168. da geografia das coisas

Conheci o homem do campo. Não tinha nome comum como os outros nomes.
Tinha sonhos e carregava eles nos  braços como se fosse colher o que plantou.
Não gosta da noite – disse – … é quando o cansaço é muito e ele chega vestido de esperança e na alma, o coração vadio ri de qualquer coisa.
Leu para mim cartas que  chegou em suas mãos, com letras que eu o ensinei a ler – quando ele era um moço sem sonhos – e começou a escrever poesias depois disso…
Contou-me sobre o rio e suas curvas como se fossem serpentes a desenhar  o formato entre a floresta e do bicho que louva a Deus e se molda ao ambiente.
Acolhe a noite com seus cansaços tênues contrário  ao sono que nem vem porque ele sonha em ser bicho e viver.
Mariana Gouveia
168. da geografia das coisas

152. da geografia das coisas

Carta ao meu pai aos cuidados do encanto.

Pai,

Cada ano que passa nesse dia, eu visto a melhor roupa e venho ao teu encontro e embora sei que nessa hora você já descansa, estendo minha mão dentro de nossa história.

Acho que vou fazer isso a vida inteira… os caminhos me levam para além de quando eu era criança e você desenhava em palavras os contos que eu lembraria em tantas noites vida afora.

Que luz era aquela que brilhava ao longe? – e você detalhava os monstros com diversos nomes e instigava nossa imaginação com a brincadeira – treinava nossa coragem até a gente perceber o vagalume a bailar e fazer decoração na mata além da horta.

Você me entregou o delírio em uma caixinha disfarçada de cogumelo e nela me fez enxergar a leveza das coisas, o encanto mágico que acontecia a cada instante. O elixir que curava ou matava… a ciência de conhecer a melodia da floresta a nos indicar onde era o lugar seguro, como conseguir água ou simplesmente para parar em uma clareira e sentir a sintonia única com o universo.

Nas coisas miúdas você me mostrou a grandeza e o cheiro a preencher a memória com toques e suavidade.

O tempo passa e seu dia é muito além desse 1º de junho de todos os anos.
As músicas que você me ensinou a cantar e as lembranças a misturar épocas dentro de mim.

(Escrevo para você essa carta para que a irmã mais velha trate de ler para você amanhã… Mais uma vez, o rádio falará de seu nome em uma carta de amor e saberá que eu te amo todos os dias. Às vezes, acho que nunca soube escrever sobre você. O que faço é apenas retratar o sentido que você escreveu em minha história e que enumero como memórias):

Memória 1:

Era um ritual da madrugada e o cheiro do café a invadir os quartos… o rádio ligado no programa madrugador e o barulho do gado no curral… o leite tirado diretamente na caneca e a sensação de céu na boca… Esse era o tempo das minhas primeiras recordações.

Memória 2:

As noites em minha vida eram de encantamentos – ainda são – enquanto os dias eram feitos de ensinamentos, as noites eram de retratar a vivência do dia. Lembra de como o cheiro do arroz maduro na roça invadia cada canto do quintal e ao redor da fogueira a gente cantava as músicas do santo?

O cheiro do chá de canela – feito com as folhas tiradas logo ali, da arvorezinha mágica que soltava a casca em pedaços de pau que cheirava a encanto – mais uma vez… e a batata assada na fogueira e o sabor ainda me dá água na boca.

A reza ensinada ali mesmo, ao lado da fogueira, enquanto você nos ensinava sobre a fé.
O conto de fadas declamado em sua voz, com os ecos e assovios e a fada invisível, nossa madrinha.

Memória 3:

Estava nervosa e falava do meu primeiro amor… seus olhos apreensivos entre a resignação e o medo.
– a minha inquietação dos 14 anos e você lá, a desenhar as regras sobre o que podia ou não. E o medo de te desiludir – que continua comigo. E seu jeito de mãe – e a perda a doer a alma.

Memória 4:

Havia o amor que escolhi e o vestido era simples e dentro de nós, a festa desenhada lá atrás, quando nasci e você fala de borboletas para mim enquanto a juíza me pede para dizer o Sim e você ali, do lado direito, com o olho de amor e benção. E me cede em proteção a outro homem e percebe que a minha paz foi aceita e acolhida.

Memória 5:

Sabe que as memórias, todas elas se misturam nessa noite e em todo esse tempo, em minha solidão, na ardência das horas, eu sempre te chamo. A segurança do teu colo e a densidade de sua presença – mesmo tão longe – quase um menino, ainda é meu porto seguro. Você me ensinou coisas miúdas, cheia de delicadezas e me fez grande aos seus olhos.

Você que me deu a liberdade de uma vida toda e me deu asas no seu amor rotineiro e cuidados onde me prendia às regras e mesmo sem perceber, cada um de nós as seguia… Porque todo mundo precisa de direção, de um guia e você me deu…
Exemplo vivo e real de caráter, força e fé. Porque cada lembrança é como se fosse um casulo a criar mudanças… e como se o que for pequeno crescesse e com isso, na amplitude do querer é a única coisa que ainda me faz voar)

Feliz Aniversário, pai!

Mariana Gouveia
152. da geografia das coisas

 

6 on 6 – Como é a sua rotina

Minha rotina é o toque… O pleno sentido da vida.
IMG_20160228_082249799.jpg
Logo cedo, apalpo a vida mínima no meu quintal…
Coisa de pele e sentidos. Amanheço

IMG_20151224_103958993.jpg

Ou sou tocada, de leve. Ganho asas e atrevo-me. Metamorfose sou.
Um dia mágico.JPG
Sou amparo e pouso. Repouso.

DSCF3116.JPG

Puro amor… amor mais puro.

IMG_20150316_143746919.jpg
E tenho a certeza dele nos olhos de quem eu amo.

2.JPG

Fotografias e texto: Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 –  Como é a sua rotina
Scenarium Plural Editora – 2017
Também participam: Retratos e Diários, Catarina Voltou a Escrever, Sariando por aí, Frascos de Memória

125. dos dias diferentes dos outros dias

IMG_20170505_184459_525.jpg

Depois dos dias de silêncio passou a inventar histórias…

Ouvia canções em idiomas que não conhecia e nem sabia a tradução.
Era uma maneira de matar o silêncio das coisas.
A bailarina de porcelana a enfeitar a mesa do canto. O elefante de vidro fosco – sempre mudo – ao lado da vitrola antiga, encontrada em perfeito estado no brechó da amiga.

Repassava os discos de vinil como se buscasse motivos para o acontecimento das coisas.
O encanto guardado no baú da memória.

Depois dos dias de silêncio passou a escrever cartas que nunca enviaria – com exceção de uma, relatando o fim – e nunca seriam lidas.

Depois dos dias de silêncio passou a ouvir as folhas e o pouso da libélula no varal de roupas e a condenar o barulho dos cães na rua debaixo quando percebiam que o homem da reciclagem se aproximava com sua carroça e a cantoria que acordava o silêncio das coisas e depois disso tudo era barulho dentro dela.

Mariana Gouveia
125. dos dias diferentes dos outros dias

107. dos Dias aleatórios de Abril.

A noite é oco de sol durante o dia.
Não cabe choro na ausência nem na perda. Há dia de chegar e dia de partir.
Algumas decisões foram escritas em forma de decreto. Ninguém ousa contrariar o princípio lógico das histórias. Repete-se o fim sem o “felizes para sempre”.
Alguns ditados populares dominaram a fala.
É tanto estranho no abismo de mim que a vida parece essa multidão pedindo o pulo. Havia o indício da cor na roupa da menina da esquina. Nunca se soube com certeza o que não era amar. Há tanto ar na falta de espaço… contou os minutos para a solidão.

Mariana Gouveia
107. dos dias aleatórios de Abril

96. dos dias aleatórios de Abril

O boletim do dia relata o mistério. Havia dor em qualquer grito. O unicórnio na parede lembra o desenho da minha infância. Cartazes pediam silêncio onde ninguém se mexia. Rascunhos rasgados de cartas que nem foram escritas.

O cheiro do verniz limita distância. A moça de branco procura a veia e agita o frasco onde purpurinas flutuam na alma.

A menina ri diante do mapa. Conhece o portal da imaginação. O relicário pendurado no peito. Sentia as asas do pássaro como se fosse dela. Via coração em tudo que é flor…

Fechava os olhos e cantava coragem.

A vida, esse doar incessante de dor.

Mariana Gouveia

96. dos dias aleatórios de Abril

72. da estação das águas

A semente era preparada meses antes do começo das chuvas… o cheiro ainda permanece nas lembranças…

O café coado enquanto se prepara o arroz para plantar, o rádio ligado no programa favorito, a marcação do primeiro lote… tudo gerava a gestação do que nasceria tempos depois…

Elas eram escolhidas a dedo pelo pai, que sabia exatamente qual lote seria usado no ano seguinte e assim por diante.

O campo do capim dourado a aguardar as novas sementes e o capim colonião que logo iria virar pasto para o gado durante o período de seca e cama para os insetos que inevitavelmente viriam para ali.

A grama verde a escoar gotas e abrir caminho durante a madrugada – que era a hora exata de sair para o campo para a plantação – e logo depois e depois os brotinhos iriam começar a aparecer e dali, do alto do morro, ver a natureza cumprindo seu destino de vida.

Mariana Gouveia
72. da estação das águas