6 on 6 — minhas noites!

Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas.
Joakim Antonio

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Confesso que minhas noites são feitas de silêncios. Ou de monólogos intensos pelo quintal.
Quando o sol se prepara para a troca com a lua, minha cidade – que dia 8/04 completa 300 anos – se transforma em silhuetas através das janelas do ônibus.
Aspiro ali, o lugar de fé, também o prédio mais alto da cidade e a respiração acalenta nas sombras o que foi o dia.

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E dependendo da fase, lá vem ela dominar o decanato e ascendente. Cada tempo tem sua necessidade e ela em sua fase de cheia invoca os deuses e faz o cabelo engrossar e mais uma vez, nessas noites eu relembro as lições do pai.

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No meu quintal, nas minhas noites, às vezes, a lenda acontece na caixa velha de eternit e o eco se renova perto do pé de vento. Era ali que as histórias eram contadas e é ali que minhas noites são feitas de sopros. O calor, quase sempre, é asfixiante e bem embaixo do pé de ipê o cogumelo arrebenta e a frescura toma conta da alma. É onde aconteço dentro de minha história.

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Há noites em que ela surge em vírgula e me vejo lunar nas minhas noites. Chamo um nome, lembro do uivo, refaço rituais que aprendi quando criança e sou pura fascinação. O céu ganha minha atenção e conto histórias que nuca esqueci.

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Nas histórias, o que me envolve é a lua – e na ausência dela minhas noites ficam ocas, vazias – e o céu é meu templo. Realinho os mantras e faço orações para o universo em todas as fases de lua e de quebra, ainda ganho estrelas.

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E para finalizar, sou colo do pássaro de todo dia que em minhas noites é aconchego para além da alma. Ali, no varal, pouco antes de deitar ele vem em oferta de carinho e poesia.

Sou quase extensão de histórias que se aninham entre si e fazem de mim o que sou hoje: uma insone nas noites sem lua. E como diz um dos meus poetas queridos Joaquim Antônio: “Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas”.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes Obdúlio Ortega Maria Vitória

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O barco de papel…

ancorado no canto da mesa da cozinha
Um envelope a espera da resposta
A tarde deixando o dia e levando o sol
Para navegar outros mares
Saudades
a alma ultrapassa a porta e vai em busca do oceano
A nado.

Mariana Gouveia
In – Sete Luas
Editora Scenarium Plural
*Imagem: Wallpaper The Best

O céu, sendo universal em cada luz

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O dia começou com perdas. A aldeia chora a partida de um sábio. O dia grande sendo pequeno. Alguém ousa na coragem de tirar a vida. O verbo falha na rotina desavisada. O encantamento ganha cor quando alguém parte sem sofrer. Era o dia grande sendo dor dentro das perdas. O espírito do guerreiro ganhando sentido na floresta inteira.
O céu, sendo universal em cada luz.
A lua sendo guia da alma. O dia termina infinitamente grande quando anoitece.

Mariana Gouveia
Primeira Super Lua de 2018
Cuiabá – janeiro de 2018.
Dia 1.

278. das infinitudes

Tinha o peito rasgado a faca. A solidão estampada nos olhos em noite de lua uivava – alguém dizia – e criava as lendas dentro das madrugadas lentas, sem sereno.

A espiral do medo nos corredores sem luz.

É lua cheia!
O calendário avisa que há dias em que é melhor ser apenas plateia. Hora de desvendar afetos. A rota lunar sempre é uma opção de fuga. De vez em quando eu atiro facas em mim mesma.
As tremuras das mãos é quase um ocaso para o bordado que não faz mais. Era lindo o abraço do silêncio. No tarô, as mudanças lidas no búzio.

A lua observada no mirante. Vasto o mundo que sonha com a vida vista de lá. Durante o dia disfarçou o pranto várias vezes. O monstro da esquina, o prêmio de literatura, o livro que nunca leu, a mão que nunca tocou… A mulher com o vidro na mão espalhava fragrâncias de lua pela rua enquanto no quintal, ela mergulhava nas sombras do muro.

 

Mariana Gouveia
278. das infinitudes

4 – sinto falta de mim, em mim

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Eu te enfeito com histórias que ninguém, senão eu, li em ti.

Nélida Piñon

 

Querida minha.

A expectativa de um sábado à tarde é preguiça de viver. É primavera – mas em meu quintal o outono vagueia invasivo nas folhas que caem – e amanhã já será outro mês e a gente fica medindo os dias que faltam para o ano acabar.

Fico nessa agonia de buscar curas, de buscar ervas, de viver poesias, de estar em tanto lugar e ao mesmo tempo em nenhum.

Os dias aqui têm sido mornos – quentes – e sufocantes. Parece que Agosto perdura até hoje e que a qualquer momento os cachorros loucos entrarão portão adentro e lembro da infância onde não afastava tanto de casa com medo dos cachorros loucos que podiam aparecer a qualquer momento – e que nunca vi – e é como se esse mesmo medo voltasse. O medo tão real e palpável que recuo diante da tarde.

As sombras no muro refletem os cachorros loucos que existem na memória.

Não venta, não chove e o céu fica nesse cinza chumbo enquanto eu busco a cor dentro de mim. Aliás, me busco nas lembranças de tudo que já vivi. Sinto falta de mim, em mim.

A lua, atreve-se em sua fase a caminhar oblíqua no céu enquanto penso em você e seu barulho de mar. Faço declarações de amor que não envio.

Crio histórias contigo que não conto para ninguém.  Faço grafites imaginários no muro onde uma mancha lembra qualquer coisa das suas lendas.

Lembro – me da parede do prédio abandonado perto do trabalho onde havia um grafite, escrito um nome meio ilegível e uma flor arrancada a pétala. Conheci o moço que fez o desenho. É o mesmo que tatuou em mim as borboletas que fazem parte de minha vida, assim como você…

 

Beijo
M
Projeto Scenarium Plural
Missivas de Primavera

245. Entre uma estação e a primavera

Doeu em mim a foto da lua. O braço do mar elevando a maresia em um dia que ardeu.
O galho da árvore a acolher o satélite que brilha no céu. A flor que foi coadjuvante no jardim com o céu habitado de desejo.
Bebo em tua lua o sabor a sal de sua boca. Era um arvoar dentro do peito e essa vontade louca de escancarar a janela e tocar seu nome, feito pétala de flor.

Escrevo-te cartas que a noite escura apaga e o calor ignora a vontade enquanto no noticiário falam da delicadeza do papel. Lembro de sua arte que faz textura no papel.
Da janela vazia, quase te grito e respiro. Desafiei a mesma que você enxerga a me transferir nessa saudade para o inédito e antigo ato de te surpreender e mais uma vez, murmuro seu nome dentro do amor.

 

Mariana Gouveia
245. Entre uma estação e a primavera