219. das impressões do dia seguinte


A estação, dentro da palavra
A lua, em infinita vezes, encanto.
A realidade é essa coisa descrita de como foi quando o homem pisou na lua.
O rastro a ecoar poesia: a terra, é azul – o homem do espaço disse – e depois, em um poema, o poeta disse: a folha é verde e a água, transparente –  e ninguém me explicou o que era a mistura de tudo.
Amanhã, ela será poesia, na palavras de quem enxergou razão, dentro da beleza da rua, iluminada pela lua.
Quando a confusão de sentidos e a vontade de ser dentro do outro, eclipsei na palavra tato.
Quase toque, quase obscuro o sentimento do que não se pode explicar.
A solidão é a mais crua das verdades e enquanto isso, a natureza se veste e o mundo, se torna um lugar comum porque o céu se torna algo espetacular.

Mariana Gouveia
219. das impressões do dia seguinte

191. da autonomia dos voos

 

Era um vento na janela e não era ficção.
A lua, pendente –  quase um rasgo no céu – cheguei a imaginar que fosse o vento a brincar com ela.
Tão certa de seu poder sobre escorpião rompeu as marés…
Fez o cabelo diminuir – o pai avisou para respeitar a fase – e secou o pé de pimenta rosa. Mas fez com que os brincos de princesa floriram todos de uma vez só.
Quase uma afronta, o vento, a balançar as flores em seu vaso…
E ela, lá, vigilante diurna desse vento atrevido vindo do sul e faz com seu perfume incomode mais dentro das minhas lembranças, do que a lua, tão senhora de si e caminhante no céu.
Quase um delírio a ave em seu verbo de voo a inspirar poemas de amor quando pousa em posição contrária ao vento.

Mariana Gouveia
191. da autonomia dos voos

161. da geografia das coisas

 

A solidão é uma faca atravessando a garganta, o grito sufocado na dor.
As paredes fechando em todas as portas e o vento trazendo as folhas para o quintal.
Tem noite que o vazio atravessa a madrugada e o perfume das flores no jardim é apenas o aviso da passagem da lua pela décima casa astral.
A meteorologia erra a previsão e o uivo do cão na rua de cima faz lembrar das coisas da infância – quando o mundo cabia apenas até onde a vista alcançava.
Uma data me traz a presença de um menino que voou. O cheiro a exalar presenças de quem já partiu.
A vida é esse nocaute duro no peito e lua a embrenhar lembranças do santo, vontades de céu em noite de lua…

Mariana Gouveia
161. da geografia das coisas

136. dos dias diferentes dos outros dias

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de perfil a história é mais triste

os corredores ficam mais compridos e as janelas laterais nem conhecem a canção que fala dela…

na sala de estar, os mortos em porta retratos ao lado das porcelanas empoeiradas e os vasos de flores de plásticos a murcharem em promessas sem perfume.

de perfil, a moça de branco alonga a saia e os sapatos fazem barulho dentro das horas.

são sete portas até o alívio final. A veia a sangrar pela cura – que matava, se deixasse –  que pingava em conta-gotas no refrão do tic – tac do relógio na parede cinza ocre ou ocre apagado sem cor…

de perfil, os dias acontecem diferentes dos outros dias e a fase da lua inicia o ritual de esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
136. dos dias diferentes dos outros dias

122. dos dias diferentes dos outros dias

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em sua melhor fase queriam exorcizá-la
colaram nuvens ao seu redor
criaram eclipses, efeitos solares
em sua melhor noite
Inverteram o céu
tão lunar ela era
apontaram-na como bruxa – um caso perdido
que só um ritual complexo poderia curá-la

Quando cheia, ela cansou de tudo isso
lambeu os dedos
e os queimou na fogueira que ardia dentro dela.

Mariana Gouveia
122. dos dias diferentes dos outros dias

110. dos aleatórios de Abril

Havia roteiros de lua no quintal. Um vaga lume invadiu a sala e chamou a atenção do cão – logo ele que gosta de correr atrás da luz da lanterninha vendida nos ônibus – foi um achado! Teve de contê-lo e socorrer aquela luz que voava.

Procurava no céu alguma coisa que estivesse escrito nas estrelas. Elas desenham o caminho de Santiago – alguém disse um dia – desde então, lembra-se disso quando olha para o céu em noite de lua e estrelas. Depois disso, sonha em fazer o caminho de Santiago e já desenhou o mapa quinhentas vezes mentalmente e outras quinhentas vezes no papel. De tão lindo que ficou, pensou em bordar.

Olha para o Cruzeiro do Sul e vê Vênus quase na ponta da Lua – um piercing ou um riso disfarçado de Lua –  no quadrante leste do céu.

Relembra coisas da infância. Das regras que seguia em relação à lua. O cabelo – sob recomendação séria da mãe – só poderia ser cortado na lua cheia. Era assim que os cabelos das índias ficavam fortes e bonitos. As pontas poderiam ser tiradas na lua crescente.

As rosas brancas deveriam ser replantadas na lua nova. O feijão, colhido durante a minguante de Maio – evitava perdas, o pai dizia –  e fazia o feijão não carunchar. A macela, colhida na lua cheia específica da sexta-feira da Paixão para fazer chás potencializava a cura.

Tudo na vida dela fora um ritual de datas lunares e solares.

De cores e de sabores. De magia e expectativas.
Quando deita no chão do seu quintal, refazendo o mapa das estrelas que indicam o caminho para Santiago, revê esses instantes que fez de sua infância uma riqueza só.

Os rituais ficaram marcados – segue até hoje – Deus a livre apontar o dedo para uma estrela. Apesar de ter ficado lá atrás a lenda de que se fizesse isso, nasceria uma verruga na ponta do dele.

Fica horas ali, todas as noites. É um momento único de lembranças que vão e se recriam no doce modo de espiar o céu.

Sabe desenhar cada coisa sentidas nas fases que a lua inventa em seu caminho no céu.
É o ritual que segue quase místico na essência de viver.

Mariana Gouveia
110. dos dias aleatórios de Abril

91. dos dias aleatórios de Abril

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Rasgava a camisa branca a unha…

o sangue marcava o passo, o caminho, a trilha por onde andou. O linho desenhado em motivos geométricos.

O sistema solar fora de órbita.

Continha a palavra sorte na mão. Jogava as cartas para quem quisesse saber a previsão – do tempo – por que ela própria andava instável dentro das possibilidades de chuva.

Ainda ontem era outro dia e chovia.
Hoje não! Guardara a sete chaves a sombrinha. Pularia todas as poças no mundo da Lua.
Arriscava-se nomear de novo esse dia como o dia da dor.
Estava escrito que haveria um decanto dentro desse período lunar.
Embora nem fosse cheia marcava o céu em seu dilema de satélite.

Mariana Gouveia
91. dos dias aleatórios de Abril