Depois da tempestade…

Depois da tempestade

o quintal se desarmou de verde – foi naquele dia da dor – e nem tive como salvar os insetos na Maria – sem – vergonha.

Hoje, depois dos dias ruins de secura, sem lugar para os pássaros migratórios e para os que vivem aqui, a grama já começou a brotar. A árvore principal balança suas folhas dando sinais de galhos. As flores na jardineira soltam seus botões relembrando a primavera em pleno verão.

As flores do mamoeiro exalam seus perfumes dentro da noite.
A sorte contada nas horas em que o relógio apenas marca a lembrança do que foi ontem.

Viver é algo além das chuvas…

dos risos nas esquinas, das palavras não ditas…

Viver é quase a generosidade da travessia. A sorte estampada nas folhas do trevo de quatro folhas onde a vida flui.

Mariana Gouveia

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362. dos verbos indefinidos

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Na folhinha é oitava de Natal. Há apenas 3 folhas do calendário para serem arrancadas. Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios.
A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis.
O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida ali no quintal.

A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.
Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao  jardim.
A flor já é oferenda do tempo.
Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia
362. dos verbos indefinidos

361. dos verbos indefinidos

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Conheceu uma galáxia estranha no quintal.  Há séculos que reescrevi a mesma história. O ponto final era um poema vertical. A dor instalada na garganta.
A palma da mão estendida na reza:
– Leio sorte ao meio – dia!
A intimidade é o ponto fraco para os fortes.
Há que estender o verbo indefinido. A casa sem janela que marcava o canto do muro na rua de cima. O desejo de viver na dor. Os olhos exaltados no ocaso do agora.
O retrato fosco no silêncio. As árvores ganham garras de monstros. O azul destoa do céu escuro. A solidão é o vestígio dos últimos dias de desafios que a alma enfrenta.
Palavra do dia: resignar.

Mariana Gouveia
361. dos verbos indefinidos

334. das fragilidades secretas

334. das fragilidades secretas

Listou os livros que leu. Perdeu – se dentro das histórias que lembrava.
Escolheu a nova tatuagem e a frase do dia para a rotina das horas.
O vento é esse menino travesso que traz a chuva pelas mãos. A árvore maior sem folhas, o galho sendo motivo de asas e há uma discordância entre a pena e o pouso.
As palavras escritas em um idioma noturno. A história da flor contada de mil maneiras diferentes.
Era uma vez, o tempo que acabou. Rio abaixo, todo vento é torto.
As flores traduzem a expressão da semente. O coração é essa ocupação constante dos sem-ninguém.
A lista, as regras, a colheita… perdeu – se.
As fragilidades secretas traduzem a cor que o jardim inventa.

Mariana Gouveia
334. das fragilidades secretas

 

 

285. das infinitudes

285. das infinitudes

Alguém rastreia a sorte do dia nos astros. Fala com poesia sobre a Lua em seu estado de minguar.
Pensou em parar todos os relógios até que a esperança viesse comer em sua mão com a louvação da fé.
O espelho deforma o vento e nos muros, os riscos de desenhos feitos por crianças.
Alguém falou sobre o verbo amar e ainda ontem era o voo de peixe a ilusão do poema e o nado da ave na poça do quintal.
As memórias de antigamente vieram vazias de sabores e o rosa das paredes da vizinha se desbotaram com a tempestade de anteontem.
Ninguém consegue fugir de si mesmo.
Sei que a brancura dos dias se contrastam com a negritude da noite enquanto só consigo esse silêncio aparente de solidão na esperança que pousa em mim.
Mariana Gouveia
285. das infinitudes

251. Entre uma estação e a primavera

No lugar onde enviam cartas procura- se moedas. Os selos, nos envelopes, cobram trocos que o dinheiro normal não alcança diante do olho do menino que tira o cofrinho da mão da mãe, com medo de perder sua riqueza.

Os pássaros procuram estações das chuvas dentro da secura do tempo. Tudo é tão vagaroso como se estivéssemos nos livros.

Procuro a flor que não abriu. A janela que me leva até você. Procuro.
Procuro a maresia nos cantos dos muros, nas frases de efeito dentro dos poemas.
A primavera finge que não vai chegar e eu procuro sua fragrância dentro de mim. Encontro os girassóis do ano passado que fizeram seus olhos brilharem e suas sementes dentro de mil flores, com os insetos vorazes a matar a fome não sei de que.
Tudo é procura nessa vida. Tudo é encontro nessa busca Só não você.

Mariana Gouveia
251. Entre uma estação e a primavera

168. da geografia das coisas

Conheci o homem do campo. Não tinha nome comum como os outros nomes.
Tinha sonhos e carregava eles nos  braços como se fosse colher o que plantou.
Não gosta da noite – disse – … é quando o cansaço é muito e ele chega vestido de esperança e na alma, o coração vadio ri de qualquer coisa.
Leu para mim cartas que  chegou em suas mãos, com letras que eu o ensinei a ler – quando ele era um moço sem sonhos – e começou a escrever poesias depois disso…
Contou-me sobre o rio e suas curvas como se fossem serpentes a desenhar  o formato entre a floresta e do bicho que louva a Deus e se molda ao ambiente.
Acolhe a noite com seus cansaços tênues contrário  ao sono que nem vem porque ele sonha em ser bicho e viver.
Mariana Gouveia
168. da geografia das coisas