancas aos meus dedos, translúcidas ao sol.
Passeei um olhar abstrato no concreto do jardim, descansei os olhos sob a sombra fria dos bancos. Caminhei a disposição geométrica dos paralelepípedos contra a linearidade dos passos transeuntes.
Era pesada a ausência que a mim aguardava – enquanto eu a esperava.
Do outro lado dessa muralha e dessas grades, que isolam todo o jardim, marulha essa angústia nos degraus da cidade.
Com uma tesoura de papel tentei podar os muros; caíram a meus pés, descalços, os meus cabelos brancos, enquanto, em minhas mãos, o sangue verde de uma folhalâmina escorria em líteros gotejares: o sangue verde de uma folhalâmina se espalhava pelas páginas, enquanto, eu, em pontas de dedos, salivadas, folheava-as.

Alexandre Pedro
*imagem: Nishe

15. dos rituais das partidas

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Costura a morte na calçada em pontos miúdos. A vida é essa eterna troca de lugares. Cabia vontade nas decisões das coisas. Um coração marcava a luta de quem sofria. Era apenas a simbologia do toque.
Sabia que podia ser diferente e ainda assim, amada. O sol dourava a cortina das folhas. Tudo era branco no olho de quem chora. O riso do moço nunca mais será visto. Mas esteja onde estiver, ainda que diferente, rirá. – disso eu tenho certeza –
Ele compreendia a certeza do sorriso e cabia em motivos do abraço.
Carregava a vitória no nome e venceu a vida.

Mariana Gouveia
15. dos rituais das partidas

10. dos Rituais das Estações

10. dos rituais

Inaugurava em mim o outono

e a voracidade dos dias.

Mora dentro de mim as tuas digitais

e os caminhos que percorro em tua pele.

A folha que cai enquanto o corpo treme.
É preciso sobre(viver) dentro das estações.

 

Mariana Gouveia.
10. dos Rituais das Estações