e a vida há de escrever um dia lindo.

DSCF5304Sons de pássaros enfeitam a manhã
um cão late anunciando um gato que insiste em parar no portão.
Eu a descubro nas pétalas que recebem as gotas da chuva.
Abro os braços, abençoo o mundo e a vida há de escrever um dia lindo.

Mariana Gouveia

Erupção

eu,por teu amor

Eu me faria morna nos seus braços

quase brisa,

quase vento

pensamento,você

 

o arrepio provoca erupção

sinto mãos

prazer

 

imaginei a sua boca o tempo todo em mim

e imaginei a minha boca em você

e eu sentindo teu cheiro

a textura, a maciez

e a nudez

desejada

e emoções até então desconhecidas

e tua pele vibrando e voz sussurrando

descobrindo cada canto meu

invadindo cada espaço seu

sendo amada,querida.

 

Um universo de calma

provoca paz

me toca

me faz feliz demais.

 

Mariana Gouveia

Querer

querer

eu te queria nas minhas mãos
como um vento cálido
quase pluma
suavidade ingênua,
gota suprema da vontade louca

onde o debrum de minha alma
cose à tua e assim nos tornamos únicas

eu te queria escarlate, branca

de todas as cores
e de nuances todas
onde a pele morena se acentuasse ao veludo da tua
pelos, braços, mãos
e eu, desejo

onde eu te descobriria nos meus sabores
na sensação úmida da língua rosada
e tua intimidade ruiva
minha

e eu, plena de ti.

Mariana Gouveia

e assim…

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Passei quase a noite inteira refazendo roteiros de tudo que tinha vivido. Ajeitei os quadros. Peguei a xícara de café. Aquela mesma que ela bebia o café da manhã. Contei as estrelas no céu e percebi que o número é o mesmo daquele dia. Era um revoar de borboletas no coração. Milhões de emoções a percorrer a veia e a alegria plena de saber dela ali.

Tão distante mas se eu levantasse a mão poderia tocá-la.

E essa sensação era quase como que pegar fogo. Ela gosta de me ver incendiada.

Ela tem um jeito apressado pra decidir as coisas e decidiu.E veio e ficou e foi…Com algumas perguntas que eu não poderia responder.Com algumas respostas que eu não saberia escutar.

A bagunça dentro de mim é culpa dela. Ocupa os espaços plenos do respirar. Resigno em comer saudades e em poucos minutos a risada dela me leva ao céu.O mesmo céu que conto agora as estrelas…

E em cada amanhecer pinta de um alaranjado brilhante tudo que toco para assim como o poema de Adélia Prado, constantemente amanhecer nela. Ela me impressiona nos gestos e no modo de gostar. Eu a desenho em tudo que toco. Nas janelas do ônibus, nas portas, nas mesas, na comida do prato, nas nuvens e no amor que sinto por ela.

E assim,cultivo a esperança.

 

Mariana Gouveia

Inquilina

Inquilina
Foi me visitar,
como se fosse casa…
asa,
foi em mim: voar como
se árvore fosse,
moradia
Foi como se eu fosse chuva.
Água.

E como se eu fosse sede
me bebeu…
– e na imensidão do mundo, eu,
peregrina


Foi me visitar,
como se eu fosse jardim
aí, de mim!

Uma inquilina mora em mim.

Mariana Gouveia

És

És
És a asa secreta do meu voo
o pouso que aconchega minha alma

a calma que contorna minha paz.

a solidão que acompanha meu espaço.
És.

Não sei se é ninho
se é vento
miragem nos olhos que te alcança.
És

Corpo que habita a essência
e a esperança livre das manhãs.
Junto de ti, o espaço infinito de voar.

Mariana Gouveia.

Maria’s

Maria's

Sempre quando penso em Maria me vem a música de Milton Nascimento: “Maria, Maria. É um dom, uma certa magia”, porque acho que o nome tem mesmo uma certa magia.

Eu dizia que se, tivesse uma filha ela se chamaria Maria. Não tive filhas.Tive filhos.

Mas tive/tenho várias Marias na vida. A começar por minha irmã mais velha que se chama Maria de Fátima, (uma guerreira que só precisa acreditar que é, porque de fato é). Que me deu por tia-avó Maria Fernanda, e Manoela, uma doce alegria de viver.

E aí se desenrolam várias Maria’s em mim.

Ana Maria, minha avó materna, cheiro de vó e jeito selvagem de índia; Maria Ana, minha avó paterna que me lembro apenas das tranças longas e para mim ela era e continua sendo a Rapunzel das histórias.

Maria, minha tia, que para mim era inatingível, porque era chic demais aos meus olhos de menina. Nunca estava desarrumada. Parecia sempre preparada pra festa. Dava medo de abraçar e desmanchar o laço, o cabelo. Lembro-me do olhar doce e do jeito e terno. Faz tempo que não a vejo e ainda assim, sinto seu cheiro de tia no ar.

Maria José, uma professora adorada que me ensinou a generosidade nos olhos verdes/azuis, e que com a docilidade de mãe acolhia abraços e emoções ao falar de ciência.

Maria Edna, a jornalista de voz adocicada e mansa que eu sempre queria ouvir e rir junto. E que virou amiga do coração. E veio Marias colegas e veio Marias amigas, que de uma maneira especial eram preenchidas de magia em mim.

Maria Eudes, uma mulher exemplo, coragem e força, mas criança ao meu colo que eu queria sempre acalentar e indicar caminhos: é por aqui, é por ali…e juntas, dividimos o prazer do livros, das conversas longas, dos vai te catar meu e do cala a boca dela, num briga comigo*.

Maria Celma,onde o céu não cabia no olhar e ela queria sonhar além e como nuvem foi em mim.

Maria de Freitas,dona da sabedoria suprema, preletora e guru onde renovava minha fé na filosofia que sigo.

Maria do Carmo, de mansidão e jeito terno de mãe sempre e orientadora em momentos ruins.

Gisleida Maria, um poema de amiga.

Maria Cristina foi minha primeira paixão feminina. Era dos cabelos longos, boca da cor da manga bem madura e olhos de paixão ao mais terno olhar. Cheiro de céu, se é que céu cheira carinho. Vesti suas roupas (eu adorava aquele vestido lilás com capuz )rimos juntas, cantamos nas madrugadas contando as estrelas. Ela sempre contava uma a menos que eu pra eu ganhar, só de generosidade.E por generosidade me deu de presente Maria Júlia, sapeca, afilhada e de voz gostosa que me chama de madinha.

Maria do João que ele ama tanto e a queria retratada aqui. Maria, João te ama e eu agradecida por gostar de estar aqui.

Algumas denominações marcam as Marias. Coitadas, tão desmascaradas e aos olhos de quem vai atrás de um jogador de futebol, não importa que nome tenha, será Maria Chuteira.

Já as doidas por quem tem carros: Maria Gasolina e por aí, um monte de Marias que para retratar quem não tem opinião a tão afamada Maria vai com as outras.

Do jardins e da minha infância, a Maria-sem-vergonha a planta que eu sempre fingia ser o mal-me-quer e sempre dava bem me quer.

De admiração Maria, a mãe de Deus, que além da fé e dos que acreditam é Maria .

E minha Maria. Presente que veio. Pelas ondas, não sei. Maria. Simplesmente porque o som soa e combina e rima com a alegria que ela causa no meu olhar, na minha alma e no meu coração.

Alguém que te dá de presente o céu sem tirar ele do lugar. Que enfeita as minhas noites de estrelas, e elas bordadas, no céu.

Maria do Céu!

Eu murmuro.

Maria do amor. Do meu amor.

Das canções de Maria Gadu.

Das poesias de Maria Teresa Horta.

Das flores da Maria menina da esquina que vende flores pra viver.

E que ela diz rindo: Olha, uma Maria pra você.

Minha Maria que a voz de Maria Bethânea encanta e eu canto pra você.

Onde, eu sou, por sorte, Maria(ana), eu, juntas, eu e você.

E por todas as sortes Maria’s

únicas em muitas.

Maria, amo você.

Mariana Gouveia