300. das infinitudes

O sol dorme no horizonte dos olhos dela
e há prenúncio de tempestade vinda do leste.
O verão brinca no riso que ela adora desfolhar

e as estações balançam nos cabelos que ela lavou.

Há qualquer coisa de trilha musical que me envolve quando pensa nela.

As canções que ela cantou – ou que eu pensei em ouvi-la cantar –
nunca sei quando meus pensamentos são maiores que meus desejos
nem quando é noite no centro oeste da minha imaginação
porque sempre há um sol nascendo no horizonte dos olhos dela
onde as meninas dos olhos dela brinca de viver só para mim.

Mariana Gouveia
300. das infinitudes

Anúncios

1. Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

 

Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Alejandra Pizarnik

Querida A.

 

A palavra fogo rodeia meu lugar. Eu mesma ardo em febre e a cidade, conhecida pelo seu calor insuportável, agora fica insuportável. A meteorologia prevê ainda dias quentes e o lugar onde é meu refúgio está sendo devastado pelo fogo.

Talvez você nem leia essa carta. Talvez você a leia e nada fará sentido. Talvez sejam as palavras que estarão aqui que você desejava tanto ler – o talvez é tão cheio de expectativas – o sempre, não.
O sempre gera certeza e garantia e nós humanos queremos sempre o sempre.

” sempre vou estar aqui” “sempre vou te amar…”

Sempre, sempre… Às vezes, ele vira palavra vazia. Mas em mim – ou nós – posso substituir pela palavra século. Essa é durável. Forte. Resistente.

Talvez você quisesse ler a palavra sempre enquanto dentro de mim ardia, além da febre a palavra século. E ela significa que, apesar do tempo agora, eu vou te amar sempre.

E não veio o que você esperava no momento e daí você fechou todas as portas e janelas para mim e eu estava no meio de um corredor entre o desespero de mais um dos diagnósticos aterradores, que transformam pessoas em zumbis.

É difícil gerar expectativa de vida depois que os envelopes se abrem e os vãos ficam pequenos entre as calçadas.

Mas não existe espaço para você na minha vida, porque você se tornou ela desde os séculos dos séculos, amém.

Talvez se eu tivesse dito: espere, fique tranquila. Espere a tempestade passar… Talvez você ainda estaria ali, do outro lado da janela, sendo alívio e calma para os dias de fúrias enquanto o corpo luta contra o monstro real.

Talvez é tão cheio de expectativas. Talvez eu hoje pudesse te mostrar o que o nome de um mês pode muda dentro de um quintal.

Parece que a estação acontece no mês todo e não quando passamos da metade dele. Talvez eu pudesse te mostrar o ninho que as aves fizeram aqui. Mas tudo isso é tão relativo e distante. Parece até que aconteceu em outro século e por isso, escrevo cartas que talvez você nem leia.

Meu imaginário me engana sempre, entre os delírios de febre. É como se eu estivesse aí e tudo isso fosse apenas uma história que te conto, mas quando dou por mim existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada… Porque de fogo basta esse que destrói meu cerrado e aquele que queima minha alma.

Fica bem.

M.
Projeto Scenarium Plural – Missivas de Primavera

214. das impressões do dia seguinte

O fogo ardeu dentro do sol. A labareda alcançou o cerrado e a fumaça, o céu.
O boletim do tempo atravessou a meteorologia.  O paraíso tem as chamas dentro das folhas.
Havia o dia de amanhã na espera do beijo. O coração gera a expectativa de canção.
No verso do poema sua mão sobre a minha onde  chuva promete coisas desavisadas que não acontece.
Fala de flores que nascerão no cerrado cinzento e de frutas temporãs de agosto em uma invasão antecipada de outra estação – a chuva da estação era presságio de colheita –  o verbo mudado para o instante seguinte.
A direção errada de uma nação sem coisa nenhuma.
Tudo muda o sentido das coisas quando o arder também invade a alma.

 

Mariana Gouveia
214. das impressões do dia seguinte

169. da geografia das coisas


Confiava no gesto e na alegria das coisas. Tudo geograficamente na memória.

A infância na leveza da vida. O dia expandindo o dourado pelos campos.

Tudo semeia pela pele a absolvição da acolhida.

É o retorno do que já vivi.

Mariana Gouveia

169. da geografia das coisas

155. da geografia das coisas

155. da geografia das coisas.JPG

Carta ao amor aos cuidados do sol

Já é noite por aqui, meu amor e esse dia ganhou ares de lembranças… Abro a caixa de memórias – as minhas, que se misturam nas tuas – e em cada página que abro você está. Ali, perto, sempre estendendo a mão. Segurando meus passos, e companhia silenciosa enquanto eu estou nos holofotes.

Sento-me na varanda do passado e estendo as mãos no vento à tua procura. Você sempre está lá…   Lá, onde o sol é mais dourado e os minutos mais lentos e onde me espera com o mesmo jeito de antes…
sempre nestes dias em que minha alma fica solta você é o reflexo do amparo e quando meu silêncio faz barulho suficiente dentro da sua calmaria transforma em cor a dor.

O nosso amor é esse sol que avermelha as tardes quentes em um dia perfeito e modifica os dias dentro da estação… Era essa a mesma estação na manhã que você chegou e meu olho pousou e buscou segurança no seu. Depois disso, sua presença sempre esteve ali como um porto seguro, me indicando caminhos, me dando direções.

Já virei a página do calendário, amor e transformo teu dia em todos os dias. Hoje, eu queria te dar o sol, mas é você que se transforma meu sol todos os dias. Encara minhas metamorfoses como se disso dependesse a vida… e sua vida dentro da minha faz a minha história mais bonita.

Feliz Aniversário!

Te amo!

Mariana Gouveia
155. da geografia das coisas

 

 

 

Sem saber o porquê

caminhou até onde o sol batia, deu três toques na madeira e a alisou suavemente, sentindo uma parte quente e outra fria. Naquele instante percebeu que não era diferente da casa, seu coração inflamava ou gelava, conforme o calor que recebia.

Joaquim Antonio

135. dos dias diferentes dos outros dias

135. dos dias diferentes dos outros dias.jpg

Criei promessas desenhadas nas paredes, onde eu furava o estuque para descobrir o sem cor que havia por trás do verde esperança.

Fiz contratos com uma criança alegre que morria em mim. Descobri pessoas com falhas que mudavam a meteorologia dentro das horas do dia. O ápice das estações do ano é o meu coração. As raízes do outono a explorar o infinito e tentando expor folhas para mim – logo eu, que era pura fotossíntese – que conhecia os aromas do chão a receber o toque da folha que caia. Alguém que cuidava do jardim adoeceu… esqueceu da promessa de nunca deixar de regar o que tinha necessidade de água, e imaginou encontrar seu sonho no centro da semente. A mão possuía a aurora feito quando amanhecia e o poente a demarcar o céu dentro da noite escura e a ave a dominar a vida… Maio tem essa inconstância para fora dos limites de quem entende do tempo. O céu é brilhante e puro apenas uma vez – ou o ocaso muda de acordo com as nuvens.

Estou sempre em movimento, para evitar multidões felizes ou pessoas a puxar assunto sobre o tempo – esse moço inconstante e ranzinza – enquanto eu escolho sementes a partir do som das folhas que caem. A árvore desfolhou-se toda como se fizesse parte do tempo remoto em um lugar onde a estação se transforma no canto das aves. O voo é o caminho do pouso. A dor da vida anda na frente de mim, como viajar antes na rota das fugas.

Mariana Gouveia
135. dos dias diferentes dos outros dias