acendi a noite com palavras…


jean paul avisse
*imagem: Google

e teu corpo resplandeceu…
procurei te onde o sol era mais intenso
e à tua sombra descansei

ahcravo

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6 On 6 – Minhas manhãs

 

Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes


As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções  – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

 

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

 

 

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo.
Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar.
Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.
As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias.
O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto.
As palavras salivando nas asas do amor.

Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor.
Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo.
É quase hora de ir viver o dia.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 – Tema: Minhas manhãs

 

Também fazem parte desse Projeto:
Maria Vitória – estranhamente
https://aestranhamentee.wordpress.com/2018/02/06/projeto-fotografico-6-on-6-o-que-te-inspira/

Obdulio Nunes Ortega – blogue serial ser
Lunna Guedes – Catarina voltou a escrever

PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6 | O QUE TE INSPIRA?

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade

Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

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“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida
(Graça Carpes)

Toque (borboleta).

 

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

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“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”
Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

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“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele,na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

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“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

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“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 

Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.
Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.
É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

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Mariana Gouveia
PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6  | O QUE TE INSPIRA?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Participam desse projeto: Lunna Guedes, Tatiana Kielberman, Obdúlio Nunes Ortega
e Maria Vitória.

353. dos verbos indefinidos

para que o rio valesse mais que a lágrima,

o orvalho devia ter sabor de vento
dessas manhãs ensolaradas
de estradinhas feitas de flores e de flores plantadas pelas crianças.
para que o pássaro tivesse voo
devia valer mais do que pouso
o céu entre o azul e as nuvens – todas – e o sol mais do que sol
e o brilho todo
para que a sorte valesse tanto
devia valer mais que a crença
devia haver mais esperança
para que a crença valesse tanto
devia ter fé…
* dos dias em que a fé foi a palavra boa.

Mariana Gouveia
353. dos verbos indefinidos

 

300. das infinitudes

O sol dorme no horizonte dos olhos dela
e há prenúncio de tempestade vinda do leste.
O verão brinca no riso que ela adora desfolhar

e as estações balançam nos cabelos que ela lavou.

Há qualquer coisa de trilha musical que me envolve quando pensa nela.

As canções que ela cantou – ou que eu pensei em ouvi-la cantar –
nunca sei quando meus pensamentos são maiores que meus desejos
nem quando é noite no centro oeste da minha imaginação
porque sempre há um sol nascendo no horizonte dos olhos dela
onde as meninas dos olhos dela brinca de viver só para mim.

Mariana Gouveia
300. das infinitudes

1. Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

 

Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Alejandra Pizarnik

Querida A.

 

A palavra fogo rodeia meu lugar. Eu mesma ardo em febre e a cidade, conhecida pelo seu calor insuportável, agora fica insuportável. A meteorologia prevê ainda dias quentes e o lugar onde é meu refúgio está sendo devastado pelo fogo.

Talvez você nem leia essa carta. Talvez você a leia e nada fará sentido. Talvez sejam as palavras que estarão aqui que você desejava tanto ler – o talvez é tão cheio de expectativas – o sempre, não.
O sempre gera certeza e garantia e nós humanos queremos sempre o sempre.

” sempre vou estar aqui” “sempre vou te amar…”

Sempre, sempre… Às vezes, ele vira palavra vazia. Mas em mim – ou nós – posso substituir pela palavra século. Essa é durável. Forte. Resistente.

Talvez você quisesse ler a palavra sempre enquanto dentro de mim ardia, além da febre a palavra século. E ela significa que, apesar do tempo agora, eu vou te amar sempre.

E não veio o que você esperava no momento e daí você fechou todas as portas e janelas para mim e eu estava no meio de um corredor entre o desespero de mais um dos diagnósticos aterradores, que transformam pessoas em zumbis.

É difícil gerar expectativa de vida depois que os envelopes se abrem e os vãos ficam pequenos entre as calçadas.

Mas não existe espaço para você na minha vida, porque você se tornou ela desde os séculos dos séculos, amém.

Talvez se eu tivesse dito: espere, fique tranquila. Espere a tempestade passar… Talvez você ainda estaria ali, do outro lado da janela, sendo alívio e calma para os dias de fúrias enquanto o corpo luta contra o monstro real.

Talvez é tão cheio de expectativas. Talvez eu hoje pudesse te mostrar o que o nome de um mês pode muda dentro de um quintal.

Parece que a estação acontece no mês todo e não quando passamos da metade dele. Talvez eu pudesse te mostrar o ninho que as aves fizeram aqui. Mas tudo isso é tão relativo e distante. Parece até que aconteceu em outro século e por isso, escrevo cartas que talvez você nem leia.

Meu imaginário me engana sempre, entre os delírios de febre. É como se eu estivesse aí e tudo isso fosse apenas uma história que te conto, mas quando dou por mim existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada… Porque de fogo basta esse que destrói meu cerrado e aquele que queima minha alma.

Fica bem.

M.
Projeto Scenarium Plural – Missivas de Primavera

214. das impressões do dia seguinte

O fogo ardeu dentro do sol. A labareda alcançou o cerrado e a fumaça, o céu.
O boletim do tempo atravessou a meteorologia.  O paraíso tem as chamas dentro das folhas.
Havia o dia de amanhã na espera do beijo. O coração gera a expectativa de canção.
No verso do poema sua mão sobre a minha onde  chuva promete coisas desavisadas que não acontece.
Fala de flores que nascerão no cerrado cinzento e de frutas temporãs de agosto em uma invasão antecipada de outra estação – a chuva da estação era presságio de colheita –  o verbo mudado para o instante seguinte.
A direção errada de uma nação sem coisa nenhuma.
Tudo muda o sentido das coisas quando o arder também invade a alma.

 

Mariana Gouveia
214. das impressões do dia seguinte