e assim…

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Passei quase a noite inteira refazendo roteiros de tudo que tinha vivido. Ajeitei os quadros. Peguei a xícara de café. Aquela mesma que ela bebia o café da manhã. Contei as estrelas no céu e percebi que o número é o mesmo daquele dia. Era um revoar de borboletas no coração. Milhões de emoções a percorrer a veia e a alegria plena de saber dela ali.

Tão distante mas se eu levantasse a mão poderia tocá-la.

E essa sensação era quase como que pegar fogo. Ela gosta de me ver incendiada.

Ela tem um jeito apressado pra decidir as coisas e decidiu.E veio e ficou e foi…Com algumas perguntas que eu não poderia responder.Com algumas respostas que eu não saberia escutar.

A bagunça dentro de mim é culpa dela. Ocupa os espaços plenos do respirar. Resigno em comer saudades e em poucos minutos a risada dela me leva ao céu.O mesmo céu que conto agora as estrelas…

E em cada amanhecer pinta de um alaranjado brilhante tudo que toco para assim como o poema de Adélia Prado, constantemente amanhecer nela. Ela me impressiona nos gestos e no modo de gostar. Eu a desenho em tudo que toco. Nas janelas do ônibus, nas portas, nas mesas, na comida do prato, nas nuvens e no amor que sinto por ela.

E assim,cultivo a esperança.

 

Mariana Gouveia

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Inquilina

Inquilina
Foi me visitar,
como se fosse casa…
asa,
foi em mim: voar como
se árvore fosse,
moradia
Foi como se eu fosse chuva.
Água.

E como se eu fosse sede
me bebeu…
– e na imensidão do mundo, eu,
peregrina


Foi me visitar,
como se eu fosse jardim
aí, de mim!

Uma inquilina mora em mim.

Mariana Gouveia

És

És
És a asa secreta do meu voo
o pouso que aconchega minha alma

a calma que contorna minha paz.

a solidão que acompanha meu espaço.
És.

Não sei se é ninho
se é vento
miragem nos olhos que te alcança.
És

Corpo que habita a essência
e a esperança livre das manhãs.
Junto de ti, o espaço infinito de voar.

Mariana Gouveia.

Maria’s

Maria's

Sempre quando penso em Maria me vem a música de Milton Nascimento: “Maria, Maria. É um dom, uma certa magia”, porque acho que o nome tem mesmo uma certa magia.

Eu dizia que se, tivesse uma filha ela se chamaria Maria. Não tive filhas.Tive filhos.

Mas tive/tenho várias Marias na vida. A começar por minha irmã mais velha que se chama Maria de Fátima, (uma guerreira que só precisa acreditar que é, porque de fato é). Que me deu por tia-avó Maria Fernanda, e Manoela, uma doce alegria de viver.

E aí se desenrolam várias Maria’s em mim.

Ana Maria, minha avó materna, cheiro de vó e jeito selvagem de índia; Maria Ana, minha avó paterna que me lembro apenas das tranças longas e para mim ela era e continua sendo a Rapunzel das histórias.

Maria, minha tia, que para mim era inatingível, porque era chic demais aos meus olhos de menina. Nunca estava desarrumada. Parecia sempre preparada pra festa. Dava medo de abraçar e desmanchar o laço, o cabelo. Lembro-me do olhar doce e do jeito e terno. Faz tempo que não a vejo e ainda assim, sinto seu cheiro de tia no ar.

Maria José, uma professora adorada que me ensinou a generosidade nos olhos verdes/azuis, e que com a docilidade de mãe acolhia abraços e emoções ao falar de ciência.

Maria Edna, a jornalista de voz adocicada e mansa que eu sempre queria ouvir e rir junto. E que virou amiga do coração. E veio Marias colegas e veio Marias amigas, que de uma maneira especial eram preenchidas de magia em mim.

Maria Eudes, uma mulher exemplo, coragem e força, mas criança ao meu colo que eu queria sempre acalentar e indicar caminhos: é por aqui, é por ali…e juntas, dividimos o prazer do livros, das conversas longas, dos vai te catar meu e do cala a boca dela, num briga comigo*.

Maria Celma,onde o céu não cabia no olhar e ela queria sonhar além e como nuvem foi em mim.

Maria de Freitas,dona da sabedoria suprema, preletora e guru onde renovava minha fé na filosofia que sigo.

Maria do Carmo, de mansidão e jeito terno de mãe sempre e orientadora em momentos ruins.

Gisleida Maria, um poema de amiga.

Maria Cristina foi minha primeira paixão feminina. Era dos cabelos longos, boca da cor da manga bem madura e olhos de paixão ao mais terno olhar. Cheiro de céu, se é que céu cheira carinho. Vesti suas roupas (eu adorava aquele vestido lilás com capuz )rimos juntas, cantamos nas madrugadas contando as estrelas. Ela sempre contava uma a menos que eu pra eu ganhar, só de generosidade.E por generosidade me deu de presente Maria Júlia, sapeca, afilhada e de voz gostosa que me chama de madinha.

Maria do João que ele ama tanto e a queria retratada aqui. Maria, João te ama e eu agradecida por gostar de estar aqui.

Algumas denominações marcam as Marias. Coitadas, tão desmascaradas e aos olhos de quem vai atrás de um jogador de futebol, não importa que nome tenha, será Maria Chuteira.

Já as doidas por quem tem carros: Maria Gasolina e por aí, um monte de Marias que para retratar quem não tem opinião a tão afamada Maria vai com as outras.

Do jardins e da minha infância, a Maria-sem-vergonha a planta que eu sempre fingia ser o mal-me-quer e sempre dava bem me quer.

De admiração Maria, a mãe de Deus, que além da fé e dos que acreditam é Maria .

E minha Maria. Presente que veio. Pelas ondas, não sei. Maria. Simplesmente porque o som soa e combina e rima com a alegria que ela causa no meu olhar, na minha alma e no meu coração.

Alguém que te dá de presente o céu sem tirar ele do lugar. Que enfeita as minhas noites de estrelas, e elas bordadas, no céu.

Maria do Céu!

Eu murmuro.

Maria do amor. Do meu amor.

Das canções de Maria Gadu.

Das poesias de Maria Teresa Horta.

Das flores da Maria menina da esquina que vende flores pra viver.

E que ela diz rindo: Olha, uma Maria pra você.

Minha Maria que a voz de Maria Bethânea encanta e eu canto pra você.

Onde, eu sou, por sorte, Maria(ana), eu, juntas, eu e você.

E por todas as sortes Maria’s

únicas em muitas.

Maria, amo você.

Mariana Gouveia

O vidro revela sua aparência de ave.

O vidro revela sua aparência de ave.

As histórias se repetem no instante. Era ontem e eu ouvi uma igual.
Um homem me olha através do óculos
O diagnóstico de cura abre o riso da moça. Ela me olha com olho de abraço.
Já não há mais medo no gesto.
O elevador a leva mais leve.
Um pássaro canta na janela. O vidro revela sua aparência de ave.
Vozes ecoam entre os andares. E era dia de silêncio e não havia conexão.
Me distraí com confusões mentais. A chuva tinha cheiro de jardim.
E eu era só espera

Mariana Gouveia

Para quem voa é permitido o infinito

Para quem voa

“Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico.
Mas são poucos os que têm coragem de tentar.”
Rubem Alves.

Ouço a melodia das asas no meu quintal e transporto-me para a dimensão das lembranças.
Vou te contar como aconteceu esse amor alado e talvez só depois, entenderá que sou feita de asas.
O dia, era qualquer coisa entre 30 de um friorento junho e o dia primeiro de julho. A água no fogão de lenha sempre aquecida na espera de um nascimento rompante. Todos a postos na cozinha, na sala e o pai, entre a agonia de ouvir o choro ou o grito da Dona Fulô, dizendo nasceu – foi assim com todos os três primeiros filhos.
Lá fora, uma garoa fina os mantinham ali, próximos do fogão a lenha e na atividade de picar a galinha para o caldo.
O olhar da parteira era preocupado. Levava muito tempo entre dores, contrações e quietude. A cidade ficava um pouco longe. E foi ali, entre a espera e a busca de ervas para um banho ‘apressador’ de nascimento que ela viu as asas. Um movimento frenético de quem se afogava e tentava sair da poça.
Invocou os santos todos que conhecia e salvou a borboleta que debatia desesperada para voar.
Um voo meio desequilibrado e sem jeito e um pouso forçado na dobradiça da janela.
E ali, entre o espiar da borboleta colorida, depois de uma manhã inteira de esforços, eu nasci.
As mãos de Dona Fulô me trouxe ao mundo e como era costume presentear quem nascia com uma evocação ao universo, me foi oferecido o poder alado – como ela dizia – e que o espaço me recebesse com o dom divino de comandar as asas.
“ Que ela tenha o poder sobre o que voa, sempre em favor do bem e do acolhimento. Que ela seja acolhida pelo que voa, entre o pouso e a dimensão do vento. Que sobre ela venha a atitude de emanar coragem. Rogo a todos os deuses, declaro, oro e ofereço à ela a escolha de querer ou não quando assim tiver o discernimento para escolher, se prefere a asa ou o chão. E assim será! Oxalá! ”
Ouvi essas palavras minha infância toda e com o tempo fui me acostumando a ser a menina borboleta, porque incrivelmente onde quer que estivesse, surgia uma. Entre voos mirabolantes e crisálidas perfeitas. Eu amava o movimento das asas. E um dia, quando pude escolher, já nem precisava mais.
O nome já era ativo entre meus irmãos. E fizesse sol, ou chovesse, havia qualquer coisa de asa onde eu passasse.
Primeiro as borboletas e suas espécies mil.
Depois, vieram os pássaros e suas variantes. Depois, o sonho de voar com as palavras.
Muitos achavam estranho. Outros, admiravam. E eu cresci, entre a magia de uma fada que me deu poder de voar e um lugar que tinha um portal para a imaginação.
De repente, elas vieram para minha mão. Entre a confiança da espera e o encanto que me proporcionava e assim, mesmo depois de anos, continuei a ser a menina borboleta, onde as palavras voam em direção ao universo.
Relembrando tudo isso com meu pai, ele diz, entre um saudosismo quase infantil, na doce instância dos seus 81 anos que meus pés são fictícios, que na verdade, tenho asas. E para quem voa, é permitido o infinito.

E você, se permite voar?

Mariana Gouveia.
*texto integrante da Revista Plural Rubem – Scenarium Plural Editora

83. da estação das águas

As chuvas iam diminuindo a medida que a estação caminhava. Era uma preparação da natureza para o equilíbrio das coisas.

O sol demorava mais tempo no dia e às vezes, nem chovia.

O chão molhado enfeitava a singeleza do capim… O cogumelo era o adorno que a vida oferecia. Parecia o sorvete decorado que a gente via na propaganda da Revista e a gente comparava com o sabor do bolo de coco que a mãe fazia para o chá da tarde.

“Cuidado com as vontades tolas – a mãe dizia, ou mesmo a bá – elas podem envenenar o corpo ou a alma..”

Aprendi a reconhecer aos poucos os venenosos e me recordava sempre da frase repetida infinitas vezes – o que cura também pode matar – e isso me livrou de algumas enrascadas…

Aconteceu de uma vez cortar o pé em um pedaço de vidro jogado contra uma árvore por um dos irmãos. O corte imenso foi estancado, limpo e nele foi colocado o pó do cogumelo colhido logo além do quintal… No dia seguinte, já não havia resquícios de dores, nem de infecção.

Mas a lição ficara para a vida toda sobre o poder da cura e de como a natureza nos envolvia dentro de sua oferta.

Mariana Gouveia

83. da estação das águas