325. das fragilidades secretas

 

Já te contei que invento a rua de cima?
Que o silêncio quando ecoa, faz um barulho ensurdecedor?
Na rua de cima tem as meninas que cuidam da beleza. Coloca nos dedos, a cor. Tem cada nome o verniz que a moça de cabelos vermelhos desenha na unha.
É quase uma tentativa de colar jardim nas mãos.
A árvore que fica além da esquina, floresce. Lá, de noite, eu consigo ver as estrelas todas.
É quase vertical, o portal. Os muros altos e as trepadeiras invadem as casas com suas cores insanas.
Essa rua, inventei em detalhes.
As casas e suas cores vibrantes cheia se sons. E a vida acontece dentro dessa invenção.
A estação acontece dentro das horas.
As fotografias do instante sobre o muro. O voo dos pássaros a cruzar a linha imaginária que invento entre uma rua e outra.
Tudo ímpar. Os números da rua a combinar com as casas. A sorte desenhada nos trevos e a alma inventada na rua do nada.

Mariana Gouveia
325. das fragilidades secretas
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287. das infinitudes

 

A estação do frio invade a estação que é de flor

e o tempo é esse menino desavisado. Um poeta disse sobre isso de cair o inverno dentro da primavera. Até parece que o relógio voltou nos meses.
Colho no pé a fruta de vez – ainda nem era o tempo da colheita e o vento levou as folhas para além dos muros. Tudo gela em redor do quintal. os grafites rabiscados nos dedos não tem a arte das cores. São figuras imaginárias contadas em lendas que sabem sobre a numerologia. Conto a data dos seu dia e invento uma dimensão que intercala datas em comum.
O café na xícara a esfriar enquanto fico perdida e sem voz. Na rua de cima alguém canta uma canção sem ritmo. A vizinha narra a verdade das coisas que leu no jornal enquanto o vestido dança no varal sem o sol.
A sorte visita a menina três casas acima. A serenidade do dia vem na voz do moço que vende doces. Tem dias que vida parece um relicário na parede.

Mariana Gouveia
287. das infinitudes

284. das infinitudes

Há um oco no peito que grita o vazio rasgado de flor.
A mulher que lê o destino dos outros – e quase sempre erra o dela –  fala sobre mudança de hábito. Os búzios indicam o caminho da paciência. A maré muda dentro da estação. As ervas indicam a rota da cura. O jardim virado do avesso. Um monge atravessa a rua com olho para o nada. Alguém predestina a palavra da fé.

Depois disso, digo que aceito tudo: Que venha o destino com sua fome de lobo e pele de cordeiro! Aceito na boa os 40º na sombra e as flores murchas do meio dia.
A sorte chamando o inseto na cor. O trevo batendo à porta desejando favor. Os corredores pintados de cinza… armários sendo esvaziados e histórias dentro dos livros jogados em um quartinho qualquer.

A mudança é favorável ao novo – diz as cartas de tarô – e a linha da vida formando a letra do ontem. Tomara, vida que fosse hoje. Quem dera, sorte que fosse amanhã!

Mariana Gouveia
284. das infinitudes

158. da geografia das coisas

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Estendeu as mãos perdidas nas flores…
Desvendou o caminho da floresta na volta para casa.
Namorou verdadeiramente a lua.
Cabia onde aquele verbo que voava?
Continha onde a asa num grito?
Os medos bobos foram jogados pelos caminhos.
Alguém leu a noticia da sorte em um livro. Buscou o bilhete do realejo que tirou na infância.
O trevo marcava o coração dos bichos…
Pulou sete ondas imaginárias. Desejou a sorte de um amor tranquilo.
Viveu até onde a vida respirou saudade.

Mariana Gouveia
158. da geografia das coisas

124. dos dias diferentes dos outros dias

Contava a sorte nas asas

Viu estrelas cadentes riscar o céu.

Fez pedidos

para ilustrar a vontade de vida.

Acolheu risos em forma de fé.

Ganhou abraço quando a palavra perdida chegou.

Estendeu a mão para a mulher que conhece a sorte do dia.

Descobriu no trevo o caminho para seguir.

Mariana Gouveia
124. dos dias diferentes dos outros dias

102. dos dias aleatórios de Abril

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A ausência descrita na palma da mão. Foi ali, que aprendi a voar – a descobri novos horizontes – e concluí que o céu era o limite. O muro era o detalhe para aprender barreiras e superá-las.

Divago sobre o tempo e suas previsões loucas… o guarda-sorte na rotina dos dias…

Uma parede descreve poemas tortos… grafite louco de quem é lúcido por amar.

O livro aberto tem o perfume além dos mapas. O oceano é imenso em suas lonjuras no meu quintal. A maresia não conhece a asa da joaninha que baila aqui.

O milagre é aquilo que não é natural e era quase dizer que eu estava aqui enquanto você chorava.

A cal molhada escondia seu nome onde escrevi poemas… tudo era torto enquanto as tvs liam retratos perdidos na vida.

Alguém dizia que a sorte era adivinhada no primeiro sinal e eu não entendia o idioma de quem não conhecia a palavra amar.

Feliz no jogo… feliz onde você quiser ser.

Mariana Gouveia
101. dos dias aleatórios de Abril

25. dos Rituais do ar

Escrevia a sorte do dia. Desenhou o nome dela na asa que voou. Salvou inúmeras vezes o mesmo arquivo. Repetiu o mantra da cura. Abusou do corretor ortográfico. Aspirou o mesmo ar que lembrava ser dela. Difícil priorizar instantes. Ouviu relato do homem que sofre alucinações e ofereceu a ele a esperança dos dias.
Fazia cálculos dentro dos corações desenhados.
Rebatizou o inseto de todo dia. Era muita sorte para o elemento ar.
Buscou a pressão mais baixa na oração da folha enquanto os pássaros fugiam dela além mar.

Mariana Gouveia

25. dos Rituais do ar