Para quem voa é permitido o infinito

Para quem voa

“Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico.
Mas são poucos os que têm coragem de tentar.”
Rubem Alves.

Ouço a melodia das asas no meu quintal e transporto-me para a dimensão das lembranças.
Vou te contar como aconteceu esse amor alado e talvez só depois, entenderá que sou feita de asas.
O dia, era qualquer coisa entre 30 de um friorento junho e o dia primeiro de julho. A água no fogão de lenha sempre aquecida na espera de um nascimento rompante. Todos a postos na cozinha, na sala e o pai, entre a agonia de ouvir o choro ou o grito da Dona Fulô, dizendo nasceu – foi assim com todos os três primeiros filhos.
Lá fora, uma garoa fina os mantinham ali, próximos do fogão a lenha e na atividade de picar a galinha para o caldo.
O olhar da parteira era preocupado. Levava muito tempo entre dores, contrações e quietude. A cidade ficava um pouco longe. E foi ali, entre a espera e a busca de ervas para um banho ‘apressador’ de nascimento que ela viu as asas. Um movimento frenético de quem se afogava e tentava sair da poça.
Invocou os santos todos que conhecia e salvou a borboleta que debatia desesperada para voar.
Um voo meio desequilibrado e sem jeito e um pouso forçado na dobradiça da janela.
E ali, entre o espiar da borboleta colorida, depois de uma manhã inteira de esforços, eu nasci.
As mãos de Dona Fulô me trouxe ao mundo e como era costume presentear quem nascia com uma evocação ao universo, me foi oferecido o poder alado – como ela dizia – e que o espaço me recebesse com o dom divino de comandar as asas.
“ Que ela tenha o poder sobre o que voa, sempre em favor do bem e do acolhimento. Que ela seja acolhida pelo que voa, entre o pouso e a dimensão do vento. Que sobre ela venha a atitude de emanar coragem. Rogo a todos os deuses, declaro, oro e ofereço à ela a escolha de querer ou não quando assim tiver o discernimento para escolher, se prefere a asa ou o chão. E assim será! Oxalá! ”
Ouvi essas palavras minha infância toda e com o tempo fui me acostumando a ser a menina borboleta, porque incrivelmente onde quer que estivesse, surgia uma. Entre voos mirabolantes e crisálidas perfeitas. Eu amava o movimento das asas. E um dia, quando pude escolher, já nem precisava mais.
O nome já era ativo entre meus irmãos. E fizesse sol, ou chovesse, havia qualquer coisa de asa onde eu passasse.
Primeiro as borboletas e suas espécies mil.
Depois, vieram os pássaros e suas variantes. Depois, o sonho de voar com as palavras.
Muitos achavam estranho. Outros, admiravam. E eu cresci, entre a magia de uma fada que me deu poder de voar e um lugar que tinha um portal para a imaginação.
De repente, elas vieram para minha mão. Entre a confiança da espera e o encanto que me proporcionava e assim, mesmo depois de anos, continuei a ser a menina borboleta, onde as palavras voam em direção ao universo.
Relembrando tudo isso com meu pai, ele diz, entre um saudosismo quase infantil, na doce instância dos seus 81 anos que meus pés são fictícios, que na verdade, tenho asas. E para quem voa, é permitido o infinito.

E você, se permite voar?

Mariana Gouveia.
*texto integrante da Revista Plural Rubem – Scenarium Plural Editora

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83. da estação das águas

As chuvas iam diminuindo a medida que a estação caminhava. Era uma preparação da natureza para o equilíbrio das coisas.

O sol demorava mais tempo no dia e às vezes, nem chovia.

O chão molhado enfeitava a singeleza do capim… O cogumelo era o adorno que a vida oferecia. Parecia o sorvete decorado que a gente via na propaganda da Revista e a gente comparava com o sabor do bolo de coco que a mãe fazia para o chá da tarde.

“Cuidado com as vontades tolas – a mãe dizia, ou mesmo a bá – elas podem envenenar o corpo ou a alma..”

Aprendi a reconhecer aos poucos os venenosos e me recordava sempre da frase repetida infinitas vezes – o que cura também pode matar – e isso me livrou de algumas enrascadas…

Aconteceu de uma vez cortar o pé em um pedaço de vidro jogado contra uma árvore por um dos irmãos. O corte imenso foi estancado, limpo e nele foi colocado o pó do cogumelo colhido logo além do quintal… No dia seguinte, já não havia resquícios de dores, nem de infecção.

Mas a lição ficara para a vida toda sobre o poder da cura e de como a natureza nos envolvia dentro de sua oferta.

Mariana Gouveia

83. da estação das águas

 

80. da estação das águas

Frutas.jpgTeve um dia desse tempo que não choveu. Tiramos os paletós de flanela para ensolarar e fomos todos ver as margens do rio por onde a enchente passou.
O cerrado apresentava-se em festa e estava em plena gestação de frutos. O murici carregadinho e as cores eram das mais variadas. O pé de mangaba quase beijava o chão. Enchíamos as nossas cestas enquanto meu pai repetia da generosidade da natureza, erguendo o chapéu para nos lembrar que a natureza era Deus.

O cheiro chamava a atenção das abelhas e o cajuzinho do cerrado, apesar de ser mais azedo era muito bom para o suco. A marmelada nos lembrava a música do Sítio do Pica Pau Amarelo e entoávamos a canção enquanto descobríamos uma planta nova que nascia.
No banhado, as araras faziam a algazarra de quem estava há um tempo longo sem bater as asas. Era tempo de sol e dia de catar os frutos enquanto a gente podia.
A colheita no fim do dia era imensa e dali saía doces em compotas que minha mãe fazia tão bem para adoçar as nossas vidas.

Mariana Gouveia
80. da estação das águas

Ela…

Ela

Ela era o tempo de nascer. Tal qual o horizonte alaranjando o céu ainda manhãzinha
-já havia sido noite a vida inteira – Quase.
Agora era o primeiro verbo e ainda assim cambaleante nas suas decisões.
Quando a vejo logo pela manhã, o dia começando a cantar em pássaros, penso em oração. Dessas de terço na mão. Rosário. Fé. Tudo.
Tenho uma fé inabalável nela. De acreditar mesmo. De sentir nas palavras, ali, a força.
Quando a vejo depois, mais tarde, sem as preces matinais, penso em sol nascendo.
Ou um lugar de flores descendo pela colina de seu corpo. Campo estendido alimentando a alma de beleza.
Depois disso, no resto do dia, eu só consigo pensar em paraíso.

Mariana Gouveia
*imagem: Alexi Lubomirski

 

das minhas memórias todas

das minhas memórias todas.jpg

seu nome escrito nos muros
sangrando as paredes
onde escrevo saudade
a palavra que não disse
o beijo que não deu
o abandono todo.
O sentir do teu toque na pele,
as borboletas a voar no estômago
das minhas memórias todas
o livro que não li em braile em tua pele
o abraço que não dei em seu dia
das minhas memórias todas, você.

Mariana Gouveia
*imagem: Rimel Neffati

Era tudo escuro no corredor cinza.

era-tudo-escuro-no-corredor-cinza

Cheirava a ossos a nitidez da tarde.
Ela me deu um riso torto enquanto eu esperava.
A solidão entre as pessoas é desigual.
Vivo o silêncio dos gritos.
Era pouco o dia para tanta gente.
A moça de azul desafiou as dores que eu tinha.
A lucidez se perdeu no cesto de frutas e não havia copo para sede.
E de repente tudo perdeu o sentido.
Era estação das flores quando eu acordei e você vivia o inverno.

Mariana Gouveia
*imagem: Lauren Treece

51. das palavras das cartas

Daqui de onde estou eu avistei a chuva. Lá para os lados do sul troveja. Queria te falar que embora pareça que vai chover muito – devido aos raios e trovões – o sol teima em insistir por aqui.

Parece o caminho do ouro, quando bate na flor e toca uma canção que fala sobre o sol.

Adoro essas nuances do tempo. Perco horas mergulhando no frio desse lado daí, enquanto aqui, a moça do tempo diz que pode chover a qualquer momento.

Poderia descrever o arco-íris que se insinua em minha janela… Mas a poesia se perderia dentro das palavras… A flor percebe o nome que chamo enquanto a vida minúscula busca abrigo. Já vai chover…

Sei que pode imaginar e com isso, traço delicadeza em sua boca no instante que a magia acontece.
Mariana Gouveia

51. das palavras das cartas