Era

Era
.

era para falar de voos

mas não tinha asa

virou mensageira dos ventos

pousou chão

folha
era para ser árvore

mas não tinha raiz

virou jardim

pousou flor

pele
era para ser delicadeza

mas não tinha tato

virou tatuagem na pele dela

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
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Ela era todo sabor

tatuagem-coxa-notas-musicais

A porta entreaberta denunciava o que estaria por vir. Tocou lentamente nos sonhos. Era um costume antigo. Desnuda diante de si mesma, ela sentia-se bem. Enquanto tocava-se imaginando não imaginar nada, absorvia uma cumplicidade divina emanada pelo silêncio.

O vento estragara a possibilidade de um deleite ainda mais profundo na frente do espelho. Os pelos arrepiados pelo auto prazer reverenciavam, aos poucos, a pele sedosa que protegiam.

A calcinha estava bem confortável. Os detalhes em miçangas e um bordado especial nas extremidades do tecido davam um toque de requinte ao que se bastava.

Havia fogo escapando pela pele. Abaixou-se vagarosamente, Respirar.

Numa parte do sonho ela chegava. Havia ocupado a porta e o vulto era apenas reflexo sentido. Não apagou nenhuma luz, tampouco as chamas de si. Ao mesmo tempo em que experimentava o tato do prazer materializado em líquidos claros e consistentes, puxava o próprio cabelo, de maneira suave, punindo-se pelo desejo do orgasmo solitário mas junto com ela.

As cortinas iam de um lado para o outro. O vento que soprara rangendo a porta dança, ao passo que ela faz-se de violão: dedilha e escorrega, onde as notas musicais são expressas pelos gemidos tímidos em lá menor. Todo o corpo reage ao testemunhar seu momento sublime. Os suores percorriam as curvas suculentos e rebolavam sobre as curvas dela. Contração total dos músculos: cruzou as pernas tentando prender para dentro todo o gozo do qual fugia há anos. Não conseguiu.  Fora de si, ela continuava lá. Mas a inocência não estava mais nela.

Entorpecida por todo o ocorrido. Logo depois tomou o banho mais leve de sua vida, colocou a mesma calcinha  que usara, repôs o vestido de bolinhas verdes que ela adorava. Ela era todo sabor… E ainda é.

Mariana Gouveia

*imagem: Tumblr

Minha cena e a tua

minha cena e a tua

a tua pele que me queima a pele
a tua mão tatua
minha mão na sua

a tua boca molha minha boca
que me deixa louca
e insinua

a vontade plena de misturar minha cena
e a tua

o meu corpo pede
sente tua sede
transpira, inspira

prazer, enfim
eu me embriago
sobre meu desejo
sobre o teu beijo

e a asa leve flutua
onde o meu braço cabe
no abraço que só você sabe

assim de mim

Mariana Gouveia

Mostrou-me a tatuagem…

ondrash*imagem: Ondrash

Era pouco. Não bastava as três e a intenção real de se tingir inteira de poesia. Despiu-se toda para mim.
Relato incessante de vida. Bastidores.
Um encontro que reafirmava o que era. Livre.
Tão presa por fios do destino, não podia voar.
Contou-me o segredo das horas. Era hora.
Driblava a falta de coragem com a coragem de não querer mais e mesmo não a tendo nas mãos sabia.
Era a ela que pertencia

Mariana Gouveia