Depois da tempestade…

Depois da tempestade

o quintal se desarmou de verde – foi naquele dia da dor – e nem tive como salvar os insetos na Maria – sem – vergonha.

Hoje, depois dos dias ruins de secura, sem lugar para os pássaros migratórios e para os que vivem aqui, a grama já começou a brotar. A árvore principal balança suas folhas dando sinais de galhos. As flores na jardineira soltam seus botões relembrando a primavera em pleno verão.

As flores do mamoeiro exalam seus perfumes dentro da noite.
A sorte contada nas horas em que o relógio apenas marca a lembrança do que foi ontem.

Viver é algo além das chuvas…

dos risos nas esquinas, das palavras não ditas…

Viver é quase a generosidade da travessia. A sorte estampada nas folhas do trevo de quatro folhas onde a vida flui.

Mariana Gouveia

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325. das fragilidades secretas

 

Já te contei que invento a rua de cima?
Que o silêncio quando ecoa, faz um barulho ensurdecedor?
Na rua de cima tem as meninas que cuidam da beleza. Coloca nos dedos, a cor. Tem cada nome o verniz que a moça de cabelos vermelhos desenha na unha.
É quase uma tentativa de colar jardim nas mãos.
A árvore que fica além da esquina, floresce. Lá, de noite, eu consigo ver as estrelas todas.
É quase vertical, o portal. Os muros altos e as trepadeiras invadem as casas com suas cores insanas.
Essa rua, inventei em detalhes.
As casas e suas cores vibrantes cheia se sons. E a vida acontece dentro dessa invenção.
A estação acontece dentro das horas.
As fotografias do instante sobre o muro. O voo dos pássaros a cruzar a linha imaginária que invento entre uma rua e outra.
Tudo ímpar. Os números da rua a combinar com as casas. A sorte desenhada nos trevos e a alma inventada na rua do nada.

Mariana Gouveia
325. das fragilidades secretas

287. das infinitudes

 

A estação do frio invade a estação que é de flor

e o tempo é esse menino desavisado. Um poeta disse sobre isso de cair o inverno dentro da primavera. Até parece que o relógio voltou nos meses.
Colho no pé a fruta de vez – ainda nem era o tempo da colheita e o vento levou as folhas para além dos muros. Tudo gela em redor do quintal. os grafites rabiscados nos dedos não tem a arte das cores. São figuras imaginárias contadas em lendas que sabem sobre a numerologia. Conto a data dos seu dia e invento uma dimensão que intercala datas em comum.
O café na xícara a esfriar enquanto fico perdida e sem voz. Na rua de cima alguém canta uma canção sem ritmo. A vizinha narra a verdade das coisas que leu no jornal enquanto o vestido dança no varal sem o sol.
A sorte visita a menina três casas acima. A serenidade do dia vem na voz do moço que vende doces. Tem dias que vida parece um relicário na parede.

Mariana Gouveia
287. das infinitudes

196. da autonomia dos voos

 

enquanto eu falava do vento, ela criava poesias vendo o mar. os pés tocavam a areia fina – e minha pele ardia – desenhava o voo de quem voa lá no ritmo da asa. meu cabelo crescia diante do sopro – as ervas daninhas a aumentar no jardim. e o trevo da sorte nem continha a sorte real. era tudo obra do acaso enquanto a previsão anuncia mudança. me perguntam se prendo as joaninhas na gaiola. não aceitam o fato de que a sorte mora desse lao do muro. hoje já não é mais a mesma coisa e nem o verbo voar cabe na vontade da asa. havia um pé de nada que produzia sonhos e no quintal anunciam que o inverno vai chegar de verdade. não é todo sonho que se pode sonhar – pode-se usá-lo do lado do avesso – e ainda assim, torná-lo real. enquanto o pulmão respira sem ar. faz figa, moça. a sorte bate do lado de fora da estação.

Mariana Gouveia
196. da autonomia dos voos

158. da geografia das coisas

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Estendeu as mãos perdidas nas flores…
Desvendou o caminho da floresta na volta para casa.
Namorou verdadeiramente a lua.
Cabia onde aquele verbo que voava?
Continha onde a asa num grito?
Os medos bobos foram jogados pelos caminhos.
Alguém leu a noticia da sorte em um livro. Buscou o bilhete do realejo que tirou na infância.
O trevo marcava o coração dos bichos…
Pulou sete ondas imaginárias. Desejou a sorte de um amor tranquilo.
Viveu até onde a vida respirou saudade.

Mariana Gouveia
158. da geografia das coisas

124. dos dias diferentes dos outros dias

Contava a sorte nas asas

Viu estrelas cadentes riscar o céu.

Fez pedidos

para ilustrar a vontade de vida.

Acolheu risos em forma de fé.

Ganhou abraço quando a palavra perdida chegou.

Estendeu a mão para a mulher que conhece a sorte do dia.

Descobriu no trevo o caminho para seguir.

Mariana Gouveia
124. dos dias diferentes dos outros dias

102. dos dias aleatórios de Abril

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A ausência descrita na palma da mão. Foi ali, que aprendi a voar – a descobri novos horizontes – e concluí que o céu era o limite. O muro era o detalhe para aprender barreiras e superá-las.

Divago sobre o tempo e suas previsões loucas… o guarda-sorte na rotina dos dias…

Uma parede descreve poemas tortos… grafite louco de quem é lúcido por amar.

O livro aberto tem o perfume além dos mapas. O oceano é imenso em suas lonjuras no meu quintal. A maresia não conhece a asa da joaninha que baila aqui.

O milagre é aquilo que não é natural e era quase dizer que eu estava aqui enquanto você chorava.

A cal molhada escondia seu nome onde escrevi poemas… tudo era torto enquanto as tvs liam retratos perdidos na vida.

Alguém dizia que a sorte era adivinhada no primeiro sinal e eu não entendia o idioma de quem não conhecia a palavra amar.

Feliz no jogo… feliz onde você quiser ser.

Mariana Gouveia
101. dos dias aleatórios de Abril