278. das infinitudes

Tinha o peito rasgado a faca. A solidão estampada nos olhos em noite de lua uivava – alguém dizia – e criava as lendas dentro das madrugadas lentas, sem sereno.

A espiral do medo nos corredores sem luz.

É lua cheia!
O calendário avisa que há dias em que é melhor ser apenas plateia. Hora de desvendar afetos. A rota lunar sempre é uma opção de fuga. De vez em quando eu atiro facas em mim mesma.
As tremuras das mãos é quase um ocaso para o bordado que não faz mais. Era lindo o abraço do silêncio. No tarô, as mudanças lidas no búzio.

A lua observada no mirante. Vasto o mundo que sonha com a vida vista de lá. Durante o dia disfarçou o pranto várias vezes. O monstro da esquina, o prêmio de literatura, o livro que nunca leu, a mão que nunca tocou… A mulher com o vidro na mão espalhava fragrâncias de lua pela rua enquanto no quintal, ela mergulhava nas sombras do muro.

 

Mariana Gouveia
278. das infinitudes

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4 – sinto falta de mim, em mim

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Eu te enfeito com histórias que ninguém, senão eu, li em ti.

Nélida Piñon

 

Querida minha.

A expectativa de um sábado à tarde é preguiça de viver. É primavera – mas em meu quintal o outono vagueia invasivo nas folhas que caem – e amanhã já será outro mês e a gente fica medindo os dias que faltam para o ano acabar.

Fico nessa agonia de buscar curas, de buscar ervas, de viver poesias, de estar em tanto lugar e ao mesmo tempo em nenhum.

Os dias aqui têm sido mornos – quentes – e sufocantes. Parece que Agosto perdura até hoje e que a qualquer momento os cachorros loucos entrarão portão adentro e lembro da infância onde não afastava tanto de casa com medo dos cachorros loucos que podiam aparecer a qualquer momento – e que nunca vi – e é como se esse mesmo medo voltasse. O medo tão real e palpável que recuo diante da tarde.

As sombras no muro refletem os cachorros loucos que existem na memória.

Não venta, não chove e o céu fica nesse cinza chumbo enquanto eu busco a cor dentro de mim. Aliás, me busco nas lembranças de tudo que já vivi. Sinto falta de mim, em mim.

A lua, atreve-se em sua fase a caminhar oblíqua no céu enquanto penso em você e seu barulho de mar. Faço declarações de amor que não envio.

Crio histórias contigo que não conto para ninguém.  Faço grafites imaginários no muro onde uma mancha lembra qualquer coisa das suas lendas.

Lembro – me da parede do prédio abandonado perto do trabalho onde havia um grafite, escrito um nome meio ilegível e uma flor arrancada a pétala. Conheci o moço que fez o desenho. É o mesmo que tatuou em mim as borboletas que fazem parte de minha vida, assim como você…

 

Beijo
M
Projeto Scenarium Plural
Missivas de Primavera

245. Entre uma estação e a primavera

Doeu em mim a foto da lua. O braço do mar elevando a maresia em um dia que ardeu.
O galho da árvore a acolher o satélite que brilha no céu. A flor que foi coadjuvante no jardim com o céu habitado de desejo.
Bebo em tua lua o sabor a sal de sua boca. Era um arvoar dentro do peito e essa vontade louca de escancarar a janela e tocar seu nome, feito pétala de flor.

Escrevo-te cartas que a noite escura apaga e o calor ignora a vontade enquanto no noticiário falam da delicadeza do papel. Lembro de sua arte que faz textura no papel.
Da janela vazia, quase te grito e respiro. Desafiei a mesma que você enxerga a me transferir nessa saudade para o inédito e antigo ato de te surpreender e mais uma vez, murmuro seu nome dentro do amor.

 

Mariana Gouveia
245. Entre uma estação e a primavera

219. das impressões do dia seguinte


A estação, dentro da palavra
A lua, em infinita vezes, encanto.
A realidade é essa coisa descrita de como foi quando o homem pisou na lua.
O rastro a ecoar poesia: a terra, é azul – o homem do espaço disse – e depois, em um poema, o poeta disse: a folha é verde e a água, transparente –  e ninguém me explicou o que era a mistura de tudo.
Amanhã, ela será poesia, na palavras de quem enxergou razão, dentro da beleza da rua, iluminada pela lua.
Quando a confusão de sentidos e a vontade de ser dentro do outro, eclipsei na palavra tato.
Quase toque, quase obscuro o sentimento do que não se pode explicar.
A solidão é a mais crua das verdades e enquanto isso, a natureza se veste e o mundo, se torna um lugar comum porque o céu se torna algo espetacular.

Mariana Gouveia
219. das impressões do dia seguinte

191. da autonomia dos voos

 

Era um vento na janela e não era ficção.
A lua, pendente –  quase um rasgo no céu – cheguei a imaginar que fosse o vento a brincar com ela.
Tão certa de seu poder sobre escorpião rompeu as marés…
Fez o cabelo diminuir – o pai avisou para respeitar a fase – e secou o pé de pimenta rosa. Mas fez com que os brincos de princesa floriram todos de uma vez só.
Quase uma afronta, o vento, a balançar as flores em seu vaso…
E ela, lá, vigilante diurna desse vento atrevido vindo do sul e faz com seu perfume incomode mais dentro das minhas lembranças, do que a lua, tão senhora de si e caminhante no céu.
Quase um delírio a ave em seu verbo de voo a inspirar poemas de amor quando pousa em posição contrária ao vento.

Mariana Gouveia
191. da autonomia dos voos

161. da geografia das coisas

 

A solidão é uma faca atravessando a garganta, o grito sufocado na dor.
As paredes fechando em todas as portas e o vento trazendo as folhas para o quintal.
Tem noite que o vazio atravessa a madrugada e o perfume das flores no jardim é apenas o aviso da passagem da lua pela décima casa astral.
A meteorologia erra a previsão e o uivo do cão na rua de cima faz lembrar das coisas da infância – quando o mundo cabia apenas até onde a vista alcançava.
Uma data me traz a presença de um menino que voou. O cheiro a exalar presenças de quem já partiu.
A vida é esse nocaute duro no peito e lua a embrenhar lembranças do santo, vontades de céu em noite de lua…

Mariana Gouveia
161. da geografia das coisas

136. dos dias diferentes dos outros dias

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de perfil a história é mais triste

os corredores ficam mais compridos e as janelas laterais nem conhecem a canção que fala dela…

na sala de estar, os mortos em porta retratos ao lado das porcelanas empoeiradas e os vasos de flores de plásticos a murcharem em promessas sem perfume.

de perfil, a moça de branco alonga a saia e os sapatos fazem barulho dentro das horas.

são sete portas até o alívio final. A veia a sangrar pela cura – que matava, se deixasse –  que pingava em conta-gotas no refrão do tic – tac do relógio na parede cinza ocre ou ocre apagado sem cor…

de perfil, os dias acontecem diferentes dos outros dias e a fase da lua inicia o ritual de esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
136. dos dias diferentes dos outros dias