Maria’s

Maria's

Sempre quando penso em Maria me vem a música de Milton Nascimento: “Maria, Maria. É um dom, uma certa magia”, porque acho que o nome tem mesmo uma certa magia.

Eu dizia que se, tivesse uma filha ela se chamaria Maria. Não tive filhas.Tive filhos.

Mas tive/tenho várias Marias na vida. A começar por minha irmã mais velha que se chama Maria de Fátima, (uma guerreira que só precisa acreditar que é, porque de fato é). Que me deu por tia-avó Maria Fernanda, e Manoela, uma doce alegria de viver.

E aí se desenrolam várias Maria’s em mim.

Ana Maria, minha avó materna, cheiro de vó e jeito selvagem de índia; Maria Ana, minha avó paterna que me lembro apenas das tranças longas e para mim ela era e continua sendo a Rapunzel das histórias.

Maria, minha tia, que para mim era inatingível, porque era chic demais aos meus olhos de menina. Nunca estava desarrumada. Parecia sempre preparada pra festa. Dava medo de abraçar e desmanchar o laço, o cabelo. Lembro-me do olhar doce e do jeito e terno. Faz tempo que não a vejo e ainda assim, sinto seu cheiro de tia no ar.

Maria José, uma professora adorada que me ensinou a generosidade nos olhos verdes/azuis, e que com a docilidade de mãe acolhia abraços e emoções ao falar de ciência.

Maria Edna, a jornalista de voz adocicada e mansa que eu sempre queria ouvir e rir junto. E que virou amiga do coração. E veio Marias colegas e veio Marias amigas, que de uma maneira especial eram preenchidas de magia em mim.

Maria Eudes, uma mulher exemplo, coragem e força, mas criança ao meu colo que eu queria sempre acalentar e indicar caminhos: é por aqui, é por ali…e juntas, dividimos o prazer do livros, das conversas longas, dos vai te catar meu e do cala a boca dela, num briga comigo*.

Maria Celma,onde o céu não cabia no olhar e ela queria sonhar além e como nuvem foi em mim.

Maria de Freitas,dona da sabedoria suprema, preletora e guru onde renovava minha fé na filosofia que sigo.

Maria do Carmo, de mansidão e jeito terno de mãe sempre e orientadora em momentos ruins.

Gisleida Maria, um poema de amiga.

Maria Cristina foi minha primeira paixão feminina. Era dos cabelos longos, boca da cor da manga bem madura e olhos de paixão ao mais terno olhar. Cheiro de céu, se é que céu cheira carinho. Vesti suas roupas (eu adorava aquele vestido lilás com capuz )rimos juntas, cantamos nas madrugadas contando as estrelas. Ela sempre contava uma a menos que eu pra eu ganhar, só de generosidade.E por generosidade me deu de presente Maria Júlia, sapeca, afilhada e de voz gostosa que me chama de madinha.

Maria do João que ele ama tanto e a queria retratada aqui. Maria, João te ama e eu agradecida por gostar de estar aqui.

Algumas denominações marcam as Marias. Coitadas, tão desmascaradas e aos olhos de quem vai atrás de um jogador de futebol, não importa que nome tenha, será Maria Chuteira.

Já as doidas por quem tem carros: Maria Gasolina e por aí, um monte de Marias que para retratar quem não tem opinião a tão afamada Maria vai com as outras.

Do jardins e da minha infância, a Maria-sem-vergonha a planta que eu sempre fingia ser o mal-me-quer e sempre dava bem me quer.

De admiração Maria, a mãe de Deus, que além da fé e dos que acreditam é Maria .

E minha Maria. Presente que veio. Pelas ondas, não sei. Maria. Simplesmente porque o som soa e combina e rima com a alegria que ela causa no meu olhar, na minha alma e no meu coração.

Alguém que te dá de presente o céu sem tirar ele do lugar. Que enfeita as minhas noites de estrelas, e elas bordadas, no céu.

Maria do Céu!

Eu murmuro.

Maria do amor. Do meu amor.

Das canções de Maria Gadu.

Das poesias de Maria Teresa Horta.

Das flores da Maria menina da esquina que vende flores pra viver.

E que ela diz rindo: Olha, uma Maria pra você.

Minha Maria que a voz de Maria Bethânea encanta e eu canto pra você.

Onde, eu sou, por sorte, Maria(ana), eu, juntas, eu e você.

E por todas as sortes Maria’s

únicas em muitas.

Maria, amo você.

Mariana Gouveia

Anúncios

O vidro revela sua aparência de ave.

O vidro revela sua aparência de ave.

As histórias se repetem no instante. Era ontem e eu ouvi uma igual.
Um homem me olha através do óculos
O diagnóstico de cura abre o riso da moça. Ela me olha com olho de abraço.
Já não há mais medo no gesto.
O elevador a leva mais leve.
Um pássaro canta na janela. O vidro revela sua aparência de ave.
Vozes ecoam entre os andares. E era dia de silêncio e não havia conexão.
Me distraí com confusões mentais. A chuva tinha cheiro de jardim.
E eu era só espera

Mariana Gouveia

Para quem voa é permitido o infinito

Para quem voa

“Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico.
Mas são poucos os que têm coragem de tentar.”
Rubem Alves.

Ouço a melodia das asas no meu quintal e transporto-me para a dimensão das lembranças.
Vou te contar como aconteceu esse amor alado e talvez só depois, entenderá que sou feita de asas.
O dia, era qualquer coisa entre 30 de um friorento junho e o dia primeiro de julho. A água no fogão de lenha sempre aquecida na espera de um nascimento rompante. Todos a postos na cozinha, na sala e o pai, entre a agonia de ouvir o choro ou o grito da Dona Fulô, dizendo nasceu – foi assim com todos os três primeiros filhos.
Lá fora, uma garoa fina os mantinham ali, próximos do fogão a lenha e na atividade de picar a galinha para o caldo.
O olhar da parteira era preocupado. Levava muito tempo entre dores, contrações e quietude. A cidade ficava um pouco longe. E foi ali, entre a espera e a busca de ervas para um banho ‘apressador’ de nascimento que ela viu as asas. Um movimento frenético de quem se afogava e tentava sair da poça.
Invocou os santos todos que conhecia e salvou a borboleta que debatia desesperada para voar.
Um voo meio desequilibrado e sem jeito e um pouso forçado na dobradiça da janela.
E ali, entre o espiar da borboleta colorida, depois de uma manhã inteira de esforços, eu nasci.
As mãos de Dona Fulô me trouxe ao mundo e como era costume presentear quem nascia com uma evocação ao universo, me foi oferecido o poder alado – como ela dizia – e que o espaço me recebesse com o dom divino de comandar as asas.
“ Que ela tenha o poder sobre o que voa, sempre em favor do bem e do acolhimento. Que ela seja acolhida pelo que voa, entre o pouso e a dimensão do vento. Que sobre ela venha a atitude de emanar coragem. Rogo a todos os deuses, declaro, oro e ofereço à ela a escolha de querer ou não quando assim tiver o discernimento para escolher, se prefere a asa ou o chão. E assim será! Oxalá! ”
Ouvi essas palavras minha infância toda e com o tempo fui me acostumando a ser a menina borboleta, porque incrivelmente onde quer que estivesse, surgia uma. Entre voos mirabolantes e crisálidas perfeitas. Eu amava o movimento das asas. E um dia, quando pude escolher, já nem precisava mais.
O nome já era ativo entre meus irmãos. E fizesse sol, ou chovesse, havia qualquer coisa de asa onde eu passasse.
Primeiro as borboletas e suas espécies mil.
Depois, vieram os pássaros e suas variantes. Depois, o sonho de voar com as palavras.
Muitos achavam estranho. Outros, admiravam. E eu cresci, entre a magia de uma fada que me deu poder de voar e um lugar que tinha um portal para a imaginação.
De repente, elas vieram para minha mão. Entre a confiança da espera e o encanto que me proporcionava e assim, mesmo depois de anos, continuei a ser a menina borboleta, onde as palavras voam em direção ao universo.
Relembrando tudo isso com meu pai, ele diz, entre um saudosismo quase infantil, na doce instância dos seus 81 anos que meus pés são fictícios, que na verdade, tenho asas. E para quem voa, é permitido o infinito.

E você, se permite voar?

Mariana Gouveia.
*texto integrante da Revista Plural Rubem – Scenarium Plural Editora

83. da estação das águas

As chuvas iam diminuindo a medida que a estação caminhava. Era uma preparação da natureza para o equilíbrio das coisas.

O sol demorava mais tempo no dia e às vezes, nem chovia.

O chão molhado enfeitava a singeleza do capim… O cogumelo era o adorno que a vida oferecia. Parecia o sorvete decorado que a gente via na propaganda da Revista e a gente comparava com o sabor do bolo de coco que a mãe fazia para o chá da tarde.

“Cuidado com as vontades tolas – a mãe dizia, ou mesmo a bá – elas podem envenenar o corpo ou a alma..”

Aprendi a reconhecer aos poucos os venenosos e me recordava sempre da frase repetida infinitas vezes – o que cura também pode matar – e isso me livrou de algumas enrascadas…

Aconteceu de uma vez cortar o pé em um pedaço de vidro jogado contra uma árvore por um dos irmãos. O corte imenso foi estancado, limpo e nele foi colocado o pó do cogumelo colhido logo além do quintal… No dia seguinte, já não havia resquícios de dores, nem de infecção.

Mas a lição ficara para a vida toda sobre o poder da cura e de como a natureza nos envolvia dentro de sua oferta.

Mariana Gouveia

83. da estação das águas

 

80. da estação das águas

Frutas.jpgTeve um dia desse tempo que não choveu. Tiramos os paletós de flanela para ensolarar e fomos todos ver as margens do rio por onde a enchente passou.
O cerrado apresentava-se em festa e estava em plena gestação de frutos. O murici carregadinho e as cores eram das mais variadas. O pé de mangaba quase beijava o chão. Enchíamos as nossas cestas enquanto meu pai repetia da generosidade da natureza, erguendo o chapéu para nos lembrar que a natureza era Deus.

O cheiro chamava a atenção das abelhas e o cajuzinho do cerrado, apesar de ser mais azedo era muito bom para o suco. A marmelada nos lembrava a música do Sítio do Pica Pau Amarelo e entoávamos a canção enquanto descobríamos uma planta nova que nascia.
No banhado, as araras faziam a algazarra de quem estava há um tempo longo sem bater as asas. Era tempo de sol e dia de catar os frutos enquanto a gente podia.
A colheita no fim do dia era imensa e dali saía doces em compotas que minha mãe fazia tão bem para adoçar as nossas vidas.

Mariana Gouveia
80. da estação das águas

Ela…

Ela

Ela era o tempo de nascer. Tal qual o horizonte alaranjando o céu ainda manhãzinha
-já havia sido noite a vida inteira – Quase.
Agora era o primeiro verbo e ainda assim cambaleante nas suas decisões.
Quando a vejo logo pela manhã, o dia começando a cantar em pássaros, penso em oração. Dessas de terço na mão. Rosário. Fé. Tudo.
Tenho uma fé inabalável nela. De acreditar mesmo. De sentir nas palavras, ali, a força.
Quando a vejo depois, mais tarde, sem as preces matinais, penso em sol nascendo.
Ou um lugar de flores descendo pela colina de seu corpo. Campo estendido alimentando a alma de beleza.
Depois disso, no resto do dia, eu só consigo pensar em paraíso.

Mariana Gouveia
*imagem: Alexi Lubomirski

 

das minhas memórias todas

das minhas memórias todas.jpg

seu nome escrito nos muros
sangrando as paredes
onde escrevo saudade
a palavra que não disse
o beijo que não deu
o abandono todo.
O sentir do teu toque na pele,
as borboletas a voar no estômago
das minhas memórias todas
o livro que não li em braile em tua pele
o abraço que não dei em seu dia
das minhas memórias todas, você.

Mariana Gouveia
*imagem: Rimel Neffati