Projeto fotográfico: 6 on 6 – As cores da manhã

Quem tem assim o verão
 dentro de casa
 não devia queixar-se de estar só

 Eugénio de Andrade

 

Às vezes, me pego descobrindo as cores da manhã, e entre a madrugada se despedindo e ela – a manhã – que se desenha a vida colore diante de mim, o toque.
Um afago ainda com cheiro de orvalho nas asas e o cumprimento se revela no gesto.

E antes mesmo que o sol nasça,  entre o caminho do amor e do carinho, as cores se desenham dentro da esperança. O dia – quase em milagre – abre as cortinas do que é belo. O afago no quintal tão meu, antes de seguir rumo ao que o dia se antecipa para mim.

No meu lugar as cores tem a tonalidade dos olhos deles, sem nome de cor exata, mas tendo a docilidade do amor. A ternura descrita entre troca de olhares e  nos muros os corações a espalhar vontade de amar.

 

Converso com a sorte imitando cores, e fazendo com que os pincéis desenhem as rotinas das flores. A estação brincando de viver para além dos muros. A vida a conversar comigo onde o silêncio me cabe. É quase um grito, o suspiro no peito.

 

A rua de cima amarela a medida que vou ganhando as esquinas. Um dourado se encosta na leveza dos lilases dos dias de agosto. Ainda há a brancura das nuvens em um céu matizado feito quadro de pintor.

 

E a medida que o ônibus – e o dia – avançam, no bosque que antecede outro lugar, eu fecho os olhos e sou beijada através dos reflexos dourados pelos raios do sol e meus olhos se perdem na tabela de cores que a manhã me oferece até onde minha vista alcança.

 

Mariana Gouveia

Participam desse Projeto:
Claudia Leonardi  | Maria Vitoria | Lunna Guedes | Fernanda Akemi | Obdulio Nuñes Ortega |

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Embriagada


Seja tu o copo onde eu mergulhe

te mate a sede e seja em ti

minha vontade de líquido.

ah cravo

 *fotografia: Mira Nedyalkova

6 On 6 – Minhas manhãs

 

Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes


As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções  – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

 

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

 

 

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo.
Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar.
Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.
As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias.
O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto.
As palavras salivando nas asas do amor.

Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor.
Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo.
É quase hora de ir viver o dia.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 – Tema: Minhas manhãs

 

Também fazem parte desse Projeto:
Maria Vitória – estranhamente
https://aestranhamentee.wordpress.com/2018/02/06/projeto-fotografico-6-on-6-o-que-te-inspira/

Obdulio Nunes Ortega – blogue serial ser
Lunna Guedes – Catarina voltou a escrever

PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6 | O QUE TE INSPIRA?

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade

Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

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“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida
(Graça Carpes)

Toque (borboleta).

 

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

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“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”
Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

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“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele,na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

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“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

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“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 

Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.
Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.
É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

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Mariana Gouveia
PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6  | O QUE TE INSPIRA?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Participam desse projeto: Lunna Guedes, Tatiana Kielberman, Obdúlio Nunes Ortega
e Maria Vitória.

353. dos verbos indefinidos

para que o rio valesse mais que a lágrima,

o orvalho devia ter sabor de vento
dessas manhãs ensolaradas
de estradinhas feitas de flores e de flores plantadas pelas crianças.
para que o pássaro tivesse voo
devia valer mais do que pouso
o céu entre o azul e as nuvens – todas – e o sol mais do que sol
e o brilho todo
para que a sorte valesse tanto
devia valer mais que a crença
devia haver mais esperança
para que a crença valesse tanto
devia ter fé…
* dos dias em que a fé foi a palavra boa.

Mariana Gouveia
353. dos verbos indefinidos

 

300. das infinitudes

O sol dorme no horizonte dos olhos dela
e há prenúncio de tempestade vinda do leste.
O verão brinca no riso que ela adora desfolhar

e as estações balançam nos cabelos que ela lavou.

Há qualquer coisa de trilha musical que me envolve quando pensa nela.

As canções que ela cantou – ou que eu pensei em ouvi-la cantar –
nunca sei quando meus pensamentos são maiores que meus desejos
nem quando é noite no centro oeste da minha imaginação
porque sempre há um sol nascendo no horizonte dos olhos dela
onde as meninas dos olhos dela brinca de viver só para mim.

Mariana Gouveia
300. das infinitudes